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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Às vezes sinto falta do tempo em que éramos apenas bem-educados, cordiais uns com os outros. Quando não havia esta necessidade de sermos muito empáticos, de olharmos nos olhos, sem nunca fugir com a cara, de nos identificarmos muito, de sermos muito despidos, ou até mesmo nus, absolutamente familiares, conhecidos de há muito, mesmo que tenha sido só de agora. A distância inicial é condição necessária à aproximação. Sem essa distância (nem precisa de ser muito grande, e, por favor, não confundir com frieza, que é uma coisa muito diferente e muito triste) não temos como nos aproximar. É um espaço pequenino onde passa um tempo mais lento, muito nosso, que serve para observarmos, medirmos, escolhermos palavras. Para sentirmos o cheiro, o território. E vamo-nos chegando devagarinho, quase sem darmos por isso. Ou não. Ou simplesmente percebermos que não é para nós. Simplesmente vamos embora, seguimos caminho, sem desilusões ou outros cansaços.
Deito os olhos pelo campo de saramagos que se estende da janela do carro até a uma casa sem telhado, lá ao fundo, a miúda pergunta quanto tempo ainda demoramos, dou-lhe uma resposta vaga, também não sei, os plátanos esquálidos, tristes com os seus ramos nús, numa das curvas do caminho, as terras de casas de quatro águas a ladearem a estrada principal, uma família em fila indiana por lhe faltar o passeio, um campanário, um moto-cultivador com um velha de lenço sentada na caixa aberta, acena-me quando os ultrapassamos, dois ou três eucaliptais mistos com pinhal, abro vidro para lhes sentir o cheiro, a planície a enrugar-se com o cinzento que vai chegando do mar, quanto tempo falta? Estamos a chegar. Estamos sempre a chegar, mesmo quando parece que ainda agora acabámos de partir.
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