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Os que celebram e os que não

por Cristina Nobre Soares, em 14.02.18

Há os que hoje suspiram amorosamente pelo dia dos namorados e os que profundamente o detestam. Os que reviram os olhos ao Natal que já não se pode com as músicas, o Carnaval que não tem piada nenhuma, a Páscoa é igual ao litro se lhe tirarmos o jejum da Sexta-feira Santa e os que anseiam de corpo e alma por estes dias. Os que ignoram o dia da mãe, do pai, da criança, dos avós, que isso tudo é consumismo e os que se pelam por ter um pretexto para dar qualquer coisinha.Há os eternos distraídos que nunca sabem o que se celebra naquela quinta-feira móvel, no dia 8 de Dezembro, no 15 de Agosto e aqueles que até sabem quando é o Dia de Finados. Há os que não lhes chegam as celebrações nacionais e que importam o S. Patrício, o Halloween, a Black Friday, o Thanksgiving, a tomada da Bastilha e mais o que lhes vier à mão. E também, os tradicionais e populares, que não falham um Santo António ou São João, consoante a geografia, que ao São Pedro ninguém liga, só quando a gente se fina. Há também os que não celebram nada, nem os anos, é só mais uma data no calendário e os que começam a avisar com um mês de antecedência, não vá a malta esquecer-se de lhes dar os parabéns. E há quem celebre o não celebrar nada. Mas, mais do que tudo, há o dia de Santa Indignação que esse sim, não escapa a ninguém e ao contrário do Natal é mesmo quando o homem quiser.

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Serpentinas

por Cristina Nobre Soares, em 13.02.18

Lá ao fundo vêem-se os vultos dos homens que vieram pescar. Esperam, com as canas enterradas na areia. Há famílias que passeiam com as crianças mascaradas, passa um miúdo com um pijama preto e um capacete de Darth Vader. Leva um rolo de serpentinas na mão. Agora não as gastes todas de uma vez, dizia-me a minha mãe. Eu segurava uma argola entre o indicador e polegar e levantava-a bem alto para que o vento a desenrolasse. E ficava a ver aquele canudo de uma qualquer cor desbotada a esticar-se até que perdesse por completo a forma de hélice. Fazia isso com todas as argolas para que se embaraçassem umas nas outras. Depois soltava-as e ficava a vê-las afastarem-se numa dança que as transformava um único novelo. Pronto, já as gastaste todas num instante! Isso assim tem piada nenhuma! O meu novelo de fitas de papel a prender-se debilmente numa esquina de passeio e a desenrolar-se de novo. Tinha, tinha muita piada.

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"Estás na mesma"

por Cristina Nobre Soares, em 11.02.18

“Estás na mesma”. É a frase que todos queremos ouvir quando reencontramos alguém que não vemos há muito tempo ou quando comparamos fotografias. “Estás na mesma, não mudaste nada”. A frase mágica que nos liberta do medo do tempo e da mudança. A frase que nos traz o imenso alívio por afinal sermos sempre presente, preso num ideal qualquer. Como se o melhor de nós fosse algo que já passou, sem percebermos que querermos “estar na mesma” é desistirmos de nós. Agora só nos resta parecer com alguma coisa que achamos que fomos. O oposto de estarmos na mesma é estar estarmos "estragados". Fulana ou sicrano está tão estragado, dizemos. É, parece que a vida nos estraga. E que temos uma parte de culpa em deixar que isso aconteça, em deixar transparecer que vivemos. "Estás tão diferente", disse-me uma vez uma amiga, com ar quase condescendente.Ri-me e disse-lhe, não, agora é que estou igual. Por fora é só para enganar.

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A gente tem de falar de alguma coisa

por Cristina Nobre Soares, em 07.02.18

Enquanto pago o pão, um homem entra no café. Isto hoje está a valer! Diz, enquanto esfrega as mãos. Uma  mulher que está sentada comenta qualquer coisa sobre frieiras e a rapariga ao balcão diz, hoje até vesti meias-calças. Gera-se uma grande conversa sobre o frio que acaba com lamentos sobre o preço da luz. Entra outra mulher no café, que também se queixa do frio, isto hoje está que não se pode. Era o que a gente estava aqui a dizer, diz a rapariga do balcão. Isto frio sempre houve no Inverno! Resmunga alguém lá ao fundo, não me lembro de fazer calor em Fevereiro. A rapariga do balcão, pisca-me o olho, enquanto acaba de me fazer o troco, mas a gente também tem falar de alguma coisa, não é? E eu respondo-lhe: é.

(e penso: nas redes sociais é mais ou menos a mesma coisa:)

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O silêncio é um privilégio dos cúmplices

por Cristina Nobre Soares, em 05.02.18

Voltávamos juntos no mesmo autocarro. Falávamos do sentido da vida ou do sentido que ela nos fazia aos vinte. Por vezes instalava-se aquele silêncio desconfortável de fim de assunto e de não saber o que se dizer. E eu tentava quebrar o constrangimento com conversa avulsa e trivial, daquela sem interesse nenhum, que só serve para preencher buracos. Um dia, esse meu amigo disse-me, não fales, vamos agora os dois calados. Espantada, perguntei-lhe: mas não achas esquisito irmos os dois calados o resto do caminho? Ele sorriu-me, não, pelo contrário. Se formos os dois, sentados ao lado um do outro, calados, sem nos sentirmos mal, é sinal que temos uma grande cumplicidade. O silêncio é um privilégio dos cúmplices. Passámos no teste, e continuámos a tentar descobrir o sentido da vida nas viagens entre Santo Amaro e Miraflores. Não descobrimos, mas tornámo-nos amigos cúmplices, sem medo do silêncio. Lembro-me disto sempre que alguém fica constrangido pela falta de conversa e insiste no serrar de serradura.

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Rankings

por Cristina Nobre Soares, em 04.02.18

A minha escola secundária tinha drogados, malta que só fumava uns charros para se armar em rebelde, gente certinha que nem tabaco fumava. A minha escola tinha gente do bairro da lata, meninos ricos, gente de classe média e remediados, gente que cheirava mal por não ter água em casa, gente que tresandava a perfume fino. Na minha escola havia brancos, pretos, ciganos, chineses ainda eram poucos, tinha marrões, maus alunos, gente que tirou média de vinte, gente que teve de ir para o recorrente por já não poder chumbar mais. A minha escola secundária tinha professores brilhantes que me marcaram para a vida (a minha de filosofia, por exemplo), professores medíocres, maus, assim-assim, professores iguais ao litro. A minha escola tinha malta que só vestia Chevignon e All-Stars importados da América, malta que andava de skate, outros de mota, os surfistas eram como os chineses, ainda poucos, vangs, alternativos, parolos, mal-vestidos e muita gente transparente igual a nós. Da minha escola saiu gente que teve um futuro brilhante, gente que teve uma vida igual a toda a gente, gente que morreu muito nova e nunca saberemos o que seria, gente que engravidou aos 16, gente de todas as expectativas que se deu mal, gente que nunca saiu da cepa torta. Se calhar também devia haver um ranking para isto.

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Picture of my own

por Cristina Nobre Soares, em 04.02.18

Na rádio passa uma música que não nos conseguimos lembrar de quem é. Na passadeira atravessa uma mulher que leva a mão ao cabelo por causa do vento e recordo-me da outra mulher que se sentou ontem à minha frente no metro e que levava o cabelo coberto por um hijab azulado. Não lhe consegui perceber a idade, pelos olhos vivos parecia uma criança, pela postura uma mulher muito velha. Tenho esta mania de tentar adivinhar a idade das pessoas, como quem começa uma história. Decidi que teria 29 anos, os números primos dão bons princípios de frase. Saí nas Picoas, ela ficou , a mulher na passadeira desiste de segurar o cabelo e eu digo, isto é dos Fingertips.

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Do equilibrio

por Cristina Nobre Soares, em 03.02.18

Quando saímos das árvores trouxemos connosco a consciência do nosso peso e, com ele, a da queda, libertámos as mãos, erguemos a cabeça e transformámos esse novo equilíbrio em passos. Hoje, ao falar de quedas e da noção de que sobrevivemos a esse cair, pensei que a vida, no fundo, seria isso, a tomada de consciência do nosso próprio peso enquanto caminhamos.

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A carrinha do peixe

por Cristina Nobre Soares, em 01.02.18

Às vezes, oiço ao longe a buzina da carrinha do peixe. É uma carrinha branca que pára na rua, com as portas de trás escancaradas. As mulheres, mais velhas, vêm ver do peixe com os sacos de plástico dobrados e os porta-moedas debaixo dos braços. Conversam entre elas enquanto examinam a frescura do peixe pelo vermelho dos olhos e das guelras.Contam as novidades da terra, dos outros e algumas delas. O peixe é apenas um pretexto, o carapau, hoje, não é bom para fritar, que já parece chicharro, dirão. Como diziam as mulheres na praça do peixe a que eu ia com a minha mãe. A peixeira, onde a minha mãe se aviava, usava umas peúgas grossas por dentro das socas e punha sempre um ar muito indignado às perguntas da minha mãe, o meu peixe é tão fresquinho que até salta, ó freguesa. Quando não chamava freguesa, chamava “minha flor”. Tinha uma voz possante, escamava o peixe com uma ligeireza tremenda, uma chuva de escamas a caírem certeiras do mesmo lado do balcão e amanhava-os só com uma mão, metendo os dedos pela barriga do peixe adentro. Já ajudas a mãe, minha flor? Tens de aprender que um dia és tu.Oiço a buzina de novo. A carrinha já abala e as mulheres voltam para casa aviadas de peixe para semana.

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