Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Gavetas

por Cristina Nobre Soares, em 29.03.18

Sento-me para a segunda parte do dia de trabalho. Reparo que tenho uma das gavetas da secretária aberta. Só um bocadinho aberta, o que significa que talvez esteja apenas mal fechada. Tenho esse péssimo hábito, de deixar as gavetas mal fechadas. Talvez por distracção, por desmazelo ou preguiça. Talvez por tanta coisa. Ainda por cima é uma gaveta cheia de coisas das quais já não me lembro, o que significa que dificilmente precisarei delas. Tralha, portanto. Devo tê-la deixado assim por achar que encontraria alguma coisa lá dentro. Algo que me estaria a fazer falta. Obviamente já não encontrei. Fecho-a devagar com a palma da mão. Um dia destes esvazio-a.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sobre portas e porteiros

por Cristina Nobre Soares, em 29.03.18

Há muitas, por todo lado, permanentemente. Todos nós, alguma vez, se calhar ainda ontem, ficámos à porta de alguma coisa, ou tivemos que esperar, insistir, voltar, para que nos deixassem entrar, outras simplesmente entrámos. Também vezes houve em quem demos meia volta, sem ressentimentos, não valia a pena, porque percebemos que não éramos dali, nem nunca seríamos. Mas todos temos, também, as nossas portazinhas onde decidimos quem entra e quem sai. Onde escrutinamos os outros e, com mais ou menos tirania, também decidimos se são, ou não, merecedores de entrarem nas nossas vidinhas. Enfim, a vida é toda ela uma imensa porteira, meus amigos. E tramada.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Páscoa

por Cristina Nobre Soares, em 27.03.18

As amêndoas de açúcar mole que se derretiam na boca, os ovos de chocolate comprados no "Ouro verde", não comas tantos doces, olha os dentes, o meu pai a alisar as pratas coloridas que se guardavam depois entre os "napperons" e os guardanapos, na primeira gaveta do móvel da casa da jantar, a contar da sala, tem de ser com a parte de trás da unha para não rasgar, mas as minhas rasgavam-se sempre. A professora Conchita a dizer que na Sexta-feira Santa chovia sempre porque era o céu a chorar por Jesus, eu a perguntar à minha mãe se o fiambre do pão contava como carne, podes comer, que ainda não tens idade para Deus se zangar contigo e os sinos que o João Villaret dizia tocarem, mas que nunca se ouviam no meu bairro, só havia procissão dentro do gira-discos do meu pai.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Das vantagens de se estar no Facebook

por Cristina Nobre Soares, em 26.03.18

Ontem, li um post do Rui Bebiano sobre as vantagens de se estar no Facebook. Subscrevo-o na íntegra. Tal como ele, já reencontrei por aqui pessoas que não via há muito tempo, conheci outras, algumas muito interessantes, com as quais tenho aprendido imenso, fiz amigos (dos mesmo a sério, não dos virtuais), conhecidos, fiquei a saber de eventos, acontecimentos, mortes, nascimentos e outras coisas que de outra forma não saberia. Arranjei trabalho e consegui levá-lo mais longe do que se não estivesse por aqui. Tive oportunidade de participar em coisas que me enriqueceram como pessoa, algumas das quais nem fazia ideia que existiam. Tudo, só por estar aqui nesta troca, nesta partilha. Partilha. Quando me dizem que “ponho tudo” no Facebook, rio-me. Mas rio-me muito e com vontade. Porque, como toda a gente, ponho aqui apenas aquilo que quero. Ou seja, aquilo que eu não me importo que fique “para sempre” na internet, aquilo que não me importo que as pessoas saibam sobre mim, aquelas minhas fotografias que não me importo que vejam. Enfim, mais ou menos o que todos fazemos na vida real, onde o “tudo” sobre os outros vai muito para além do que nos passa pelos olhos. "Ah, não tens controle com o que podem fazer com o que publicas." Tenho ideia, que por mais que confie em alguém, se eu lhe contar alguma coisa na "vida real", também não tenho garantias com o que essa pessoa poderá fazer com essa informação. É a vida. Quem não percebe isto ou não percebe o Facebook ou usa-o de outra forma, com outros fins, que a mim não me interessam minimamente. Haverá quem tenha outros critérios na sua escolha de publicação. Mas isso, cada qual saberá de si e da maneira como usa esta plataforma. Que pouca culpa terá nessa tal escolha. E é aí que muitas vezes reside o tal “bem” e “mal” que tanto preto e branco traz à forma como vemos as coisas. Na nossa escolha.

p.s - Não falei aqui do típico comentário do "estás sempre no Facebook". Fica para outro post. Sobre a imensidão de coisas inúteis que os outros fazem com o tempo deles.

 
 
 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Maquilhagem

por Cristina Nobre Soares, em 23.03.18

À minha frente está sentada uma mulher. Folheia uma revista com desinteresse. Tem os olhos pintados com uma sombra azul brilhante, contornados com lápis azul na pálpebra inferior. Parece saída dos anos oitenta. Olho-a. Pela idade deveria ser jovem nessa altura. Há mulheres que cristalizam, na forma como se arranjam, a época em que se acharam mais bonitas. Como se a maquilhagem fosse uma lápide daquilo que foram.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Parque de estacionamento

por Cristina Nobre Soares, em 22.03.18

Ao atravessar o parque de estacionamento reparo num grande bando de pombos que voa em círculo. Agitam-se com os gritos de um pequeno bando de gaivotas que sobrevoa o prédio do outro lado da rua. Quando as gaivotas se calam alguns pombos pousam nos telhados, mas ao primeiro grito delas retomam o círculo. Estugo o passo para atravessar depressa o parque de estacionamento. Faz-me medo o medo dos pássaros. Passo por um homem, talvez o arrumador, que levanta o rosto em direcção aos prédios e grita, cuspindo muito, qualquer coisa que não percebo, talvez por não ter quase dentes nenhuns. Uma gaivota grita mais uma vez Alguns pombos desistem da fuga em círculo e arrumam-se num dos candeeiros e eu atravesso a rua a correr. Já está.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Dia mundial da poesia

por Cristina Nobre Soares, em 21.03.18

No Dia Mundial da Poesia, o poema que deu o nome a este blogue.

 

Poema em Linha Recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pai possível

por Cristina Nobre Soares, em 19.03.18

Um dia, os vossos filhos lembrar-se-ão de vocês de uma forma inesperada, muito diferente do que seria suposto. Um dia, os vossos filhos vão construir as memórias à maneira deles, vão cerzir o que se esgaçou, tapar buracos onde os houve, ou simplesmente deixar andar. Um dia, os vossos filhos vão querer ser melhores pais do que vocês foram. Mas noutro dia, muitos dias mais tarde, vão perceber que afinal os filhos deles também acham que eles poderiam ter sido melhores. Nesse dia, os vossos filhos, com quase nenhuma desilusão, que afinal serão apenas pais possíveis, como todos os pais são. E que ser possível será sempre o que de mais próximo temos de ser ou ter o pai perfeito.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Bolo de ananás e caramelo

por Cristina Nobre Soares, em 18.03.18

Hoje, era para fazer um bolo de arroz. Numa forma grande e com uma espessa carapaça de açúcar cristalizado por cima. Que era o que eu comia, a base, geralmente esturricada, deixava-a no prato, escondida por debaixo de guardanapos de papel para que não dessem por isso. Mas mudei de ideias. Resolvi fazer um bolo de ananás. Daqueles que se põe o ananás e caramelo a forrar a forma. Gostava muito que a minha mãe fizesse este bolo. Foi uma grande amiga quem lhe deu a receita. Deu a receita à minha mãe e a mim, depois de morrer, deu-me o segundo nome. Mais tarde aprendi a fazer o bolo e fazia-o para o lanche de Sexta-feira, quando a minha melhor amiga voltava do colégio de Odivelas. Comíamos bolo de ananás e caramelo, bebíamos leite com Nesquik, não levem a comida para o quarto, olha a carpete, mas levávamos, passávamos o resto da tarde a trocar confidências e a fazer planos para quando fôssemos crescidas. E ser crescida era um sítio tão longe que quase acreditávamos que tudo duraria para sempre, que talvez fôssemos imortais. Hoje, fiz um bolo de ananás e caramelo. Talvez um dia a minha filha o faça para uma amiga ou, quem sabe, lhe dê a receita.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sangue velho

por Cristina Nobre Soares, em 17.03.18

Já não sei quantas vezes é que me pediram para contar a história da minha mudança de vida. Perdi a conta, e confesso que já suspiro antes de o fazer. Mas conto-a, quase com contornos de epopeia de final feliz. Conto-a assim porque na maior parte das vezes quem me pede para contá-la não quer realmente saber o que se passou, e só o faz para ver se ganha coragem. E eu faço o meu papel. Omito todos os dias cinzentos, desesperados, angustiados que essa passagem teve. Omito as lágrimas, a falta de força nas pernas, o pensar permanentemente que desistir poderia não ser mais fácil mas decerto doeria menos. E omito a pior coisa de todas: a dos empregadores, clientes, parceiros, diabo a quatro, mesmo aqueles que aplaudem a coragem de quem o fez, acharem que já “és velha para o mercado”. Sim, senhora, toda a gente te admira muito, tiveste muita coragem e tal, mas estamos à procura de malta mais nova, sangue novo (o que me torna numa espécie de sangue velho daquele que já não traz saúdinha nenhuma), que “têm mais capacidade de adaptação” e "sangue na guelra" (o que me dá muita vontade de rir). Não adianta argumentares com o facto de poderes ter mais algum calo, experiência (daquela que se ganha na vida e não num estágio). Porque para “eles” já és velha, fora de prazo. Aos 40 e picos. Mais ou menos a meio da tua vida, o que é um completo absurdo. Por isso, caros empreendedores, que tão inspirados se dizem com histórias como a minha, lembrem-se que as mesmas não se fazem com palminhas e palmadinhas nas costas, nem servem apenas para fazer Power points inspiradores. Constroem-se com dar oportunidades concretas, com largar preconceitos estúpidos (e facilidades de contratar malta nova porque a ela se paga menos). E que a idade não é uma perda. Muito pelo contrário, é um ganho, que o tempo ganha-se sempre. Que, ao contrário do que muita gente pensa, o tempo não se perde, transforma-se. Que foi o que eu fiz com o meu. Mas para isso precisei de o ganhar primeiro.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pág. 1/3



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D

GA



google-site-verification: googledeb34756365df053.html