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Ao fim do dia

por Cristina Nobre Soares, em 31.01.18

Depois de jantar, na fila do supermercado, à minha frente, um homem paga duas minis e um paposeco. Usa um gorro laranja e um rosto muito cansado de pele encardida. A caixa faz-lhe o troco da nota de dez com gestos exageradamente lentos. O homem guarda-o no bolso largo, juntamente com o talão e há uma mãe que pára perto da nossa caixa, já com as compras dentro dos sacos e uma criança sentada no banco armado do carrinho de compras. A criança choraminga qualquer coisa e a mãe responde-lhe com o mesmo encardido do rosto do homem na voz. O supermercado, ao fim do dia é um sitio triste, penso. Ou talvez eu esteja também cansada, talvez por isso me pareça tudo sujo, daquele pardacento que se nos cola aos pulmões até ficarmos sem ar. O homem afasta-se, o laranja do gorro limpa-me os olhos e respiro.

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Janeiro está a chegar ao fim

por Cristina Nobre Soares, em 30.01.18

Janeiro está a chegar ao fim, pensei eu ontem ao reparar que os dias já estão maiores. Janeiro fora cresce uma hora, dizia-me a minha mãe quando eu me queixava dos dias curtos, e quem bem procurar hora e meia irá encontrar. Por algumas vezes a minha vida foi um Janeiro de dias curtos, a minha mãe encostada ao balcão da cozinha, eu a olhar pela janela, a afastar-lhe o cortinado de florzinhas preso por um esticador, talvez para procurar melhor, vê lá se os dias não estão maiores, ela a dizer-me, eu à procura daquela meia hora que faltava, as noites a recuarem um bocadinho e, sem que eu desse por isso, Janeiro a chegar ao fim. Chega sempre, por mais que pesem as noites. Chega sempre.

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Os Domingos são dias que nos ficam curtos ao corpo

por Cristina Nobre Soares, em 28.01.18

Os Domingos são dias que nos ficam curtos ao corpo. Sobramos-lhes. Há quem chame melancolia a este estado de espírito. Eu acho que é mais um desconforto destapado. Não há alma que se alegre se tiver os pés frios.

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Vento frio

por Cristina Nobre Soares, em 27.01.18

Hoje sopra um vento frio. Comento que com este vento, daquele que nos faz aconchegar o rosto por dentro dos cachecóis até que só se nos vejam os olhos, me apetecem castanhas assadas. E lembro-me de mim, a comprar castanhas ao homem que costumava estar à porta das Amoreiras, num dos dias em que voltava da Silva Carvalho. Uma dúzia por favor e eu, enquanto esperava o autocarro para o Marquês, a ler um post de alguém noutra parte do mundo dizendo que lá nevava e a pensar que a distância é o Inverno mais frio de todos.

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Vendaval

por Cristina Nobre Soares, em 25.01.18

Soprou um grande vendaval antes de começar a chover. A minha filha assustou-se e apareceu-me à porta do escritório, não te mete medo o vento? Digo que não, não por ter alguma certeza sobre o assunto, mas por não me conseguir lembrar de alguma vez ter tido medo de vento. Se pensar um pouco decerto que me irei lembrar de alguma vez em que isso tenha acontecido. Mas tenho a cabeça noutro sítio. Hoje, ao fim de muito tempo, não sei se de caminho, se de espera, voltei a uma história. E só isso é que me interessa.

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Vou fechar a loja por hoje

por Cristina Nobre Soares, em 24.01.18

Vou fechar a loja por hoje. Não consigo escrever mais uma linha que seja. Doem-me os olhos e as ideias. Por isso vou fechar a loja por hoje. O meu pai costumava dizer isto quando acabava o trabalho, vou fechar a loja por hoje. Deixava a secretária impecável, levantava-se e perguntava-me, ficas? Acho que me lembrei disto porque hoje vi um carro com volante do lado direito. Com volante ao contrário. Lembro-me sempre de ti quando passa um carro assim. Este era azul clarinho e não verde escuro como o nosso. Ficas? Sim, sou capaz de ficar ainda mais um bocadinho. O bocadinho que demora a escrever este texto enquanto me lembro de ti.

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Sustos

por Cristina Nobre Soares, em 21.01.18

Ao passar pela casa dos cães assusto-me mais uma vez. Ladram todos ao mesmo tempo a quem passa. Passo há anos nessa casa quando vou beber café ao centro da vila, mas assusto-me sempre. Não lhes tenho medo, mas quando vou metida com os meus pensamentos assusto-me com tudo. Às vezes até com quem me cumprimenta, dou um pequeno salto, ai, olá, não o tinha visto, desculpe. É uma cruz, nunca vejo ninguém. Já tive quem ficasse muito ofendido com isso, mas a maior parte das pessoas ri-se. Devem pensar que sou maluca ou que pelo menos não abundo no juízo. Os cães calaram-se e eu entretanto esqueci-me no que vinha a pensar, porque entretanto reparo nos castanheiros. É uma árvore bem bonita, possas. Ovos e leite. Tenho de comprar ovos e leite, era nisso que vinha a pensar.

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Segredos

por Cristina Nobre Soares, em 20.01.18

Um segredo é uma parte do nosso corpo. Com nervos, com pele que se arrepia, cheia de defeitos, cicatrizes e sinais de nascença. Às vezes, vergonhas. Só partilhamos essas partes do nosso corpo com quem confiamos, mas daquela confiança cega que pede colo no escuro. Partilhar um segredo é, por isso, um pacto de sangue, mas com cortes feitos na alma. Quando alguém quebra esse pacto, quando alguém nos leva esse segredo é muito mais que uma traição. É levarem-nos essa parte do nosso corpo, deixarem-nos aleijados e amputarem-nos de algo que tínhamos como certo. No lugar dele deixam uma dor fantasma, que nos rasga devagarinho e que por ser fantasma não se cura. Uma dor que acorda nas insónias da memória.

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Dos espíritos

por Cristina Nobre Soares, em 18.01.18

 

Resolvo terminar o trabalho por hoje. Foi um dia produtivo, mas também cansativo. Olho pela janela. O fim de tarde enevoou. As árvores nuas em contra luz ganham um contorno de espíritos. De espíritos, não de fantasmas. Quando era criança tinha muito medo de fantasmas. A Patrícia contava-me histórias arrepiantes de mortos e almas penadas só para me assustar. Eu ficava aterrorizada e, à noite, não conseguia a adormecer. Todos os sons da casa ganhavam corpo e medo. Só o vulto das árvores da praceta, por detrás do cortinado, me tranquilizava. Lembrava-me de uma história que tinha lido, uma lenda índia norte-americana, que contava que as árvores eram grandes espíritos que olhavam pelos homens. Elas já cá estavam quando chegámos e olham por nós. Acreditar nisso fazia-me adormecer. Contei-a à minha filha quando ela era pequena. E contei-lhe das sequóias da América do Norte, que dizem que alguma são tão grandes e tão velhas, que se consegue ouvir a água a correr-lhes pelos vasos. Como se tivessem um coração por dentro. Como se fossem velhos espíritos. As histórias, mesmo as mais improváveis, serão sempre a melhor forma de enfrentarmos os medos.

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Barricadas

por Cristina Nobre Soares, em 17.01.18

Uma vez, a propósito de um caso de uma mulher da vizinhança, que, após anos a levar pancada do marido, tinha saído de casa com os filhos e feito queixa na polícia, alguém disse: sempre se soube que ele lhe batia e agora é que anda toda a gente a falar nisto. Antes ninguém fez nada. Fingiam que não viam. E era verdade. Até a mulher dar o grito do Ipiranga, toda a gente fingia que não via, cumprimentavam o homem com se nada fosse. E mesmo sabendo que as sessões de pancada aconteciam sempre que ele bebia, nunca este homem terá bebido sem a companhia dos “amigos do costume”. Às vezes, falava-se por detrás, nas costas, coitada, a cruz que aquela mulher tem, coitada. Mas não passava disso. Quando a mulher saiu de casa, aí sim, soube-se dos podres todos, com todos os detalhes sórdidos. O sórdido que todo a gente conhecia, mas sobre o qual ninguém dizia nada. Ninguém queria chatices. Até ao dia em que a mulher resolveu mudar as coisas. E, já se sabe, à conta deste caso, mais um ou outro vieram a lume. Há coragens que só se ganham a quente. E também há vinganças que só acontecem à boleia. Aliás, as vinganças gostam muito de aproveitar a sombra das revoluções.

Porque as revoluções são assim. Há sempre 2 tipos de revolucionários: os que abrem os olhos quando ainda dói e lutam para que as coisas mudem, custe o que custar e os que se calam e só se manifestam depois da revolução estar feita. Os que só têm voz na turbamulta. Os que no dia antes da revolução ainda dizem, “fala mais baixo, que as paredes têm ouvidos” e que no dia seguinte participam em manifestações libertárias. Hipócritas? Talvez. Eu acredito mais em pessoas com medo e com alguma coisa a perder. Que constituem cerca de 95% da humanidade. Depois também há os oportunistas, os que aproveitam as revoluções para resolver pendências pessoais e vingançazinhas. E estes oportunistas muitas vezes acabam por pôr em causa a justiça de uma revolução. E novas vítimas se fazem. Estes oportunistas também surgem porque as revoluções têm um terreno muito fértil para que eles cresçam: as barricadas. Tu ou és ou não és dos nossos. Dos nossos, nunca de todos. Sendo que os nossos são sempre os bons. Obviamente. As revoluções sofrem da tentação crónica da tomada de partidos. O meio-termo nunca foi muito revolucionário, infelizmente. Aliás o meio-termo acaba sempre por apanhar com uma bala perdida em tempos de revolução. E é pena, porque o meio-termo costuma ser o gajo mais lúcido do processo. É aquele tipo que vê as coisas como elas são dos dois lados. As vantagens e os perigos. É o gajo que no bairro é capaz de dar uma ajuda à mulher que apanhava pancada, mas que também não apedreja todos os outros que apenas levantam ligeiramente a voz. É o gajo que perante os apedrejamentos diz, cautela, qualquer dia qualquer um leva com um calhau e, pior, qualquer dia um caso destes torna-se banal. Mas também é o gajo que diz, ainda bem que a mulher deu o grito do Ipiranga e ainda bem que à conta da coragem dela houve outras que também ganharam coragem, isto assim é capaz de mudar. Mas ninguém quer saber destes gajos de consenso. As barricadas são mais atraentes, trazem-nos mais comparsas. Mais "nossos" a quem pertencemos. Mas também trazem feridas. Que podem demorar muitas décadas a passar. Quando passam. Há cicatrizes que, de tão fundas, doem sempre que o tempo muda. 
Com o #metoo será a mesma coisa.

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