Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Primeiro foi o “hygge” dinamarquês, agora o “lagom” sueco. E eu penso que palavra poderia definir o modo de estar português. Para mim seria “desgarrada”, a pensar na nossa capacidade de improviso, no fado desgarrado, na desgarrada de coração na boca, do anda cá se és homem, no falar todos ao mesmo tempo, mesmo quando não há nada para dizer, no desgarrar-se no eterno partir quando tem de ser, no apartar-se mesmo mordendo as saudades. O desgarrar do nunca conseguir agarrar o país como ele realmente é, do querer que ele seja uma coisa que não é. O desgarrar do pertencer sem grande rasgo, do pertencer poucochinho, de esguelha, do dizer mal de nós, que português que é português diz mal de se ser português. Sim, para mim a palavra seria “desgarrada”. A saudade é outra coisa. É o que faz a desgarrada voltar a casa. E é nesse regresso a casa que a felicidade acontece.
Hoje vi coisas a anunciarem o Natal quando ontem ainda parecia ser Verão apesar de já ser Outono. Agora podia fazer uma metáfora jeitosa sobre a vida.
Caros leitores desta modesta tabanca, serve este post para vos dar a conhecer outro projecto, outra casa por onde ando. Um projecto que me diz muito, sobre mulheres, passagem do tempo. Sobre o que é realmente a beleza. Um projecto a 4 mãos, duas delas do fotografo Mário Pires: retratos de mulheres com mais de 40 anos. Ide, espreitai. :)
Atrás do muro da minha casa vive um carvalho. Penso que seja um carvalho-cerquinho (ou carvalho-português), mas as aulas de botânica a que faltei tiram-me algumas certezas sobre isto. Por isso quando me perguntam que árvore é aquela, digo apenas que é um carvalho e as pessoas ficam satisfeitas. Mal sabem elas que isto não diz quase nada. É a mesma coisa que passando alguém na rua eu dizer, olha vai ali um Silva. A família dos carvalhos*, como todas as famílias grandes, é diversa. Há gente para todos os gostos. Divide-se logo em dois grandes grupos, os de folha caduca e os de folha persistente. Um dos membros de folha persistente é bastante popular, toda a gente reconhece à conta da cortiça e da paisagem alentejana. O Sobreiro é uma espécie estrela da família, toda a gente aqui da aldeia sabe quem ele é. Um gajo simples, mas conhecido por esse mundo fora. Do ramo dos persistentes há outro membro, muito religioso por sinal, diz até que a Nossa Senhora lhe apareceu em cima, a Azinheira. Todas as famílias têm uma beata. Faz parte. Depois há os outros de que toda a gente fala, mas que conhecem pouco: os carvalhos de folha caduca. São um ramo da família menos azeiteiro, menos dados a lides populares, mais metidos com eles. Já se sabe que nas famílias há sempre um ramo mais aristocrático (ou com a mania que é) que dá pouca confiança. É o caso do Carvalho-alvarinho (roble) e do Negral. Gente de porte nobre e distinto. Tipo aqueles tios afastados que vivem num solar do Norte e que nos tratam por você, mesmo quando temos cinco anos. E depois temos o porreiraço da família, o Cerquinho, tão português que até tem um diminutivo do nome. Tão português que ninguém dá por ele. Só lhe falta um bigode. Um bacano que hibrida com os outros carvalhos e à conta disso, às vezes, torna-se difícil de identificar. Devíamos conhecer melhor esta família. É difícil amarmos verdadeiramente aquilo que não conhecemos.
*caros senhores mais puristas, a questão da família vem aqui como uma metáfora. Eu sei que Quercus é um género.
Quando é que foi a última vez em que repararam naquele eucaliptal a caminho da terra dos vosso pais? Sim, aquele aonde não levam os miúdos por estar cheio de mato, que eles ainda se aleijam e sujam todos. Quando é que foi a última vez que apanharam pinhas em vez de as comprarem no supermercado? Quando é foi a última vez que sentaram à sombra de um carvalho? A floresta faz muita decoração, é verdade, o verde enche muito olho, é ele e o azul do mar. Diz até que faz bem ao ar que a gente respira. Mas precisa que se torne parte da nossa vida para que possa existir. Sem isso é coisa para arder facilmente.
Aproveitei o Domingo para fazer limpezas e arrumações. Para algumas pessoas, aquelas muito organizadas e metódicas, isto fará parte da normalidade do seu quotidiano. Para outras, como eu, são acontecimentos que exigem grande auto-determinação e sacrifício. Uma espécie de penitência pela minha preguiça e desmazelo, esperando que o asseio me redima. Cumpro-a, mas resmungando, soltando ironias, não vá eu esquecer-me que sou uma cínica contestatária e tornar-me, sem aviso, numa dócil fada do lar. Se isso acontecesse perderia a rala credibilidade que me resta e ainda me expatriavam para um desses mundos feitos de segredos de como tirar nódoas de pêssego ou de ideias para aproveitar os restos do cozido de quarta-feira. Não, eu limpo e arrumo, mas com um desprezo que se tenta armar em intelectualmente superior. Que, verdade seja dita, não passa dos aforismos fraquinhos, como “os Domingos de limpeza tornam melhores aqueles que nunca arrumam os pensamentos.” O que é certo é que depois de passar um Domingo a limpar sinto-me mais lavadinha, mas aprumada, sem enxovalho. Mas isto também pode ser dos detergentes amoniacais, que me deixam um pouco azamboada da cabeça. Hei-de experimentar uns mais modernos que passam na televisão.
Entristecem-me as florestas de produção. Nelas as árvores são alinhadas em compassos, linhas rectas equidistantes e obrigadas a crescer num espaço exíguo. Por terem menos espaço têm de competir pela luz e tornam-se árvores mais egoístas, mais estreitas, de copas menos generosas. Demasiado iguais entre si. Lutam pela luz, sem a qual não sobrevivem. E tudo o que entra em modo de sobrevivência perde a poesia, definha num propósito comum que acaba por acaba por ser esquecido. A identidade precisa de espaço para crescer, para deitar olhos em redor. Nada se aprende e em nada nos tornamos quando lutamos por uma esguelha de luz.
Sei que este tipo de considerações bucólicas já não se usam desde o séc. XIX, mas, para quem vive no campo, há poucas coisas mais bonitas que uma manhã de nevoeiro. E ainda não chegaram os dias frios.
No outro dia, explicava a alguém a diferença entre uma árvore caducifólia (que perde as folhas no Outono) e uma perene (as outras). Pensava a pessoa que as perenes nunca perdiam as folhas. Disse-lhe que não, que vão perdendo e renovando ao longo do ano. Vão-se livrando das folhas que não interessam, sem que demos por isso. Parece que estão sempre iguais, mas é uma ilusão. Talvez por isso nos pareçam mais fortes, porque nunca mudam e podemos contar sempre com sua copa para nos proteger, mesmo da chuva. As outras, as caducifólias, mudam todos os anos. Fazem-no de uma forma monumental, com uma beleza de causar inveja. Uns acham-nas vulneráveis, frágeis. Outros, admiram-lhes coragem de ficarem despidas aos nossos olhos durante meses, enquanto esperam novas folhas e nova vida, e por isso acham-nas as mais fortes. Enfim, a botânica devia ser uma disciplina da psicologia.
Às vezes, ao Domingo, havia coelho com arroz para o almoço. Uma das minha tias tirava um coelho da capoeira e as minhas primas mais velhas, já adultas, chamavam-me. Anda ver. Eu dizia que não. Atão,tens medo? Não, mas não gosto de ver. E o riso delas, escarninho, a cheirar-me o medo do corpo, sempre mais enfezado que o das outras crianças da aldeia, é do ar da cidade, diziam. Vá, anda ver, que mal não te faz. A mão da minha tia, certeira, a partir o pescoço ao bicho, eu a morder a língua até fazer sangue para que as lágrimas não me saltassem, ela a pendurar o bicho no prego na parede, a pele a sair de um golpe só, uma das minha primas encostada ao muro com um pé de fora do chinelo, a comer um pêssego com uma faca e a rir-se para mim, atão, estás a chorar? Não choras quando o comes, pois não? O coelho já esfolado, ainda quente, no alguidar de esmalte branco com a tinta comida nas bordas, os meus olhos presos nele e eu a querer tirá-los dali, um assobio ao fundo do carreiro, olha já lá vem o teu tio, está na hora de por isto no tacho e eu a limpar a cara com as costas da mão, sem que ninguém desse por isso.
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.