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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Guardava um par de sapatos de cetim debaixo da cama. Comprara-os um número abaixo, igual aos anos que tinha, na esperança que lhe escondessem o tamanho dos pés. Todos os dias, agachava-se, abria as dobras de papel de seda, e dizia o responso. Depois guardava-os outra vez debaixo de cama, mesmo ao lado do Santo António de louça embrulhado num pano de enxoval. Ó rapariga, não guardes o santo debaixo da cama, que ele assim não te ouve, dizia-lhe a mãe. Tens de o pôr a arejar para encontrares noivo. Noivos e mofo não casam, criatura. Pois sim, dizia ela, que o noivo ainda era como o outro, que com aquela idade já só queria um que a aconchegasse, agora os sapatos da boda, por amor do santo, tinham de ser aqueles, que eram tão lindos. E a dormir ao lado deles, era da maneira que o santo não se esquecia. Ó rapariga, não guardes o santo debaixo da cama, que ele assim só te encontra mofo e esquecimento. E ela a agachar-se debaixo da cama, os sinos a tocaram para a boda de alguém que não ela, olha que o santo te ganha mofo, o responso outra vez, recupera-se o perdido, rompe-se a dura prisão, ela abrir as dobras do papel de seda e dar com o esquerdo todo roído das traças. Raios te partam, rapariga, eu bem te disse que no meio do bafio o santo encontra nada. Tens de o pôr a arejar.
Quando a casa fica em silêncio, eu sento-me e deixo que me invadam todas as ideias do que ainda não escrevi. Os lugares que ainda não existem, as personagens que me habitam há já tanto tempo que se tornaram quase reais. Como se eu as conhecesse de morarem ali ao lado. Esperem mais um pouco, digo-lhes. Até a minha filha crescer. Até a minha vida fincar os pés no chão. Está quase, digo-lhes. Mas depois o silêncio da casa quebra-se. A realidade tem um tom de voz estridente. E elas fogem-me, para esses tais sítios que eu ainda não sei bem onde ficam. Deve ser por isso que ainda não consigo ir ter com eles.
Chega todas as manhãs antes das oito. Para levar os netos à escola. Pára o carro na minha rua, buzina uma, às vezes duas vezes. Ao princípio irritava-me, parece impossível, acorda toda gente. Mas depois habituei-me. Começou a fazer parte da minha rotina. O som da buzina começa a minha manhã. Quando não a oiço, sinto-lhe a falta. Olha, hoje a avó dos miúdos não veio, digo. É engraçado como nos habituamos aos hábitos dos outros.
Insistia em chamar-me pelos meus dois nomes, mas eu não me importava. O meu tio emprestado podia, eu deixava. Ele e o meu pai, por vezes, ficavam horas a recordar, a discutir. O meu pai, sempre mais emotivo, gesticulava, ficava vermelho. Ele, o meu tio, ficava a fazer girar as pedras de gelo do whisky com o dedo, enquanto o ouvia. Depois, dizia sempre qualquer coisa, que devia ser certa, porque fazia o meu pai sorrir. É verdade, Zé, dizia o meu pai. Acho que lhes ouvi as mesmas histórias vezes sem conta, mas fingia sempre que não as conhecia. Quando ouvimos uma história pela primeira vez pertencemos-lhe mais. Quando a lembramos pertencemos-lhe para sempre.
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