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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
A luz artificial foi inventada para tornar as noites mais confortáveis, e não para prolongar os dias, diz-te alguém ao final de uma tarde chuvosa. E tu pensas, ao ouvir isto, que a luz às vezes também se propaga pelas palavras. Uma espécie de lusco-fusco muito raro de apanhar.
A pensar se esta coisa da vida se faz mesmo em círculos. Perfeitos e fechados sobre si mesmo. Ou se não será antes um fenómeno ondulatório: infinito, a repetir-se até não se sabe bem onde. Se calhar é por isto que as pessoas são previsíveis. Basta apanhar-lhes o comprimento de onda. Enfim, isto não interessa grande coisa, até porque ninguém quer saber da matemática para nada. Mesmo quando ela parece poesia. Fazem mal. É boa para dias de chuva.
Às vezes, no cabeleireiro, reparo na quantidade de mulheres que pintam o cabelo de louro. Fazem nuances, pequenas madeixas que lhes dá ao cabelo um tom aclarado pelo sol. Cabelos que alisam meticulosamente com placas de porcelana aquecidas a mais de cento e cinquenta graus, até apagarem qualquer vestígio de ondulado. São mulheres impecáveis, bronzeadas, mas daquele bronzeado saído da Côte d'Azur. Sabemos, por isso, que são mulheres de um certo estrato social. Alto. Uma casta de mulheres tratadas que conduzem carros topo de gama e têm famílias tremendamente fotogénicas. Como elas. O cabelo é apenas um sinal exterior de pertença a essa casta. Faz parte. Eu também pinto o meu cabelo. Mas de escuro. Peço sempre para escolherem uma tinta parecida com a minha cor natural. Para que não se perceba que pinto o cabelo.Tal como essas mulheres, também faço parte de uma casta: a das mulheres que fingem que não envelhecem.
Arrefece e as luzes acendem-se, a fila de carros engrossa, há quem prefira ver as luzes assim, de passagem, sem frio, sem passos, sem o cheiro do assador de castanhas, sem o barulho de uma família que chama pelo nome de uns dos outros, sem a criança que abana uma das fiadas de luzes e a mãe a dar-lhe uma sapatada na mão, aí não se mexe, e sem o homem de gorro que tropeça no lancil do passeio. E vão passando à volta, a ver de relance, que serve muito bem, para o ano é igual, todos os anos é mais do mesmo, já se sabe, e com este frio a gente ainda se constipa. Fazem bem, resguardem-se, que a vida é como as constipações, pega-se mal uma pessoa se descuida.
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