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Vinganças e revoluções

por Cristina Nobre Soares, em 16.01.18

Uma revolução, seja ela política ou de costumes, não pode nunca ser confundida com uma revolta e muito menos com uma vingança. As vinganças perpetuam os mesmos erros, só que com protagonistas diferentes. Aliás, as vinganças perpetuam-se a si mesmas. As revoluções, pelo contrário, não vingam nada. Mudam. Permanecem. São maiores do que nós e do que as injustiças e ressentimentos que trazemos no corpo. Seria importante não nos esquecermos disto.

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Fractais

por Cristina Nobre Soares, em 16.01.18

Reparo numa teia de aranha na varanda, cheia de gotículas ínfimas e penso que lhe podia tirar uma fotografia. Depois escreveria qualquer coisa cheia de inspiração, como: “Time fractals” . O que seria um título estúpido porque as teias de aranha não são fractais, mas em estrangeiro marcha tudo. As árvores, sim, são fractais com as suas ramificações. E isso dava um bom texto, do género: “A geometria não-euclidiana das árvores e da vidinha no geral”. Tau, em esperto e em densos. Mas tenho de ir apanhar a roupa, antes que a chuva me amasse as malhas. Não há esperteza que brilhe numa camisola esbeiçada.

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Noite em Lisboa

por Cristina Nobre Soares, em 14.01.18

Do outro lado da rua há um homem que fala ao telefone. Fala baixinho, com aquele tom ridículo que as pessoas apaixonadas põem quando dizem palavras ternas. Na paragem um rapaz acende um cigarro e afasta-se até só lhe conseguir ver os pontos vermelhos incandescentes. O homem do telefone calou-se . Imagino-lhe o embevecido parvo da expressão, mas distraio-me pela brisa amena da noite. Nem parece Janeiro. Lembro-me das mulheres que conheci hoje. Hoje foi um dia bom.

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A psicologia das árvores - Nudez de Janeiro

por Cristina Nobre Soares, em 12.01.18

Olho pela janela e penso que a nudez das caducifólias me parece sempre triste. Estranho-lhes a falta de folhas. No entanto, agradeço-lhes por não me coarem a já de si rala e esquálida luz das tardes de Janeiro. Como se soubessem que nós somos criaturas incapazes de suportar as sombras sem a luz larga dos meses quentes. E, adivinhando-nos sedentos por luz, despem-se. Elas sabem que a nudez será sempre a melhor forma de enfrentarmos a escuridão dos nossos próprios Invernos.

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Reuniões de pais

por Cristina Nobre Soares, em 12.01.18

A inveja que eu tenho das mães que, nas reuniões de pais, sabem todas as datas dos testes, os nomes dos professores todos ( e também dos auxiliares), o horário em detalhe, a ementa da cantina, os itinerários das visitas de estudo, o regulamento de cor de salteado e até os decretos. Ah, que inveja tenho destas criaturas organizadas e impecáveis! Eu, que me limito a ser aquela que tem sempre canetas a mais para emprestar e que se senta sempre na fila de trás na esperança que ninguém note a minha incompetência.

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Sedução, assédio e poder

por Cristina Nobre Soares, em 11.01.18

Quem diz que nunca seduziu ou tentou seduzir mente. Ou isso ou tem uma vida muito triste. A sedução faz parte desta coisa de se estar vivo (sim, também é o contrário de estar morto. Quem nunca seduziu, digamos, está de certa forma falecido.) Ser alvo de sedução também faz parte do processo e da vida. E quando consentido, não me lixem, sabe bem e muito bem. Sim, ao ego e a outras coisas. É um jogo de regras conhecidas e claras. Sim, claras. E com claras obviamente não quero dizer explícitas. Ninguém tenta seduzir com: A senhora/menina importa-se que eu a tente seduzir? Ou, a senhora/menina, permite que eu lhe ponha a mão na perna, assim 3 ou 4 cm acima do joelho e lhe faça umas festinhas enquanto lhe mando dois ou três piropos marotos? A bem da inteligência da humanidade espero, sinceramente, que isto não aconteça. A tal clareza das regras do jogo reside no perceber se o outro lado está para aí virado ou não. Se corresponde, se alinha. Quem não consegue perceber isto é melhor ficar quieto. E já agora, calado. Ah, mas não corro risco da outra parte não perceber? Não é melhor entrar logo à bruta para que se perceba o que quero? Tipo apalpar como se não houvesse amanhã, e a pés juntos? Não, isso é mesmo má ideia. Até porque não me recordo de nenhuma paixão tórrida começada no 27 ou no 38, fruto do tal apalpão no calor do trânsito. Sim, há quem goste de sedução à bruta e violenta. Mas isso também se descobre depressa (normalmente numa fase posterior). Não, Catherine, não tem de ser um jogo violento, nem isto é sempre um filme do Buñuel. E é esta clareza que torna a sedução num jogo de igual para igual. Mesmo quando essa sedução é usada como moeda de troca. Sim, troca. Uma cena mais velha que a Sé de Braga usada tanto por homens como por mulheres para vários fins e propósitos. Então, perguntarão os mais distraídos, e quando é que isto é assédio? Ora, caros distraídos, quando acontecem 1 destas 2 coisas (ou as 2 ao mesmo tempo). Quando o alvo da sedução diz que não e a malta insiste. E insiste. Ou quando essa sedução é feita tendo por base um desnível de poder. Estilo, quando é o patrão, o chefe, a pessoa com poder de decisão sobre algum factor da nossa vida. Ah, mas a gaja pode sempre dar-lhe um banano e bater com a porta. Pois pode (e deve). Mas não limpa o assédio. Nem o abuso de poder. E caras pessoas distraídas, é sobre isto que fala o #metoo. Sobre abuso de poder. Abuso de poder. Simples, certo? Certo.

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Ainda sobre o #metoo ( e o discurso da Oprah)

por Cristina Nobre Soares, em 08.01.18

Tenho pena que ainda não se tenha percebido que a campanha do #metoo não é apenas sobre o assédio em Hollywood. Que não é sequer apenas sobre assédio. Nem se querer é só sobre sexo. É sobre quebrar o silêncio sobre a injustiça, a humilhação no trabalho, na educação, nas oportunidades, na liberdade, nos direitos, nas obrigações, nas moralidades, e sim, também na sexualidade. É dizer que nem sempre quem cala consente e que saberem ao que iam não torna a coisa melhor. Tenho pena que ainda haja quem não tenha percebido que isto não é apenas sobre um caso de alguém que apalpou as mamas a uma gaja boa que se pôs a jeito ou sobre outra que conseguiu o papel na horizontal. E que não é sobre coitadinhas. É exactamente o contrário. É sobre deixar de haver coitadinhas e desgraçadinhas e estas darem lugar a mulheres donas da sua vontade e da sua voz. Pena que o cinismo em que vivemos não nos permita ver isto. Pena.

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O Inverno não me convence

por Cristina Nobre Soares, em 07.01.18

Gostava de ser daquelas pessoas que exaltam os benefícios do frio. Que dá vigor e nos enrija a saúde e o carácter, dizem. Isso e os banhos frios do Carlos da Maia. Acredito, mas sou uma fraca que precisa de dias um tudo-nada mais quentes. Fora deles ando encolhida. E não é uma questão de agasalho, mas de desconsolo. Nem com um gorro na alma eu ganharia viço. O frio engelha-me a disposição. Lamento, caros estoicos do frio, mas o Inverno não me convence.

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Ao mesmo tempo

por Cristina Nobre Soares, em 06.01.18

Enquanto oiço esta música ela pergunta-me, gostavas de voltar a ter vinte anos, mãe? Digo que não. Digo-lhe sempre que não. Acho que ela não acredita. Afinal todos dizemos querer ser mais novos. É difícil explicar-lhe que voltar atrás não faz sentido porque nunca deixamos de ter 20, 30, 40 e por aí fora. Somos esses anos todos ao mesmo tempo.

 

 

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Daltonismo

por Cristina Nobre Soares, em 05.01.18

Olho pela janela e constato, mais uma vez, que os tons de verde foram feitos para os dias cinzentos. Ficam particularmente bonitos nos dias de chuva. Decerto que encontraria uma explicação para isto algures no espectro electromagnético, numa reflexão de um comprimento de onda qualquer. Talvez a melancolia, quando visível, more algures entre os verdes e os azuis, dois ou três nanómetros que apenas são perceptíveis em certos estados espírito. Talvez. Há cores assim, que precisam de dias cinzentos para darmos por elas. Antes da chuva somos todos daltónicos.

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