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A escola ficava numa curva

por Cristina Nobre Soares, em 12.09.17

Íamos em grupo para o Ciclo, que ficava a uns vinte minutos a pé a partir da casa da avó da Patrícia, onde era o nosso ponto de encontro. Vinte minutos à ida, porque à vinda, por ser a sempre a subir, demorava mais, a atirar para a meia hora. Íamos sozinhos, sem pais. Estávamos por nossa conta e sentíamo-nos importantes por isso. Só o Nuno Luís ia de carro com a mãe. Mas ele não precisava da aventura de ir sozinho para se sentir importante. Era rico e a gente começava a aprender que os ricos não precisavam de ganhar importância. A mãe do Nuno Luís parava o carro azul-escuro, muito grande e muito polido, junto ao portão, ajeitava-lhe o cabelo cortado à tigela, ele entrava connosco e mesmo vestido com os seus pullovers finos passava a ser um de nós. Dava o primeiro toque da manhã e o pátio ficava vazio. A escola ficava numa curva, entre um bairro da lata e os prédios de gente bem. Lá em cima, na colina, ficava o nosso bairro de prédios todos iguais. O resto era caminho.

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Rosmaninho e alecrim pelo chão

por Cristina Nobre Soares, em 10.09.17

 

Vir cá fora, logo de manhã, já pede um agasalho. É um frio ainda tímido. Tenho ideia que há um ano, por esta altura, escrevi qualquer coisa semelhante. Sei que foi por esta altura porque havia festa na vila. Os Domingos de festa acordam sempre com um silêncio cansado, mas é breve, daí a pouco devem ouvir-se os sinos e os foguetes. A procissão deve ter sido ontem. Não passa perto da minha casa, também se passasse eu decerto que não a iria ver à janela, apesar de dizer umas horas antes: a ver se é este ano que vejo a procissão passar. Eu digo que vou fazer muita coisa que acabo por não fazer. Mas a verdade é que não ligo nenhuma a procissões, não sei porque digo isto. Deve ter-me ficado de pequena, quando o meu pai punha o "single" do João Villaret a dizer “A procissão” do António Lopes Ribeiro. Eu gostava muito e cantarolava aquilo, muito trapalhona. Era muito pequena, tão pequena que só me lembro disto da minha mãe contar. Já se ouve algum movimento na rua. Não tarda, tocam os sinos. Mas não há rosmaninho, nem alecrim pelo chão

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Os que dão, os que tiram e os que apenas retribuem

por Cristina Nobre Soares, em 08.09.17

No outro dia, falava com uma amiga sobre existirem dois tipos de pessoa: os que dão e os que tiram. Os generosos e disponíveis que estão sempre lá, que sabemos que podemos bater-lhes à porta, mesmo fora de horas. E os que levam. De quem não podemos esperar nada porque não sabem o que é a gratidão. São recolectores da boa vontade alheia. Mas, para mim, existe ainda um terceiro tipo: os que apenas retribuem. Os que só reagem, que nunca se chegam à frente primeiro, que nunca surpreendem, que acham que a generosidade é uma conta de mercearia. Nunca chegam a ser ingratos porque cumprem cirurgicamente essa relação de deve e de haver. Mantêm a ficha limpa. Inclusive limpa de quem gosta deles. Destes ninguém fala. É normal. Ninguém gosta de falar das desilusões.

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Sozinhos somos mais fáceis de morrer

por Cristina Nobre Soares, em 07.09.17

No autocarro da manhã quase todos aproveitam a viagem para dormir a hora que lhes faltou à cama. Todos, menos os velhos, que vão sempre despertos, de cabeça bem levantada, mão apoiada nas costas do banco da frente. Sempre que acontece algo, uma buzina que toca, uma travagem inesperada, procuram os olhos mais próximos e fazem um esgar, como quem pergunta:o que aconteceu? Mas, o que na verdade essa busca quer dizer é: estou aqui. Ainda estou aqui. Os velhos, por pressentirem a morte, são ansiosos. Um breve olhar, trocado com o desconhecido do banco ao lado, tranquiliza-os. A presença dos outros é a prova de que estamos vivos. Nós não bastamos. Sozinhos somos mais fáceis de morrer.

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Passe L1

por Cristina Nobre Soares, em 06.09.17

A cidade acabava na praça ao pé da estação de Algés. Ali, como quem descia do Restelo. Da rua dos eléctricos em diante já não era cidade, era subúrbio. Dali em diante o passe da Carris passava a ter números à frente do L. Quanto mais embrenhado no subúrbio mais números tinha. Enquanto o autocarro subia até ao meu bairro, a cidade ia ficando para trás. A cidade, esse centro de tudo, feito de depuradas linhagens urbanas, garantidas pelos limites dos bairros certos. Dali para a frente não havia nada disso. No subúrbio não havia raízes, porque não há raízes que consigam deitar corpo no cimento e no pré-fabricado. As raízes do subúrbio tinham ficado lá, na terra aonde todos os suburbanos iam sempre que podiam. Um suburbano não era um urbano. Era alguém, que à semelhança do passe da Carris, tinha um prefixo a revelar que não pertencia à palavra original. Era um acrescento, um anexo da casa principal onde se deixam as roupas do campo para não enxovalharem a sala. O autocarro parava. O meu bairro ficava num dos terminais. Era o fim da linha. Mas um fim de linha onde nunca se chegava. Só se partia.

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Setembro

por Cristina Nobre Soares, em 05.09.17

No sítio onde vivo, Setembro é um mês sem terra. Já não parece Verão, mas ainda está longe de parecer Outono. Tem aquele ar de fim de festa, quando, já cansados, ainda esticamos a conversa na soleira da porta, só para fingir que ainda não acabou. No sítio onde vivo, Setembro é um mês fugaz, entre meses dos quais toda gente tem recordações e fotografias para mostrar, uma espécie de filho do meio, de quem nunca damos pela presença. Nem pela a ausência. No fundo, Setembro não é bem um mês, é uma espera.

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A minha melancolia

por Cristina Nobre Soares, em 03.09.17

A minha melancolia é indisciplinada, não há maneira de compreender que cada dia tem o seu preceito. Como é que não percebe que não pode aparecer quando bem lhe apetece, que é suposto chegar sempre ao Domingo à tarde? Como eu gostava de te uma melancolia dessas, com visita anunciada. Assim não me apanhava de surpresa, o que é um grande aborrecimento. Ninguém gosta de melancólicos a despropósito. Mas não tenho, e quando os outros se queixam do tormento dos Domingos, limito-me a sorrir. Que é o que fazem as pessoas sem coisas extraordinárias para contar: sorriem.Também não me importava de ter uma daquelas melancolias crónicas e tísicas. Que dizem que fazem bem à poesia. Deve ser por isso que a minha sai sempre com tosse.

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5 conselhos para urbanos que venham viver para a província

por Cristina Nobre Soares, em 03.09.17

1. Não se enervem se o carro à vossa frente parar para falar com alguém que passa. Há novidades que por aqui só se contam assim. E se não for contada naquele momento, deixa de ser novidade porque dali a uns metros há mais gente mortinha para contá-la.

2. Também não se enervem se o carro à vossa frente for a 10km/hora. Isso é porque a pessoa que vai à frente vai a deitar o olho nas pêras do Zé Alberto, que não há maneira de vingarem este ano. Ou vai a ver se a casa da Maria Clara já tem os caixilhos postos. E sim, é coisa de importância. Tenham paciência.
3. Não se enervem de qualquer das formas. O pessoal aqui não gosta de gente nervosa.
4. Já agora, sejam simpáticos e digam bom-dia. Sim, mesmo que não conheçam a pessoa. Isso não interessa. A pessoa já vos conhece perfeitamente, sabe quem é vocês são, o que fazem e onde moram.
5. E sim, aqui ainda servimos as bebidas em copos. Os frascos são para a compota.

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