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A noite no campo

por Cristina Nobre Soares, em 30.04.18

Quando saí da cidade estranhei a ausência de luzes à noite. E lembrei-me de ter tido essa mesma sensação de estranheza da primeira vez que dormi no campo, em criança, em casa de uma tia. Não preguei olho, não por ter medo, não me lembro de o ter, mas porque o escuro nunca me tinha parecido tão escuro a ponto de ser quase um vazio. Na cidade sabíamos que era noite por se acenderem as luzes, e ali, olhando pela janela, não se distinguia nada lá fora, só o som do sino, a marcar as horas, um cão que ladrava, e o cantar do galo que chegou de madrugada. Passei a noite sentada na cama, a tentar que os olhos se habituassem à escuridão e ao silêncio, até começarem a adivinhar as coisas pelos vultos. O escuro da noite do campo ensina-nos a confiar mais no que não vemos.

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Cheiro a flores

por Cristina Nobre Soares, em 28.04.18

Ontem, a noite cheirava a flores, um cheiro adocicado, quase enjoativo. Tentei lembrar-me que flores seriam, tive a certeza de já ter estado num sítio que cheirava assim. Perto de mim, um rapaz e uma rapariga beijavam-se encostados à parede. Olha aí, disse a rapariga ao dar pela minha presença. Riram-se.Continuei a fingir que não os via, afastei-me e devolvi-lhes a invisibilidade. E a minha também. Os beijos dos outros são corpos estranhos no nosso pudor. O cheiro voltou. Lembrei-me que havia noite, uma porta entreaberta, daquelas com vidros martelados, luzes das escadas acesas, o mesmo cheiro lá fora, alguém que passou, olha aí, tenho de ir, disse eu. Mas continuei sem me conseguir lembrar que flores seriam. As memórias misturam-se umas com as outras, tendemos a completar-lhes os hiatos com coisas que não aconteceram, obcecados em lhes dar um sentido. Talvez não houvesse porta nenhuma, talvez tivesse fechada e não passasse ninguém. Mas lembro-me do mesmo cheiro e que fiquei.

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A esses nem o Salgueiro Maia lhes valeu

por Cristina Nobre Soares, em 25.04.18

Tenho a dizer que acho muito mal que não se fale da injusta opressão que sofreram todos os filhos cujos pais, perante um pedido de saída à noite ou um qualquer pressentimento de rebaldaria libertária, lhes disseram " Nem pensar, que o 25 de Abril ainda não chegou cá a casa."

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Manica-Sofala

por Cristina Nobre Soares, em 24.04.18

Quando se começava a aproximar o feriado do 25 de Abril lembravam-se sempre que eu era retornada. Havia sempre algum pai, tio, primo, conhecido que tinha estado na guerra do Ultramar por “minha causa”. Havia sempre algum miúdo que dizia que os meus pais eram fascistas. Havia sempre algum miúdo que dizia que andávamos lá a explorar os pretos, que se aquilo era tão bom que lá tivéssemos ficado, que voltássemos para lá e não roubássemos os empregos dos que cá estavam, que só sabíamos andar na mama do IARN. Eu nem sequer sabia o que era o IARN. Aprendi a omitir o sítio onde nasci. Tinha vergonha. Beira. Manica-Sofala. Manica-Sofala. Manica-Sofala. Já era adulta quando o disse sem ser a meia-voz, sem doer. Quando também já não doía a ninguém quando eu o dizia. Já era adulta quando me deixei pertencer à terra onde tinha nascido.

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Não te desgraces

por Cristina Nobre Soares, em 21.04.18

Um dia ensinam-te que tens de ser boa menina, que tens de saber comportar-te, que tens de te controlar. Que tens de ter noção que os rapazes não gostam de raparigas mandonas, de raparigas que tomam a iniciativa, que dizem sim à primeira, porque lhes apeteceu logo à primeira, e que as raparigas que dizem sempre sim à primeira são umas fáceis, que a essas ninguém lhes pega. Que não podes dizer nãos redondos sem justificações, que toda a gente tem tudo a ver com isso, tu não és dona de nada, nem sequer do teu não,que os rapazes não gostam de ser rejeitados, depois não te queixes. Que tens de ter noção que os rapazes, que entretanto se tornaram homens, não gostam de mulheres mais espertas do que eles, de mulheres que não precisam deles para nada, que não se babam de admiração pelas tretas que dizem, de mulheres que lhes batam o pé, tens de fingir que concordas para levares a tua avante, que os homens são uns tontos, acham que mandam, mas não nós, mulheres, é que fazemos deles gato-sapato, tens de os saber levar. Que tens de mandar sem ninguém dar por isso, a fazer-lhes festas na cabeça e a dizer-lhes que eles são os maiores com um sorriso doce, senão ninguém te pega, que as mulheres implacáveis são mal fodidas, e ninguém quer nada com essas. Um dia ensinam-te que tens de sentir culpa para seres decente, que só não sentem culpa as ordinárias que acham que podem mandar no corpo e na vontade delas. Um dia ensinam-te isto tudo. E tu, obediente, copias as regras todas com letrinha bonita para o teu caderno de margens vermelhas. Cautela, não vás para além delas, não rasures, não deixes cair nódoas.E se puderes faz um desenho limpinho por baixo. Um dia ensinam-te isto tudo. E se não aprenderes pede desculpa, porque a culpa é sempre tua. Vá, pede desculpa as vezes que forem precisas. Isso, não te desgraces.

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Noite cá fora

por Cristina Nobre Soares, em 20.04.18

Vou a pé, digo. Gosto de caminhar à noite, do barulho dos meus passos na calçada, do rolar dos carros no empedrado de granito, das vozes em surdina. Lá ao fundo a trovada que se aproxima, um estore que se baixa à pressa, as primeiras gotas de chuva, não faz mal se me molhar um pouco, corra, diz-me um arrumador, corra, que vai engrossar. Não faz mal que chova. Não me importa. Hoje, estou mais leve. Hoje, é só noite cá fora.

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Par de pernas

por Cristina Nobre Soares, em 20.04.18

Enquanto esperávamos por um amigo que se atrasara, chegou uma rapariga para abrir a loja do outro lado da rua. Uma rapariga jeitosa, de rosto bonito, bem maquilhado. Trazia uma saia comprida com uma racha de cada lado. Quando se acocorou para destrancar a persiana, a saia resvalou e mostrou duas belas pernas. Um dos homens que estava comigo, esticou o pescoço para poder ver melhor. Eu olhei-o de esguelha. O que queres? Sou homem, disse-me com alguma irritação, provavelmente por ter sido desmascarado. Sou homem, repetiu. Achei-o tremendamente ridículo, não por ter olhado paras as pernas da rapariga, mas pelo transpirar de pecador estagiário, que lhe manchava a decência por debaixo dos sovacos. As mãos também deviam estar suadas. Imaginei-o a limpá-las à pressa, nas pernas das calças, antes de entrar em casa e de tocar na santa mãe dos seus filhos. À noite, publicou no perfil uma fotografia de família, a posarem numas férias em Albufeira. Deixei um coração como comentário.

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Bons rapazes

por Cristina Nobre Soares, em 19.04.18

Voltei a um livro que tinha posto de parte há um ano, por na altura o achar chato, previsível. Aborrece-me ler frases, páginas que já sei como vão terminar, por mais bem escritas que estejam. Gosto de livros que me façam sentir desconfortável, talvez sofra de um certo masoquismo literário, mas não tenho pachorra para “bons rapazes” no que diz respeito aos livros. Gosto dos que são má companhia, dos que nunca sabemos o que vem dali, que nos tiram o tapete debaixo dos pés, dos que pagamos para ver o jogo. Não percebo porque pus este livro de parte. Acho que me deixei enganar pelo ar certinho das primeiras páginas. Filho da mãe.

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Coisas pequenas

por Cristina Nobre Soares, em 17.04.18

Às vezes, quando me apanhava tristonha, a avó da Patrícia perguntava-me, então, Cristininha, o que é isso? Eu encolhia os ombros e com um fiozinho de sorriso respondia, não é nada. E ela fazia-me uma festa na cara e dizia, não, nada nunca é. Podem é ser coisas pequenas. São coisas pequenas, que amanhã passam. E eu aprendi que os dias mais tristes, a chuva, o cinzento, as palavras que doem, as que se engolem, as que não se compreendem, só anos depois quando a gente as lembra, as zangas, os gritos, as lágrimas, os silêncios, o apartar, o fugir, as saudades são coisas pequenas. Coisas pequenas que amanhã passam.

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Inveja

por Cristina Nobre Soares, em 17.04.18

Dou uma vista de olhos à matéria que a minha filha precisa de estudar para o teste de físico-química. Está a dar o som e o fenómeno ondulatório. Diz-me que é uma grande seca. Não é nada, digo-lhe eu. E conto-lhe a história da recuperação da gravação de um concerto de Brahms, cujo único vinil existente estava danificado. E que essa recuperação só foi possível graças a esta parte da física. Caso contrário teria ficado irremediavelmente perdido e ninguém o ouviria. A minha filha pergunta-me como sei esta história e respondo-lhe que a ouvi numa apresentação de trabalho do mestrado. Todos nós tínhamos levado apresentações muito armadas aos cágados, mas sem interessezinho nenhum. Então, foi a vez de um rapaz, que até aí tinha sido transparente, que levou um vinil, um gira-discos, daqueles portáteis que se viam nos anos 80 e um pedaço de giz. Pôs o disco a tocar e começou a apresentação assim: "Se não fosse a física, não estaríamos a ouvir isto." Depois, enquanto contava a história da recuperação desenhou um gráfico e escreveu umas equações no quadro. O arranhar do giz fez-me pele de galinha. Ou foi isso ou a inveja. Tanta inveja que eu tive dele.

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