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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
O cemitério que por vezes visito com a minha mãe é um sítio ermo, vazio, tão vazio que nem sombras tem, só as nossas. Mesmo ao Sábado ou ao Domingo pouca gente se vê, e esses poucos, na sua maioria, são velhos. As pessoas mais velhas sabem o que têm de fazer, lavam e escovam as campas, partem os pés das flores, ajeitam-nas por cores nas jarras, varrem o lixo com vassourinhas. Como se o afecto se revelasse no primor com que arranjam a campa. As pessoas mais novas cumprem ordens, mas sempre com um ar muito desajeitado, sem saberem como porem o corpo e deixam-se ficar por ali, supérfluas. As campas mais novas ainda têm flores frescas, mas com o tempo vão sendo substituídas pelas das de plástico. Compõem na mesma e duram mais. E assim espaçam-se mais as visitas. Porque ninguém gosta de ir ao cemitério. E ninguém vai. É um sítio pesado e triste, construído para ser pesado e triste, onde se têm pensamentos pesados e tristes. E não tem mal. É assim que lidamos com a morte: de uma forma pesada e triste. Noutros sítios farão as coisas de maneira diferente, e diremos, olha, que engraçado, lá na minha terra fazemos de outra maneira. Não é melhor nem pior, nem mais bonito nem mais feio. É o que é. Muitas vezes, o maior peso que as coisas parecem ter vem da falta de vontade de as aceitarmos como realmente são.
Custa-me voltar a textos que escrevi há muito tempo. É como ir mexer em algo que não é bem meu. Porque eu era outra pessoa, somos sempre, nas fotografias, nos livros que lemos, nas músicas que ouvíamos, nas roupas que vestíamos, rimo-nos, lamentamos o mau gosto, talvez, mas não mudamos nada, ficou lá atrás, paciência, faz parte. Não se edita o que fomos, embora seja muito tentadora a possibilidade de ir dar um jeitinho nos embaraços do passado. Mas não se vai lá atrás corrigir a pontuação nem limpar os excessos. E se esta rapariga tinha excessos de escrita, xiça. Menos, rapariga, menos.
Deixem as mães (e os pais, que também são parte interessada) em paz. Deixem de promover esta maternidade por pontos, feita de bebés super-tudo e de mães invencíveis. Deixem de debitar receitas e listas de boas práticas em tudo o que é jornal e revista. Calem-se um bocadinho, por favor. Os bebés, com mais ou menos gotas para as dores de barriga, com mais ou menos mama, leite em pó, sestas, a dormir com os pais, sem os pais, mais ou menos colo, mais ou menos banho, música clássica, jazz, gemidos de baleia, cantiguinhas do giroflé, lengalengas da galinhas ou dissertações cartesianas, (imagine-se!) vão crescer, muito provavelmente serem felizes e, mais provavelmente ainda, nenhum será um génio. E já agora, caros senhores pedo-especialistas-qualquer-coisa, eu sei que os senhores precisam de ganhar a vida, mas as mães precisam de paz e sossego. E querem saber o mais incrível? Não são só os bebés que precisam de ser felizes. Elas, as mães, também. E no fundo, no fundo, estão-se nas tintas se o filho vai ser o próximo Mozart ( que consta, que apesar de génio, deu muitas dores de cabeça ao pai, depois de adulto). Por isso, vá, calem-se lá um bocadinho, por favor.
Às vezes, já não me lembro que rua descíamos, que nas memórias, por alguma razão, descemos sempre as ruas, quem as sobe é a vida. Lembro-me das folhas dos lodãos-bastardos a deslizarem-nos por entre as solas dos sapatos e as pedras das calçadas, do Miradouro de Santo Amaro, da cor viva das olaias em flor, o 18 a passar ao portão, do mundo ser todo nosso, de correr para o autocarro, da chuva de pingos fartos de Novembro, nós, no Calvário, ensopados até aos ossos, do cheiro das tílias da Infante Santo, dos jacarandás, quando ainda ninguém os fotografava . Às vezes, já não me lembro que rua descíamos, mas sei que o Tejo ficava sempre ao fundo e que as tardes morriam sempre nele e ainda morrem, mesmo estas, minhas, que agora moram longe e que tantas vezes não têm terra, é nele que vão morrer.
Pelos vistos a palavra perseverança perdeu caminho para a palavra resiliência. Agora toda a gente é, ou quer ser, resiliente. As palavras também sofrem com as modas, coitadas. Sem darem por isso, estão esquecidas num saco de roupa para dar, para darem lugar a outras de corte e padrão mais moderno. Eu continuo a preferir perseverança. Rima com esperança, que veste bem em qualquer tempo e faz sobressair a cor dos olhos.
À mesa falamos das dores de se ser pai e mãe. Que é difícil vê-los crescer, sair de casa. Vê-los tomar corpo, independência, rebelarem-se. Cada um dos pais que está à mesa possui o segredo, o Santo Graal da educação. Sabe sempre mais do que os outros pais, que são cegos, ignorantes, tristes criaturas sem estrada de Damasco. Os filhos deles é que estão bem encaminhados, educados, criados. Enfim, não é isso que me chama a atenção. O que me chama à atenção é a forma como dizem “o meu filho”, acentuando a posse do “meu”. Eu também o faço. A minha filha, digo tantas vezes. Minha. Minha. Mas não é. Eu é que sou dela. Desde o momento em que ela nasceu. Pertenço-lhe. Em cada vitória, em cada dor, em cada insignificância que um dia se lhe tornará em tanto. Nós é que pertencemos aos filhos. Somos deles para sempre. Eles não e nós sabemos disso. Ser pai e mãe é aprender a viver nessa inconfessa vulnerabilidade. Sem estrada para Damasco que nos safe.
Competição – Quando dois criativos da mesma espécie ou de espécies diferentes competem pelos mesmo recursos escassos. Ou seja, matam-se uns aos outros por uns trocos. Cada vez mais comum.
Predação – Quando um criativo de uma dada espécie precisa de se alimentar de pequenos criativos de outra espécie para poder sobreviver. As espécies predatórias são caracterizadas pelo chico-espertismo. Os que servem de alimento só se safam se forem mais rápidos.
Parasitismo – Quando alguém quer ser criativo à força, vivendo à custa das ideias e dos trabalhos dos outros criativos. São uma infestação com vários ciclos de vida, difícil de exterminar.
Comensalismo – Quando alguém que pretende ser criativo vive dos restos dos outros criativos. Ninguém dá por eles, não chateiam muito, mas também não dão mais do que aquilo. É a espécie mais deprimente de todas.
Mutualismo – Quando duas ou mais espécies de criativos cooperam e colaboram, beneficiando ambas. É preciso serem espécies intelectualmente honestas. Infelizmente, devido ao excesso de predação, competição e parasitismo este tipo de relação ecológica corre riscos de extinção. É pena.
Fui lá fora atender um telefonema e reparei que já era noite. Não dei por ela chegar. Acontece-me isto desde criança, ser surpreendida pela noite. Não me adiantam os relógios, as horas, o acender das luzes, que ela apanha-me sempre desprevenida. Mesmo das raras vezes que dei por ela chegar, no fundo não dei, pois fui eu que anoiteci antes dela.
A meio da rua havia uma velha que se vinha sentar à porta. Sentava-se numa cadeira de lona, de cores já muito coçadas e usava um panamá preto enfiado pela cabeça abaixo. Às vezes trazia meias para cerzir, outras, o alguidar para onde cortava a hortaliça com uma faca muito curta, que mais parecia uma navalha. Ficava ali, cumprimentando quem passava, chamando toda a gente pelo nome. Lembro-me que usava meias pretas, de vidro, mesmo quando o calor ardia na pele e no alcatrão. E dos pés, muito inchados, a fugirem do calor dos chinelos esfiampados de homem. Eram do marido, disseram-me uma vez quando passámos por ela. Vai para mais de trinta anos que é viúva, nunca largou o luto, foi mulher de um homem só.
É engraçado esta coisa das revistas chamarem “fugas” às viagens. Ou “escapadinhas”. As pessoas que viajam também usam estes termos, o que as tornará, digo eu, em potenciais fugitivos. Fugirão, escaparão do quê? Talvez da rotina. A rotina, realmente, é bastante controladora, prende-nos os movimentos, exige-nos muitas justificações, um comportamento exemplar, o jantar sempre à mesma hora na mesa e cobra-nos quando nos desviamos, aponta-nos o dedo sem piedade. E nós, sufocados, fugimos. Passamos uns dias longe, livres, fazemos planos, tomamos decisões firmes, a nossa vida vai ser muito diferente dali para a frente. Quando voltamos engrossamos a voz com rotina e ela, arrependida por nos causar tanto sofrimento, promete-nos que se irá emendar, que não volta a acontecer, que dali para frente vai ser diferente. E durante uns tempos até parece que sim, mas depois volta tudo ao mesmo e começamos a planear a próxima fuga. Alguém nos devia avisar que vivemos uma relação abusiva com a rotina.
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