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Rua do Alecrim

por Cristina Nobre Soares, em 14.11.16

 

Conversávamos sobre trivialidades enquanto descíamos a Rua do Alecrim, até que eu te fiz uma pergunta do nada. Olhaste-me espantado e usaste a palavra desconcertante. Não uses palavras caras, disse-te. Podem dar cabo de qualquer beijo que ainda não foi dado. Riste-te e usaste-a de novo, mas não teve importância. Lá em baixo o rio continuou à espera do nosso fim de tarde. Há dias em que me parece que, para nós, serão sempre seis menos um quarto de uma tarde de Novembro.

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Joaquim

por Cristina Nobre Soares, em 13.11.16

Costumava sentar-se no banco que havia debaixo da figueira. É uma árvore para gente traiçoeira, dizia-lhe a mãe. Paciência, que fazia boa sombra. Sentava-se no banco e punha as nozes, que trazia no bolso, dentro da boina de fazenda. E ficava ali, a parti-las com as mãos, enquanto via quem passava, mesmo quando não passava ninguém. Às vezes dizia, boa tarde, mas os outros baixavam os olhos e murmuravam, é o bufo. Ele ouvia, mas não ligava, encolhia os ombros e partia mais uma noz. Às vezes também passava uma velha. Ela passava no seu passo quebrado de viúva, que é um passo de quem já não espera mais nada. Tinha um filho, a velha. E ele partia mais uma noz a tentar lembrar-se da cara do rapaz. Nunca conseguia. Era normal. Só se lembrava dos nomes. Para isso sim, sempre tivera boa cabeça. Era até capaz de se lembrar dos apelidos todos e pela ordem certa, se fosse caso disso. A velha, sempre que passava, parava e olhava-o com os olhos bem abertos. Cabrão, dizia entre dentes. Ele ouvia, fingia que a noz tinha bicho e deitava-a fora. Manuel. Era como se chamava o comuna do filho dela. Manuel de Jesus Cipriano. A velha afastava-se na curva do caminho. Cabrão do bufo que não há meio de morrer, ela a dizer, com a raiva a vergar-lhe ainda mais a corcunda das costas. E ele atirava as cascas para o chão e dizia bem alto, Joaquim. Lembra-te que o meu nome é Joaquim.

(Outubro de 2013)

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O ladrar dos cães

por Cristina Nobre Soares, em 12.11.16

Há uma matilha de cães que ladra desde manhã cedo. Deve ser a mesma que às vezes oiço à noite. Na cidade, à noite, nunca se ouve o ladrar dos cães. Só o dos que vivem nas varandas, mas esses ladram de uma maneira estranha. É um ladrar estridente, que fica preso no eco das pracetas e que tira o sono a quem o ouve. No campo é diferente. O ladrar que se ouve à noite é rasgado, abafado pela distância, porque no campo tudo se ouve ao longe. Não incomoda ninguém. Faz parte, como faz parte o cheiro de erva fermentada ou as cigarras no Verão, e por isso embala-nos o sono. Penso escrever qualquer coisa sobre isto, mas o ladrar dos cães  é assunto que  não interessa a ninguém. É melhor ir fazer as almôndegas para o almoço.

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Do fogo

por Cristina Nobre Soares, em 10.11.16

O meu vizinho descarrega lenha a antecipar o frio do Inverno. Diz-me adeus e eu retribuo-lhe da janela. Empilha a lenha debaixo do telheiro, de uma forma cuidada, quase com respeito. As lareiras e o fogo exercem um fascínio sobre nós, que vai muito para além do aquecer. A relação entre os homens e o fogo é um laço de confiança. Em troca de o acendermos e alimentarmos, ele transporta-nos para um aconchego, aonde só chegamos de vez em quando. Um acordo platónico entre duas criaturas que não se podem tocar. Se se tocarem, um queima-se e o outro extingue-se.Talvez por isso dure desde o princípio da existência. No fundo, todas as histórias de amor são assim, inquebráveis antes do toque.

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Porque nós deixámos

por Cristina Nobre Soares, em 09.11.16

Hoje, quando a minha filha me perguntou como é que era possível ter ganho o Trump, eu tive vergonha. Vergonha, porque a única resposta que me ocorreu foi: porque nós deixámos. Deixámos sempre que nos recusámos a olhar para trás, para a história e com ela ver os erros do passado, quando fingimos não ver os sinais que se repetem. Deixámos sempre que nos encolhemos com medo a um canto, fosse com medo do daesh, dos refugiados, da crise económica, dos imigrantes que achamos que nos roubam emprego, das mulheres que se atrevem a ser iguais aos homens, dos ciganos, dos pretos, dos brancos, dos homossexuais, dos diferentes, dos iguais, das vacinas, da ciência, do conhecimento. Deixámos porque temos pavor de perder as nossas vidinhas de polyester, costuradas a menos de um dólar por dia algures numa fábrica do Bangladesh. Vidinhas de pronto-a-vestir que compramos só porque toda a gente usa uma igual, e não interessa que tenha má qualidade, que para o ano deita-se fora e compra-se outra nos saldos. Deixámos sempre que dissemos, ai coitadinhos, quando vimos na televisão famílias inteiras a morrerem no Mediterrâneo, a afogarem-se no próprio desespero, mas das quais nos esquecemos no segundo a seguir, ao entrarmos no carrinho bem atestado de gasolina. A mesma que lhes estoirou a vida e a esperança. Deixámos sempre que não levantámos o rabo do sofá para ir votar, porque “eles” são todos iguais, tudo farinha do mesmo saco. Saco onde por acaso nós também estamos enfiados até ao pescoço. Deixámos, porque a dormência é coisa que não dá trabalho, deixa andar, quem vier atrás que feche a porta. O pior é que são os nossos filhos quem vão fechar a porta. É este o mundo que lhe vamos deixar. Mas isso não interessa, o que interessa é a merda do agora, do presente, da satisfação imediata dos egos ou o raio que o parta. Deixámos porque não passamos de uma geração de mimados, que nem sequer percebe que o presente é uma coisa que já não existe quando acabarmos de ler esta frase. E olho para minha a filha a perguntar-me isto e só me ocorrer dizer: Porque deixámos. E é este o mundo que a geração dos teus pais te deixa. Desculpa. Desculpa, filha.

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Sobre as eleições de hoje

por Cristina Nobre Soares, em 08.11.16

Espero, como muita gente, que hoje Trump perca as eleições. Mas não deixo de pensar, que isso acontecer se não será apenas um adiar de um caminho desastroso. E que me parece inevitável enquanto andarmos a fingir que não é um problema nosso. Acontece, que pelo nosso silêncio, pelo nosso comodismo, e alienação disfarçada de enfado, talvez nós é que sejamos o verdadeiro problema, e não os outros que “votam nos maus”. Até porque o mal é coisa que cresce bem no silêncio das boas pessoas.

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O linho é um castigo para passar a ferro

por Cristina Nobre Soares, em 06.11.16

Hoje há mais estendais na rua. Para apanharem umas horas de sol, antes que chegue aí a chuva. A minha já secou e agora tenho uma pilha de roupa para dobrar e passar, mas ignoro-a. Não sei bem porquê, mas lembro-me que a minha mãe usava um lenço húmido para vincar as calças ao meu pai. Para não ganharem lustro. Fazia o mesmo à roupa de linho. O linho é um castigo para passar, lamentava-se. E o pior é que uma pessoa veste isto e passados cinco minutos já está toda engelhada. É um castigo. Olho de novo para a pilha de roupa. Que se lixe. Vou mas é ler, que é coisa que me passa a ferro por dentro. Até porque ando desconfiada que o meu avesso é de linho.

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Arquipélagos

por Cristina Nobre Soares, em 04.11.16

Quando me perguntam se conheço os Açores digo que não, apesar de já ter estado em quatro das nove ilhas. Ficam a olhar para mim como se eu fosse doida. O costume. Mas conhecer quatro ilhas não é conhecer um arquipélago de nove. Assim como um pássaro não é um bando e um lobo não é uma alcateia. Eu conheço São Miguel, o Faial, o Pico e a Terceira, não os Açores. Gosto de as chamar pelos nomes, porque cada uma delas tem uma voz própria, maravilhosamente diferentes entres si. Até mesmo nos coros, se tivermos atenção, conseguimos distinguir as vozes. Dirão que falar no grupo, no todo, é sempre mais simples. Talvez. Mas às vezes tenho a sensação que o todo é injusto de tão simples que é. E tenho dúvidas se a vida se quer simples ou justa.

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Incenso

por Cristina Nobre Soares, em 02.11.16

Quando andava no 9º ano, às vezes ia para casa da Ana Sofia, que morava perto da escola. A mãe dela usava saias e cabelos muito compridos. Chamava-nos meus amores, andava sem fazer barulho e ouvia umas músicas tibetanas. Eu gostava muito da mãe da Ana Sofia, porque ela nunca se zangava. O pior era o incenso, que me agoniava muito e me deixava o nariz cheio de comichões. Mas eu não me queixava. Quando a mãe da Ana Sofia me perguntava porque é que eu espirrava tanto, eu respondia a sorrir, não sei. E ela dizia-me, meu amor, tens de ouvir melhor o teu corpo, que ele deve querer dizer-te alguma coisa. Escuta-o. O que a mãe da Ana Sofia não sabia era que o meu corpo sempre falou comigo aos berros, sem finesse nenhuma. Um corpo com maneiras de carroceiro, que se deu sempre muito mal com modernices holísticas. Nunca tive mão nele. Ainda assim, eu dizia que sim à mãe da Ana Sofia e sorria muito, até os deixar de ouvir. A ela e ao corpo cheio de comichões por causa do incenso. Ainda hoje resulta.

 

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por Cristina Nobre Soares, em 01.11.16

Comento que há mais gente no cemitério do que o costume. É normal, o dia de finados está perto, respondem-me. Há velhos que varrem as campas com vassourinhas e que põem flores frescas no sítio onde havia flores de plástico, desbotadas e encardidas do pó. Repetem os gestos como se fizessem as limpezas de Domingo. Ninguém sabe porque as faz. Sempre as fizeram assim e por isso é que o Domingo cheira a lençóis esticados e a carne assada. Parece-me ouvir o barulho do vapor a sair do pipo da panela de pressão e o meu pai a trautear uma música enquanto passa no corredor. Pouso as flores em cima da campa e encho um dos regadores com água. Talvez a morte tenha de ser uma coisa asseada para as memórias não ganharem pó.

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