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Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Os podres dos outros

Cristina Nobre Soares, 11.07.16

O meu vizinho do rés-do-chão devia medir quase dois metros e andava sempre em camisola interior. Tinha uma voz cavernosa, que se ouvia cá em cima quando os miúdos do terceiro andar galgavam as escadas a descer. São umas bestas, gritava ele. Não eram. Eram apenas miúdos a galgar as escadas. O meu vizinho do rés-do-chão dizia mal da vizinhança toda, e a mulher dele, que não devia medir metro e meio, dizia ainda pior. Espiavam os vizinhos pelo olho mágico da porta, a ver se lhes viam os podres. Isto é tudo uma pouca vergonha, diziam eles. Não era. Eram apenas vidas e pessoas como as outras. O meu vizinho do rés-do-chão tinha um filho. Usava um blusão de imitação de cabedal, bigode fininho e o cabelo puxado para trás com brilhantina. É uma jóia de rapaz, dizia o meu vizinho, que para falar do filho limava a voz cavernosa. Não era. Passava droga nas traseiras da minha escola.

A vergonha de falhar

Cristina Nobre Soares, 08.07.16

Hoje é moderno contarmos os nossos falhanços. Mas contar estilo fábula, sempre com uma moral no fim. Quando falamos deles dizemos: eu falhei, mas… E este mas põe-nos do lado certo da vida. Por isso, só falamos daqueles que resultaram em lições formidáveis. Mas o pior são os outros. Aqueles falhanços que nem às paredes confessamos. Que são uma maçada porque vêm apensos à nossa existência pequenina e incomodamente colados à pele.

 Às vezes, falamos desses falhanços, mas assim de raspão, para não lhes dar grande importância. Então, os outros dizem-nos, meio em tom de consolo, deixa lá, foi um azar. Paciência. Acontece a todos. Mas então, se acontece a todos como é que não sabemos disso? Simples, porque ninguém conta. Ninguém conta que já traiu ou foi traído. Também ninguém fala daquele amigo que, ao passar por nós, fingiu que não nos viu, só para não nos falar. Ou daquela vez em que desejámos não ter tido filhos, só porque nos apetecia dormir uma noite inteira. Ou que fomos uns filhos da mãe com um colega, só para garantir o nosso posto de trabalho. Não, ninguém pode saber que já fomos cornos, mentirosos, maus amigos, pais egoístas ou, simplesmente, pessoas desesperadas.

 A verdade é que estamos formatados para nunca falharmos. Meteram-nos na cabeça que somos todos especiais e heróis. E isto é uma coisa tão provável como neste momento estar um unicórnio na nossa varanda. Mas ainda assim, acreditamos nesta história da carochinha e vamos varrendo para debaixo do tapete as nossas vergonhas. Porque é disso que se trata: vergonha. Por não sermos as tais criaturas especiais que devíamos ter sido. Por sermos apenas normais, triviais, iguais, medianos, suficientes. Humanos. Maravilhosamente humanos. Ironicamente são estas falhas inconfessadas, mais o calo que elas nos deram, que nos tornam únicos. E mais irónico ainda é pensar que talvez a nossa maior falha seja a de não olharmos de frente para as nossas vergonhas e humilhações. Talvez os verdadeiros heróis sejam aqueles que um dia perderam o medo de falhar. E de falar disso.

 

Texto publicado no P3 (07/07/2015)

 

 

 

Dos versos e outras rendas

Cristina Nobre Soares, 07.07.16

(Escrevi este texto em Dezembro de 2014 para um evento em Óbidos, a Magia da Transformação. Esta semana lembram-me dele. E dos quilómetros que se vão escrevendo pelo caminho. A ilustração é da Ana Varela)

 

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Tinha apenas quinze anos quando se apaixonou por um caixeiro-viajante. O mesmo que lhe trazia os cadernos e as canetas com que escrevia os poemas. Poemas que ela escondia no fundo da cesta onde guardava as linhas e as rendas do bilros. Para que o pai, um homem para quem as  palavras eram inúteis, não os descobrisse. Nenhum homem, com  cinco alqueires de juízo, pega numa mulher que só saiba de versos, dizia-lhe o pai.  Mas ela não o ouvia, e a cada mudança de estação, corria à entrada da vila para  ver chegar o seu amado. Nenhum homem quer uma mulher que só saiba de coisas inúteis como os versos, e ela a dizer rendilhados de amor ao ouvido do caixeiro-viajante, que os trocava por promessas de amor verdadeiro. Nenhum homem quer uma mulher que só saiba de versos, ouviste? E o pai a proibi-la de sair, a queimar-lhe os cadernos e a tirar-lhe as canetas. Só precisas de  linhas e de rendas para que algum homem decente te queira. Ela a dizer adeus da janela ao caixeiro-viajante, volto para te buscar quando chegar o Inverno, ele a prometer e ela a começar as rendas para fazer o tempo passar mais depressa. Volto para te buscar quando chegar o Inverno, as rendas de linha branca a fazerem-se no quarto, ela a murmurar os versos de cor, as estações a sucederem-se, a renda a crescer em metros, tempo e palavras. Volto no próximo Inverno, mas o próximo era sempre no ano seguinte. Nenhum homem pega numa mulher que só saiba de versos e os anos a enredarem-se no engenho dos bilros, o tempo a tirar-lhe o viço do rosto, os poemas a pingarem-lhe dos lábios, a renda tão imensa, que já não cabia no quarto, na casa, na vida. Ninguém sabe ao certo quantos Invernos passaram, ninguém sabe ao certo quantos poemas se rendilharam nos imensos de metros de  renda. Mas, dizem que a renda era tanta, tanta, que cobria todas as ameias do castelo da vila. Dizem, também, que no dia  em que o  caixeiro viajante voltar para a buscar essa renda branca se tornará de prata e ouro,  Dizem que quando ele chegar se ouvirão versos  e que a renda se tornará de ouro e prata. Mas todos sabem que isto é apenas uma lenda. Das que só existem nas palavras de quem nelas acredita. E todos sabem que não há magia nos versos. Não há. Só naqueles que são de amor verdadeiro.

Escaldão

Cristina Nobre Soares, 06.07.16

Antes de atravessar a rua, a rapariga baixa a blusa até que os ombros fiquem à mostra. Estão vermelhos e a escamar do escaldão. A cara também está vermelha e tem o cabelo preso à samurai. A meio da passadeira, o elástico da blusa sobe e tapa-lhe um dos ombros. Agora, como de costume, eu diria que tinha pensado qualquer coisa, uma filosofia de algibeira. Mas não, hoje é só isto.,

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