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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Dezembro não é bem um mês, é uma antecâmara. Os seus dias não se vivem, antecedem-se. Ao Natal, ao fim do ano. Todos se apressam a fazer balanços do ano, logo aos primeiros dias, esquecendo-se que bastará um, um dia, uma hora ou um instante apenas para que tudo mude. Outros, já fazem planos para o novo ano que se aproxima. Tanto que iremos mudar e fazer diferente para o ano que vem! Enfim, todos ignoram Dezembro. Talvez por isso os seus dias de passem ainda mais depressa do que os outros. Ou talvez tal aconteça por este ser um mês com menos dias do que noites e as noites não têm tempo. Dezembro não se vive. Tolera-se.
Lá fora, o dia torce-se de tão húmido pela chuva morrinha. Cá dentro, preparo-me para mais um Sábado de trabalho, que se adivinha longo. E dentro do cá dentro, penso nas ironias da vida, a propósito de uma frase que alguém me disse, em tempos, à laia de profecia. Todos temos uma certa mania em ler a sina dos outros. Engraçado é que não percebamos que é a nossa que lemos. Somos sempre nós, os outros são apenas um pretexto. Para além disso, hoje deu-me para ouvir Nat King Cole, que é música que nos faz sentir mal por estarmos de pantufas e de roupa de trazer por casa. Ouvir Nat King Cole pede sapatos de salto e saias de organza. E slowfox dançado na perfeição, com sorrisos exagerados e cabeças muito inclinadas para trás. As coisas que eu invento para não trabalhar.
As mulheres, no café, levantam a cabeça ao verem-me entrar. Algumas reconhecem-me e cumprimentam-me, outras, por não me associarem a ninguém ou a um sítio qualquer, continuam a olhar, tentando perceber quem eu sou. Ainda lhes causo estranheza. Ser-se de fora em terras pequenas não é coisa que passe com o tempo. Podem passar anos que seremos sempre os de fora. As terras pequenas têm mais passado do que as outras e quem chega é apenas presente, um tempo verbal que não deita raízes em chão nenhum. Cumprimento as que ainda me olham em silêncio, enquanto esfrego as mãos. Está um frio que não se pode, comento. É verdade, diz a menina do balcão. E uma das mulheres que me olhava conta que ainda hoje de manhã o filho de não sei quem tinha gelo no vidro no carro e que se viu aflito para o pôr a pegar. Toda a gente parece saber quem é. Menos eu, que não sou de cá.
Às vezes, as mulheres criticavam o luto das outras mulheres. Ou porque o tinham largado cedo demais, sendo que menos de um ano de preto seria cedo demais. Ou porque era um luto leve, que o azul-escuro e o castanho são cores sóbrias, é verdade, mas não são luto. Quanto muito, depois de largos meses, poderiam aliviá-lo com padrões pretos e brancos, como as pintas ou as riscas de fantasia. O resto não era luto. Também lhes criticavam o luto que não se veste, o que se faz por actos e boas maneiras. Comportamentos imperdoáveis como ir ao arraial sozinha, sair sem a companhia de uma irmã, de uma mãe ou de uma prima, mesmo que afastada ou vir à rua sem meias, mesmo em pleno Agosto. O não ir ao cemitério todas as semanas, pôr flores frescas na campa. Mesmo que fosse conhecido o imenso sofrimento de algumas dessas mulheres de luto “leve”, se ele não se exibisse aos outros pelas regras estabelecidas, se não fizessem como seria esperado, seria como se esse sofrimento não existisse. E desprezavam-nas por isso. Punham-nas de parte, porque ninguém gosta de ser visto com quem não faz o que toda a gente faz.
Volta e meia, o Facebook faz-me lembrar isto, sem que a questão seja o luto. Vá-se lá saber porquê.
Toda a gente acha que o seu Natal é que é bom, de longe muito melhor e mais atinado que o dos outros. Ora vejamos: há os puristas do bacalhau com couve, os modernos que comem tudo reconstruído, os que comem filhoses, os que comem belhoses e os que contentam com fritos de abóbora. Há os mãos largas, os sovinas, os consumistas e os minimalistas. Os que gostam de bolo-rei, os que não gostam e ainda os que não gostam que haja variações sobre o bolo-rei. Há os que vão à missa, os que são ateus, os que dizem o Natal é quando o homem quiser, os que dizem que é só para a família, os que fazem só árvore, os que fazem só presépio, os que fazem presépio e árvore, os que não fazem nada que isso é só folclore. Os que acreditam no Pai Natal, os que não acreditam e os que nem sequer bebem Coca-cola por causa disso, os que gostam de ver as luzes na rua, os que detestam, os que se sentem sozinhos, os que têm uma família que nunca mais acaba, os que fazem tudo caseiro, os que compram a ceia toda no Pingo-Doce. Os que ouvem o Bublé, os que ouvem o Sinatra, os que só ouvem o Coro de Santo Amaro de Oeiras, os que ceiam, os que jantam, os que abrem as prendas à meia-noite, os que só abrem na manhã de 25 e os que acham que no Dia de Reis é que é, os que acham que o Natal é bom por causa das prendas, os que acham que é espiritual, os que acham que é para reflectir, os que acham é que bom para a pândega e só ligam aos comes. Epá, cansa.
Quando abri este blogue abri-o para ter um sitio onde guardasse o que fosse escrevendo. Uma espécie de gaveta. Nada mais. Mas, ao longo destes 3 anos, tem crescido muito para além dessa gaveta desordenada, cheia de textos sobre um único tema: a vidinha.
Obrigada a todos os que têm tido a generosidade de fazer crescer esta minha gaveta, lendo o que nela vou deixando. Sois uns simpáticos.
Não uso GPS no carro. Não me entendo com aquilo, faz-me nervos. Nem tirando pio à Catarina ou ao Joaquim a coisa melhora, não gosto, pronto. É uma coisa de feitio. Não gosto de seguir rotas traçadas, de seguir direcções, indicações, caminhos dados por uma aplicação que conhece a minha localização através de uma triangulação qualquer. Sou aquele tipo de pessoa que precisa de se guiar por pontos de referência, de parar a meio do caminho para se situar, para perguntar a quem passa, para sentir os lugares, memorizá-los para poder reconhecê-los acaso passe neles uma próxima vez. Às vezes até preciso de me perder, praguejar, achar que não vou chegar a tempo, que não vou sair dali tão depressa, telefonar a alguém, mesmo que essa pessoa não me possa ajudar, só para falar um bocadinho, para de seguida ganhar coragem e perceber que todo o caminho se retoma sempre, é só uma questão de termos os olhos abertos e alguma persistência. Não compreendo essas viagens rápidas, de seguida, predefinidas, com tempo estimado. Preciso de parar amiúde para esticar as pernas, respirar fundo, desentorpecer o corpo e a mente. Eu sei que parece estranho mas é essa paragem que me faz sentir em viagem. Caso contrário só me sinto em movimento. Que são coisas tão diferentes. Tão diferentes.
Aprendi-lhe a letra no pátio da secundária para fingir que era rebelde. Ouvia-a quando chorei o meu primeiro desgosto de amor no colo da Filipa. Cantei-a daquela vez que regressávamos do Algarve, os vidros abertos do carro, o vento quente da tarde, a viagem e a vida toda pela frente, ainda falta, porque faltava tanto que o caminho parecia eterno. Lembrei-me dela quando o mundo se abriu debaixo dos meus pés pela primeira vez, tinha vinte anos e descobria que não era invencível. Aumentei-lhe o volume por cada vez que a vida me foi torta, e foram muitas e ela se lembrou de passar na rádio num regresso a casa qualquer. Foi isto que respondi ontem quando me perguntaram porque raio me custava tanto a morte do Zé Pedro. Foi isto.
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