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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Irrita-me solenemente a modéstia hipócrita que reina no nosso país. Aquela mania que temos de ser muito pobrezinhos e honrados, muito cinzentinhos ou, melhor ainda, transparentezinhos, ficarmos no canto a sorrir discretamente, que as gargalhadas são coisa de gente descarada, à espera que nos reconheçam o valor que nos quiserem dar. Mas ainda me faz mais confusão aquele o pessoal que acha que ter valor é dourar a pílula ou acrescentar dez metros à cobra. Que põe patine em tudo, mesmo na madeira bichada. Não que a gabarolice alheia me afecte (antes isso que acharem que são o Napoleão ou a rainha Victória), mas fico a sempre a pensar: deve ser realmente muito triste ter de se ser postiço ou de fancaria para se poder ser alguma coisa nesta vida.
Olho para o móvel da sala e penso que deveria passar-lhe com um pano, que o pó já se nota daqui. Uma vez, um daqueles senhores que fazem demonstrações de uns aspiradores, aos quais só falta um módulo lunar, explicou-me que a maior parte do pó são restos de pele que vamos largando. Fiquei um bocadinho enojada com a possibilidade de ter restos de mim e dos vizinhos espalhados pelos móveis, confesso, e foi ideia que me demorou algum tempo a sair do pensamento. A senhora deve ter sempre as janelas abertas, comentou ele, como uma pontinha de censura.Sim, realmente gosto de as ter abertas. Fechadas parece que os dias não nos entram pela casa e seguem rua abaixo sem que demos por eles. Ele abanou a cabeça e com o mesmo tom de censura, disse, a senhora não deve fazer mais nada senão limpar o pó. Tem aí um verdadeiro trabalho de Hércules. Pensei que ele quereria dizer Sísifo, mas não o corrigi. No que diz respeito à lida da casa qualquer mito que corra mal para o lado dos mortais serve.
Olhando as árvores vazias, que é uma coisa muito diferente de estarem nuas, pergunto-me para onde vão os pássaros nos dias de chuva.
Naquela tarde fomos de comboio até Carcavelos. Sei que era um Sábado de Inverno pela iminência da chuva e pelo esforço que pusemos nas poucas palavras que dissemos. Bebemos um café numa esplanada e continuámos a evitar o assunto falando do tempo ou de trivialidades. Penso que um ou outro colega de faculdade terá vindo à baila. Falar dos outros é especialmente útil quando somos cobardes. Quando regressámos já era noite e ele foi comigo até Algés, mesmo morando duas estações antes. Despedimo-nos na rampa à saída da plataforma, mantendo a distância do inevitável. Ele disse, então ficamos assim. Eu respondi, olhando para o homem dos guarda-chuvas, é melhor. Demos um beijo desajeitado e desprendido. Começou a chover e eu pensei que aquilo era como nos filmes. Tirando o alívio de ter acabado tudo. Isso não vende bilhetes.
Há uma cozinha da minha infância, com uma janela grande onde eu esticava os olhos até aos montes, bem lá ao fundo. Há uma cozinha da minha infância onde a voz da minha tia descia em caracol com o cheiro a maçãs guardadas no sótão. Em que pensas tu? Queres que a tia te faça uma gemada? Perguntava a voz dessa cozinha da minha infância e eu dizia que sim, meio a medo. A tia não diz nada, é um segredo só nosso, fica só entre a gente as duas, o açúcar a arranhar-me a garganta, eu a raspar com a colher no fundo da chávena almoçadeira de flores castanhas, fica só entre a gente, eu a rir-me pela guloseima e pelo segredo e a janela grande a chamar-me os olhos. Lá em baixo, as vozes a enterrarem-se na gravilha por debaixo da janela , olha, vêm aí os teus primos, dá-me a chávena, que a tia lava. Fica só entre a gente a duas, é um segredo só nosso.
Amanhã é aquele dia em que as mulheres que defendem o dia e as mulheres que não o defendem passam o dia a ver quem é que tem mais razão, enquanto os homens ainda acham que é um bom dia para dar flores a todas. E não saímos disto.
Parei de ler por me arderem os olhos. O autocarro vem na penumbra. Tantas vezes, em miúda, a minha mãe me vinha acender a luz do quarto, dás cabo da vista! Pouso o livro e lembro-me do homem do metro, com uma mão de unhas sujas cheia de amendoins. O telemóvel tocou e, ao atender, saiu-lhe um sotaque do Nordeste brasileiro, ao mesmo tempo que lhe caíram alguns amendoins por entre os dedos. Não deu por isso. Guardo o livro para poder escrever isto. Ainda me ardem os olhos, e o sotaque do homem afinal era do Sertão e não do Nordeste.
Hoje, quando me sentei à secretária, escrevi no bloco de folhas cor-de-laranja todas as coisas que tinha para fazer. Faço-o sempre com uma letra redonda e bonita, com a mesma aplicação que punha quando fazia as cópias na escola primária. Tenho de me esforçar e escrever muito devagar para que a letra fique assim, caso contrário só me saem rabiscos ilegíveis, que até eu tenho dificuldade em decifrar. E as coisas que tenho para fazer se forem escritas com essa letra parecem-me mais sérias, mais determinadas, cheias de vontade. Depois, ao longo do dia, fui riscando as tarefas que fiz. Cumpria-as quase todas. Ficaram-me uma ou duas por fazer. Entretanto, parou de chover e eu enrosquei-me no banco que dá para a janela com um livro no colo, sem o abrir. Em vez disso fiquei a olhar pela janela, a pensar em muitas coisas, ao mesmo que tempo não pensava em nenhuma. Então? Não lês o livro? Perguntam-me, quando me vêem assim. Digo que não. Ou digo, com a voz perdida noutro sítio qualquer, já leio. O que eu não digo é que eu preciso deste não fazer nada, deste silêncio suspenso numa janela qualquer para desalinhar a letra bonita. Para me tornar num rabisco que ninguém consegue ler. Nem eu.
Uma carrinha faz uma manobra com dificuldade, por causa dos carros estacionados em segunda fila. Há uma mulher que vai dando indicações ao condutor. Vê-me aproximar e faz-me um gesto para que eu pare. Um gesto muito exagerado, com os dois braços no ar, enquanto grita qualquer coisa que não compreendo. Paro o carro, mas ela continua a gesticular. Os gestos nervosos e rasgados fazem-me lembrar os da espanhola, naquele dia, nas Astúrias. Tínhamo-nos ficado parados numa estrada muito estreita, de sentido único por causa de um carro que se tinha metido em sentido contrário. Do lado direito tínhamos uma ravina. Uma mulher tentou avisar-nos, gesticulando muito. Quando saí do carro, correu para mim e começou a falar em espanhol. Abanei a cabeça, disse-lhe que não percebia, que falasse mais devagar. Não compreendo. Ela olhou-me de alto a baixo, com espanto, como se eu estivesse a mentir. Insistiu. Não entendo. Voltou-me as costas, gesticulando. Mais tarde, já à noitinha, voltámos a passar por ela. Levou um dedo à pálpebra de baixo, como quem diz, eu topei-te. Ficara mesmo convencida que eu era uma espanhola armada em esperta.Ou apenas armada em esperta.
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