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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E com isto já vamos a meio de Abril, diz a rapariga do balcão. Não tarda estamos no Verão, diz uma mulher, enquanto paga quatro caseiras. E depois até ao Natal é um instante. Credo, diz a rapariga do balcão, a rir-se, também não é assim! Ai não que não é, diz a outra. O tempo é um grande velhaco, passa sem a gente dar por ele e quando nos apanha nas curvas já estamos velhos. Agarra no pão e olha-a, põe-te a pau que ele é um velhaco.
E novidades? Perguntou-me. Pensei em contar-lhe que ontem, já passava da uma da manhã, e ainda se ouvia um rouxinol, a cantar todo satisfeito.E que ao limparem o mato deixaram a descoberto o que eu pensava ser um poço, mas que depois me explicaram que era uma pia de sulfato, talvez de um tempo em que o terreno fosse uma vinha. Mas respondi que tinha começado a ver a "Casa de papel" e que não me tinha prendido muito, mas que devia ser de mim, que tenho cada vez menos paciência para séries. Deu conversa para mais uns minutos. Não me lembro bem dos argumentos, pois fui dizendo que sim, enquanto pensava na satisfação que me deu a descoberta da velha pia de sulfato. E que ao rouxinol só lhe faltou a romãzeira.
Não há-de ser nada, disse-me o meu pai pelo telefone, quando aterrámos no Funchal. Eu tinha 16 anos, ia de férias e rebentara a Guerra no Golfo. Não há-de ser nada, disse-me a Rita, quando, naquela tarde em que não fui trabalhar por estar com uma grande gripe, lhe liguei depois de ter visto em directo pela televisão o segundo avião rebentar-se contra a Torre Sul do World Trade Center. Não há-de ser nada, disse-me ele quando invadiram o Iraque dois anos depois, e disse-me o mesmo quando se deu a Primavera Árabe, se calhar é desta que isto muda, e voltou-me a dizer, não há-de ser nada, quando rebentou a Guerra na Síria, e depois também não foi nada com a crise dos refugiados, nem foi nada quando me acordou às 6 da manhã a dizer que o Trump tinha sido eleito, nem nunca foi nada sempre que o Putin vinha à baila. Não há-de ser nada, disse eu hoje de manhã à minha filha, quando ela me perguntou pelos misseis sobre a Síria. Não há-de ser nada. E continuei a beber café com o mesmo medo que me assaltou naquele dia em que aterrámos no Funchal e eu tinha 16 anos.
Uma vez encontrei um escritor a comprar farturas numa roulotte e, aproveitando um cruzamento de olhar, disse-lhe com um sorriso aparvalhado, gostei muito do seu livro. Ele olhou para mim, encolheu-se e não respondeu. Insisti, gostei mesmo muito. Ele encolheu-se ainda mais, tanto que me pareceu enfezado e, confesso, bastante desmazelado, com ar de quem parecia ter dormido vestido e acordado numa pensão de má qualidade à qual tinham cortado a água. Olhou para mim, muito, muito fugazmente e disse-me contrariado, obrigado, voltou-me as costas, pegou no pacote de farturas e foi-se embora. Arrependi-me de ter interpelado o homem. Percebi que tinha feito figura de parva, como aquelas pessoas pegajosas que nos velórios, mesmo mal conhecendo as pessoas, insistem em distribuir abraços enquanto sussurram, perdigotando, “ as minhas mais profundas condolências”. Ainda assim, apeteceu-me gritar-lhe: olhe, bardamerda! Não gritei, mas disse-o entredentes, estilo cobardolas. A senhora das farturas ouviu e riu-se, isso, alivie-se, guardar essas coisas faz mal à saúde.
Ainda não foi hoje que tirei uma fotografia ao campo de tremocilha, pensei nisso enquanto a minha filha me desfiava a lista de material de desenho que é preciso comprar para a prova de aferição. Também pensei no quanto gosto do “Nem eu” do Salvador Sobral, que não tirei os bifes para jantar e que não sei do guarda-chuva, já o devo ter perdido, perco-os todos. A minha filha olhou para mim zangada e disse, não estás a ouvir nada do que eu estou a dizer, e eu repeti-lhe todos os itens da lista, um por um, tirando a régua, por não me lembrar do tamanho. Olhou para mim com surpresa e eu voltei a lembrar-me que ainda não foi hoje que tirei uma fotografia ao campo de tremocilha. A ver se é a amanhã.
Penso que talvez haja uma escrita com atrito estático e uma outra com atrito cinético. A primeira é aquela que espera eternidades para começar um movimento, combatendo a custo as rugosidades dos nossos medos, vontades e desculpas débeis. A força necessária para a fazer mover ao longo de uma única linha que seja parece-nos imensa. A outra é aquela já em movimento, na qual, inexplicavelmente, tudo desliza melhor. Nela as nossas rugosidades interiores parecem tanto menores quanto maior é a velocidade a que a nossa escrita se desloca. Já nada nos detém. Qualquer superfície rugosa que tivesse havido ficou para trás. Pensar nestas coisas dá-me um estranho consolo. Daquele consolo que nos invade quando damos pelas coisas belas. E oiço o vento lá fora.
Foi uma boa foda, diz uma delas. Foi? Pergunta outra e ficam ali as duas a conjugar o verbo foder em várias pessoas e tempos verbais. Uma fá-lo de forma bem pronunciada, nítida, dá-lhe corpo para que os outros percebam. Já a outra mulher pronuncia-o para dentro, hesitando como que a ganhar fôlego. A boca não está habituada à palavra, é-lhe um objecto estranho e por isso cospe-a com um trejeitozinho envergonhado. Definitivamente, a forma como dizemos as palavras diz muito sobre nós.
Quando desviou os olhos reparou no canto da mesa descarnado. Ficou momentos a olhar aquele detalhe insignificante por não ter mais sítio onde pôr os olhos. Com a ponta de polegar esfarelou o contraplacado, enquanto ajeitava na cadeira o corpo que lhe sobrava a todas as lógicas. Tirando isso, lembrar-se-ia, anos mais tarde, que eram sete menos vinte e dois minutos de sombras que escorriam dos estores.
Há uns anos (poucos) tive um projecto doido. Um projecto onde punha adolescentes durante uma semana a experimentarem coisas diferentes. Sim, também comida. Mas a ideia do projecto era que durante 6 dias pudessem experimentar coisas como arte urbana, teatro, jazz, fotografia, cerâmica, ilustração, animação, filosofia (falada de outra forma), cenografia, escrita, literatura, entre muitos outros. Com isto pretendia-se ajudá-los a escolherem o seu caminho profissional, pondo-os em contacto com pessoas que tinham seguido um percurso diferente, pondo-os fora da zona de conforto. Mas, este projecto também os punha em contacto com actividades, muitas vezes fora do alcance da maioria dos adolescentes. Até porque, já se sabe, o melhor do mundo são as crianças e os adolescentes, uma seca insuportável. Até aos 12 anos há um mundo inteiro de actividades que põe bebés e criancinhas a ouvirem Schönberg e a dançarem “A Sagração da Primavera“, mas depois dos 12, salvo as excepções de quem toca um instrumento, pratica um desporto ou faz dança, não há mais nada, porque agora, meus meninos, já estão crescidinhos e a vida é para começar a levar a sério. Chamaram-me maluca (não sou muito certa, é verdade) por me meter com adolescentes, essas criaturas terríveis, insolentes, mandrionas, sem vontade para nada a não ser para contestar. Curioso, grande parte daquilo que sou, dos meus interesses, das minhas paixões, dos meus sonhos, foram forjados durante a adolescência. Se eu hoje consumo cultura, devo-o, em grande parte, à abertura de horizontes que tive nessa idade, através do contacto com pessoas diferentes. Pessoas que me mostraram que precisamos de imaginar o mundo em várias formas para não corrermos o risco de pensarmos que ele é plano. Num país com um consumo de cultura, em todas as suas vertentes, é tão pobre, onde um dos recursos mais escassos é um público desperto e disponível para a consumir, talvez não fosse má ideia pensarmos mais nisto. A cultura é um bem demasiado precioso para não crescer connosco. E é muito mais do que uma actividade extra-curricular que fica bem nas festas da escola. O melhor do mundo até podem ser as crianças, mas elas crescem (e depressa) e a cultura convém que as acompanhe nesse crescimento. Caso contrário, é como o outro senhor dizia: “Fica-nos curta nas mangas”.
No café, um grupo de mulheres diz mal de alguém. São cinco, três numa mesa e duas na mesa ao lado. Uma das mulheres está calada, de olhos baixos, enquanto brinca com os cantos de um guardanapo de papel. As outras falam alto. Em vez de dizerem o nome da visada, esbugalham os olhos sempre que referem algum detalhe, para garantir que quem está no café percebe de quem se trata. Uma delas, a que mais alto fala e mais alto se indigna, conheço-a de vista. Tem a mania, repete muito exaltada, tem a mania. As outras concordam, tem a mania tem, excepto a que brincava com o guardanapo, que entretanto se levantou, pagou ao balcão e diz, vou andando, tenho de ir pôr o almoço ao lume. As outras dizem-lhe adeus, sim, nós daqui a pouco também vamos. Mal ela sai, a mulher que fala mais comenta, torcendo os cantos da boca, esta para estar tão calada deve ser da mesma laia. Também deve ter a mania.
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