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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Hoje lembrei-me das tardes de Verão em que fugia de bicicleta, mesmo sabendo que ninguém me esperava nesse sítio que eu não sabia onde era. O calor a pegar-se na pele, a rampa de alcatrão quente, a sombra dos prédios, o silêncio do bairro que só era habitado de noite, e eu a pensar que podia soltar as mãos do guiador, e abrir os braços como nos filmes, em que eles nunca caem, e há sempre uma luz filtrada pelas câmaras parecida com a dos sonhos. Nunca soltei.
Pousa no tapete uma garrafa de gin. Reparo no tom azulado do vidro. Não encontrei o cardamomo, diz ela. Ele responde que não faz mal, que há limão em casa. Também não sei como é o cardamomo, acho que nunca vi. Ele volta a dizer que há limão em casa. Acho que são umas coisinhas com umas sementes lá dentro, a Liliana é que diz que fica bom no gin. Apanha o cabelo no alto da cabeça e faz-lhe uma festa na barba, não faz mal. Olha, sabes se há limão lá em casa?
Espera, disse-lhe antes de ela partir, tens de levar um livro. Já faz parte do ritual. Emprestei-lhe o “África minha”. Riu-se, mas eu vou para a Dinamarca, não vou para África. A Karen Blixen era dinamarquesa, disse-lhe. O que eu não lhe disse é que a África é a minha terra, aquela à qual um dia sei que irei retornar. E também não lhe disse que é também por isto que tenho a tal coisa com os livros. Porque neles também moram as ligações que faço com as pessoas.
A olhar por aqui o Verão é feito de mar e, acima de tudo, de viagens. O meu também sempre foi, incluindo aquelas que fiz nas tardes de cinema que passavam na RTP1. A palavra viagens tem de ter mais sinónimos do que aqueles que toda gente usa, caso contrário nunca saímos do mesmo sítio.
E chegámos àquela altura do ano em que ninguém lê o que escreves, que os blogues de trivialidades, como este, são coisas dos dias de chuva e do rame-rame da vidinha. Também, convenhamos, pouco ou nada se pode escrever sobre Verão, talvez um texto sobre a minha embirração com areia dentro dos livros, as sestas forçadas em tardes de calor pegajoso, ou talvez sobre o ainda hoje me baralhar com barlavento e o sotavento ou das bolas de Berlim só me saberem bem na praia. Ou que as vozes dos outros, na praia, sabem a óleo de coco misturado com sandes de ovo, e que a maresia, pela manhã, sabe a pregões de bolacha torrada americana. São assuntos gastos. Ninguém quer saber. É isso, as trivialidades de Verão não têm metade da seriedade das de Inverno. Aguardemos pelas primeiras chuvas.
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