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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Sou filha de uma mulher com a quarta classe e de um homem com o antigo curso comercial. Sou filha de duas pessoas que, lamentando não terem podido estudar mais, me disseram sempre, tens de estudar para ires mais além. Nunca houve dinheiro para me mandar para uma escola privada. Nem acho que isso alguma vez lhes tivesse passado pela cabeça. Por isso, fiz todo o meu percurso escolar em escolas públicas. Nelas conheci professores que me marcaram para a vida toda e fiz amigos de todos os estratos sociais. Desde amigos que viviam no Restelo, a amigos que viviam na Pedreira dos Húngaros. A diversidade de pessoas com quem me cruzei na escola pública fez de mim a pessoa que sou hoje: uma lírica que acredita que a única coisa que deve fazer a diferença na progressão social é o mérito. Antes que se abespinhem, eu, sei que infelizmente, não é. Reparem que usei o verbo dever. E enquanto o usarmos, é sinal que ainda acreditamos que o que está mal pode e deve (lá está) ser mudado. Adiante. Acontece que esta coisa do mérito só resulta se tivermos diversidade. Caso contrário, estamos a falar de bolhas sociais, tão frágeis que rebentam à primeira coisa que corra mal.
A escola pública, mesmo com todas as suas falhas educativas, mesmo com toda a urgência que tem em se adaptar a um mundo muito diferente do industrial do princípio do século XX, tem um mérito incontornável: é um espaço-tempo realmente democrático. Um sitio onde a filha do contabilista de classe média é igual ao puto da Pedreira dos Húngaros e igual ao menino fino do Restelo. Se a escola pública precisa de ser melhorada? Claro que sim. Precisa de investimento a sério para que possam ser dadas condições e meios aos professores (que são a parte mais importante da coisa). Precisa que se invista em áreas educativas como a arte. Precisa que se invista em infraestruturas e equipamentos. Para que se torne melhor, numa escola que cumpra o seu papel social. Se tenho alguma coisa contra as escolas privadas? Não, de todo. A maçada, aqui, é a forma como é investido o dinheiro dos contribuintes (tom do Restelo). Porque a cena, meus, é que o estado somos nós (tom da Pedreira dos Húngaros).
Hoje, na Preguiça Magazine, falo dos dias antes e depois do 25 de Abril. E daquela coisa de termos de lembrar para podermos construir um futuro. Ou pelo menos um presente minimamente robusto.
Eu sei que fazer referência ao dia da mãe é uma coisa muito mais fofinha, que toca a toda a gente, porque afinal, a nossa é sempre a melhor do mundo. Também sei que fazer referência ao dia do trabalhador é coisa que já não se usa, que cheira a maços de SG Ventil fumados a preto e branco. Paciência, a minha mãezinha (que hoje é o dia da mãe) ensinou-me que há coisas importantes, que nunca passam de moda. As tradições também não passam de moda, até porque, segundo o que consta, são costumes e doutrinas que se passam de geração em geração. Ora, perante isto, pergunto-me: qual será a doutrina que uma certa cadeia de supermercados tentará passar, ao insistir em fazer promoções bombásticas no dia 1 de Maio?
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