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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E depois há as pessoas que são conversas que se retomam em qualquer altura, sem quebras nem esquecimentos. Mesmo que passem muitos anos essas pessoas têm a capacidade de comprimir a passagem do tempo numa única frase: fazes-me falta. E tudo passa.
É estranho reencontrar um amigo que não vemos há muito tempo. Primeiro, há aquela alegria: Há tanto tempo! Os abraços, o sorriso rasgado. Há tanto tempo! O que é feito de ti? Olha, casei-me, divorciei-me, estou solteiro (por alguma razão as pessoas acham o estado civil uma prioridade a ser relatada). Tenho não-sei-quantos-filhos e desfiam-se os nomes e as idades da prole, onde vivemos, o que fazemos, o resumo possível no tempo que demora a cruzar uma esquina. Depois deste interlúdio, lembramo-nos. Do Zé, da Ana, do Nuno. O que é feito deles? Não sei, nunca mais os vi. O Nuno, uma vez encontrei no IKEA, tem um miúdo da idade da minha. Eish, o Nuno, lembras-te daquela vez…? E lembramo-nos mais um bocadinho. Às vezes muito. E rimo-nos de coisas que mais ninguém percebe. Até que se gastam as memórias e ninguém tem mais nada para se lembrar. Nesse momento percebemos que afinal já não nos reconhecemos. Que fomos amigos, não somos. E é tramado. O que é que se diz a alguém que há muito tempo foi nosso amigo e que agora é um estranho? Nada. Talvez possamos trocar algumas trivialidades para nos salvar do desconforto, enquanto reparamos que o outro está muito diferente, mais velho, mais gordo, mais magro, careca. Até que atalhamos com aquela de um dia destes temos de pôr a conversa em dia, vamos beber um café, um copo. Pois temos. A ver se combinamos um dia destes. Mentira. Não vamos combinar nada. Gostei de te ver! E seguimos cada um o seu caminho, com o tempo a doer-nos um bocadinho numa certeza qualquer.
Uma vez conheci uma senhora que passava o último dia do ano a limpar a casa. Dizia ela que se o novo ano visse lixo ou desmazelo, não entrava, ficava à soleira da porta, assim como a boa sorte. E para que isso não acontecesse passava o dia 31 a limpar tudo com primor, a mudar a roupa da cama, a encerar o chão, a bater os tapetes, a tirar a negro dos estores com indicador por dentro do pano do pó. Como se o novo ano fosse um visita importante, daquelas de se fazer cerimónia e a boa sorte, uma sogra biqueira. Hoje, lembrei-me dessa senhora. Mas não me recordo de como se chamava. É bom sinal. Sem nome sei que um dia me dará uma boa história. Cada um com as suas superstições.
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