Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Se eu não disse nada é porque estava tudo bem

por Cristina Nobre Soares, em 28.02.18

"Se eu não disse nada é porque estava tudo bem." Um dia ainda irei perceber esta mania tão portuguesa de achar que o "dizer" e o "falar" servem apenas para apontar o que está mal.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Da espera

por Cristina Nobre Soares, em 27.02.18

Enquanto espero que o chá arrefeça um pouco, espreito pela janela. Já se conseguem ver daqui os gomos do carvalho. Em breve espreitarão as primeiras folhas. É só esperar. Às vezes há que perceber que a vida é pouco mais do que isto: um banal chá com duas cascas de limão, enquanto esperamos que a chuva passe e uma certa Primavera chegue.

Autoria e outros dados (tags, etc)

De mulheres para outras mulheres

por Cristina Nobre Soares, em 26.02.18

Já por mais do que uma vez disse aqui que comentários como “tens de ter cuidado com a fama”, “tu é que te puseste a jeito”, “só te dás com rapazes”, “escusavas de ter levado mini-saia”, “isso não é coisa de mulher”, “uma mulher séria não tem ouvidos”, “uma mulher séria e com classe não levanta a voz, não ri alto, senta-se de joelhos juntos, de costas direitas e não se mete em conversas de homens”, “já sabias ao que ias”, ouvia-as de boca de outras mulheres. Os julgamentos mais duros, os apontares de dedo mais cruéis, a ponto de ainda hoje me lembrar nitidamente deles, vieram de outras mulheres. De outras mulheres. Infelizmente. Cedo decidi que queria ser tratada, ter os mesmos direitos de escolha que os rapazes. Mas também cedo percebi que essa não era uma batalha apenas a ser travada com o género oposto. E esta, a batalha que tive de travar com o meu próprio género, foi, muitas vezes e de longe, a mais dorida.
Neste rescaldo do movimento #metoo leio por aqui textos e comentários simplistas (e moralistas) que tornam as mulheres em vítimas indefesas, subjugadas pelos homens e que tornam estes em inimigos a abater. Assim será difícil chegarmos a algum lado. Sabem? Estes homens tiveram mães, avós, tias. E a minha pergunta, a que me corrói acima das outras todas, a que me dói até ao osso, será sempre: E o que fizeram estas mães, avós, irmãs e tias para educar estes rapazes? O que ensinaram estas mães? A eles, aos filhos e, também, às filhas? Ensinaram-nos a dividir as tarefas de casa com as irmãs? Deram-lhes os mesmos horários e liberdades quando saíam à noite? Exigiram-lhes o mesmo no comportamento? Ensinaram-nos a tratar bem as namoradas? Que a responsabilidade numa gravidez adolescente é tanto deles como da rapariga que engravida? E às filhas? Ensinaram-lhe que podem ser livres nas escolhas que fizerem, seja na profissão que escolherem, na roupa que querem vestir, nos filhos que querem ou não ter. Ensinaram-lhes que são donas do seu corpo? Que o corpo delas apenas a elas pertence? Se calhar, devíamos perder um bocadinho de tempo a pensar nisto.

 
 
 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Memórias e fotografias

por Cristina Nobre Soares, em 25.02.18

Há um casal novo que se aproxima. Ficam perto de nós a tirar fotografias às ondas e aos chorões da praia. Não falam, apenas fotografam com o telemóvel. Mais à frente, duas mulheres tiram selfies com o mar em pano de fundo. Quando dava aulas de detecção remota, numa outra vida, perguntava sempre aos alunos se sabiam qual tinha sido a primeira máquina fotográfica da humanidade: os olhos. As outras, as que tinham vindo depois, só nos tinham trazido a capacidade de guardar as nossas imagens, as nossas memórias num suporte físico. Para que mais tarde pudéssemos recordar. E escrevia o slogan da Kodak no quadro, sublinhando "o mais tarde" e o "recordar". Agora, com o digital, deixámos de usar as fotografias para mais tarde recordar, mas sim para mostrar aos outros, para partilhar. E pergunto-me se, em troca desta necessidade de sermos permanentes, num sítio que nem sequer existe, não nos estaremos a esvaziar de memória. Sem sais de prata que nos revelem e nos guardem num papel qualquer, corremos o risco de sermos apenas uma vaga lembrança dos outros.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Perfeita

por Cristina Nobre Soares, em 21.02.18

Falam-te das noites em branco, da primeira palavra, dos primeiro passos, do primeiro dia de escola, da primeira história, da idas em angústia para o hospital, das vigílias, das lágrimas que descobres não poder secar, do riso que te enche por dentro. Falam-te que a primeira infância não é fácil, mas que os anos depois também não, a adolescência nem se fala. Falam-te do ficar a dizer adeus à porta do infantário, do soprares as velas que não se apagam ao quinto sopro, das idas à praia que perderão o silêncio, das manhãs que começam de madrugada. Falam-te de tudo isto, mas não te falam daquele momento em que a tua filha te pergunta se pode ficar com um vestido teu. Não te falam daquele momento em que ela o veste e te pergunta se está bonita e tu dizes, com todo o teu avesso, ao veres aquela mulher à tua frente: Estás perfeita.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Primavera

por Cristina Nobre Soares, em 20.02.18

 

Hoje, dei pelo prenúncio amarelo das azedas nos campos de trevo.

(Há histórias que apenas precisam de uma dúzia de palavras para serem contadas.)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Croquete

por Cristina Nobre Soares, em 20.02.18

Não vi o Festival da Canção, não faço a mínima ideia do que se passa no Sporting, mas já percebi que também tem a ver com televisão. Não fiz o teste para ver como eu seria se fosse uma estrela de cinema, nem o da frase que está escrita no meu coração. Agora, vou ali discretamente para o canto da sala ver se apanho alguma coisa do que se passa, enquanto aceno com ar muito interessado e ligeiramente inteligente e como um croquete. Comer qualquer coisa nestas alturas de embaraço é fundamental.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Às vezes penso que ganhámos medo da chuva

por Cristina Nobre Soares, em 17.02.18

Atravesso o parque e reparo que não há quase ninguém. O cinzento morrinho preenche os espaços vazios de folhas e gente. Sempre que chove, mesmo quando é apenas um presságio cor de chumbo, as pessoas desaparecem. Às vezes penso que ganhámos medo da chuva. Que por nos desabituarmos dela lhe esquecemos os encantos. É pena. Dentro de casa, o cinzento parece mais triste. Não é cor que possamos amar separados pelo vidro de uma janela.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gratidão

por Cristina Nobre Soares, em 16.02.18

Se algum dia me perguntarem que relação tenho eu com as palavras, não falarei em inspiração nem em nenhum desígnio divino, pois nem sei o que isso será. Não terei nenhuma teoria transcendental, nem sequer um teorema dos pequeninos. Nada. Direi apenas que lhes tenho gratidão. Gratidão. Que é o nos que fica. A nós, os que um dia fomos resgatados por elas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pedantismo

por Cristina Nobre Soares, em 16.02.18

O regresso da visita de estudo foi uma viagem longa de autocarro. Um dos rapazes mais giros levara uma viola e começou a tocar umas músicas dos Smiths. Fiz questão de mostrar que as sabia de cor. Toda a gente sabe que os grupos que ouvimos revelam sempre muito sobre a nossa "coolness" e quem gosta de Smiths tem entrada directa no reino dos céus. Uns lugares à frente ia uma rapariga, muito calada, com um ar realmente aborrecido. Reparei na camisola verde bandeira, apertada no corpo gorducho, que levava vestida, e pensei, do alto do meu pedantismo, que a rapariga era uma parola. A dada altura o rapaz giro ficou sem músicas no reportório, recostou-se no lugar e adormeceu. Aproveitando o silêncio, o condutor do autocarro pôs uma cassete com música de feira. A rapariga sentou-se muito direita de um só salto e começou a cantá-las, muito alegre, enquanto batia palmas. Invejei-a. Tinha uma alegria solta, daquela que não precisa da aprovação de ninguém para se manifestar. Ela, ali, a bater palmas dentro da sua camisola verde bandeira, tinha uma liberdade que o meu pedantismo não me permitia. O meu pedantismo apertava-me mais do que a camisola verde dela e não era coisa que eu despisse às boas ao chegar a casa. A parola, afinal, era eu.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pág. 1/2



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D

GA



google-site-verification: googledeb34756365df053.html