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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
1.A Joana Vasconcelos achou que era um bom momento para mostrar que é uma alma livre e mundana.
2. O senhor ou senhora que lhe fez a entrevista achou que aquilo era bom material.
3. A RTP achou que aquilo era boa ideia.
4. As pessoas acham sempre qualquer coisa sobre o que não sabem (estou incluída neste grupo, caso contrário não estaria a escrever isto).
5. Já, agora, se toda a gente que se mostrou indignada com a Joana Vasconcelos, resolver apoiar a causa dos refugiados, a coisa é francamente positiva. (para além de sofrer de achismo, eu também sofro de lirismo)
Por ter pés chatos e joanetes, Amélia nunca aprendera a dançar. Era um desgosto que lhe consumia o avesso da alma. Quando havia bailes na vila, ficava a ver os outros a dançar noite fora, com uma inveja tão grande que até lhe fazia doer os dentes. Apercebeu-se disso, num desses bailes, o Zeferino, que para além de poeta, também era homem viajado, e a quem a solidão já pesava, apesar dos sonetos de amor. Pois, numa dessas vezes, chegou-se à beira dela e disse-lhe: tenho um remédio, que me ensinou uma velha, meia índia, meia cigana, que te põe os pés direitos e a saberem dançar. Ela torceu o nariz. Vá, não tenhas medo, que este remédio te vai meter tal leveza nos pés que não vai haver moda que não consigam dançar. E quanto me vai custar esse remédio? Coisa pouca. Que assim que ela ficasse boa dos pés teria de casar com ele. Ou pelo menos noivar com tudo o que isso tem direito. Pois que sim, disse-lhe ela, até porque se fiava que os pés nunca lhe saíssem daquela agonia. Pois que sim. E a primeira encomenda chegou. Trouxe-a um carteiro, bem jeitoso, que ela nunca vira por aquelas paragens. Abriu o pacote de papel pardo. Lá dentro, uma caixa imensa de chocolates. Doce, a saber ao veludo dos beijos demorados, a aquecê-la por dentro, naquele dentro que há três palmos abaixo do peito, e as dores nos pés a aliviarem-se-lhe. Na semana seguinte, outro pacote, e o carteiro a parecer-lhe um artista de cinema, com uns olhos que lhe furavam a alma. Desta vez o chocolate era leve, negro, quase amargo, os pés a ficarem-se-lhe leves, cada vez mais leves, os olhos a semicerrarem-se, um formigueiro a subir-lhe pelas pernas, até três palmos acima dos joelhos. Na terceira semana, trouxe, o carteiro, chocolates traçados com álcool e pimenta, a voz dele, do carteiro, a pôr-lhe a cabeça tonta, o formigueiro a subir, a subir, ele a puxá-la para si, só para uma dança, uma só, anda lá e ela a dizer que sim, os pés quase sem tocarem no chão, a cabeça e o corpo a girar, que a pimenta me está a deixar a arder, ela a dizer. Nunca mais lhes puseram a vista em cima. Abalaram os dois, de madrugada, ainda meios descompostos, disse uma vizinha. O Zeferino, esse, continua a oferecer a cura do chocolate às moças que não dançam. Mas diz que ainda não casou. Fogem todas com os carteiros. Ao Zeferino restam-lhe os poemas, que é a sina dos que não conseguem as mulheres bonitas. Mesmo as que têm pés chatos e joanetes.
* História escrita há um ano, durante o festival do chocolate de Óbidos, para o evento nº16 do Chocolate, no Espaço Ó
Foi a minha tia Rosa quem me deu a minha primeira Barbie. Trouxe-a do Luxemburgo (sim, ironia, eu tenho uma tia Rosa do Luxemburgo.) Foi das minhas melhores prendas de Natal. Muito mais bonita que qualquer uma das minhas Tuchas, que sofriam evidentemente de hidrocefalia. Fartei-me de brincar com a minha Barbie na casa da Patrícia. Que revirava os olhos aos meus guiões para brincadeira, que eram sempre uma espécie de primórdio do Tomb Raider. As pernas desproporcionadamente longas, o cabelo louro, os pés sem dedos, e a overdose de cor de rosa não me causaram grande mossa. Porque eu não brincava só com Barbies. Também brincava na rua,aos policias e ladrões e ao elástico, e passava horas a ler no chão do meu quarto. Ou talvez porque os adultos que foram passando pela minha vida (pais, irmãos, professores) me tivessem mostrado uma coisa chamada diversidade. Talvez. E por isso é que não percebo esta intifada contra a pobre da Barbie. Decerto que as mães que tanto se indignam, não se maquilham antes de sair de casa, não passam a vidas atormentadas com dieta da sopa e as aulas de Pilates, e muito menos fazem unhas de gel. Talvez os pais, que não querem que as suas meninas não cresçam em estereótipos cor-de-rosa, quando elas nasceram, tenham tirado licença em vez das mães. Talvez até se tenham revoltado contra o facto das suas colegas de trabalho ganharem menos do que eles. E discutam isso à mesa. Uma mesa longe da televisão onde nunca foi visto um episódio da estereotipada Violetta ou de um dos milhares de novelas da TVI. Deve ser isso.
Um rapaz vestido de morcego anda à pancada com um rapaz que usa as cuecas por fora das calças. O ruivo raquítico é o mau. Têm de chamar uma rapariga com ar de gladiadora e calções de atletismo para pôr ordem naquilo. Gastaram 400 milhões de dólares nisto.
Ainda eu era bolseira de investigação (e os animais falavam) quando concorri a um lugar numa outra universidade. Pediam valências absurdamente específicas, como especialização em identificação de macroinvertebrados de águas interiores (palavrão para melgas e alfaiates que vivem nas albufeiras). O mais absurdo é que eu as tinha. Mas mesmo assim, não consegui o lugar. Justificaram-me que tinha sido porque a candidata escolhida (muito provavelmente uma bolseira em contrato precário a quem queriam garantir mais dois anos de trabalho) sabia falar alemão e eu não. Foi das justificações mais manhosas que ouvi na vida. Obviamente que esperneei. Fiquei sem o lugar na mesma. Quando cheguei a casa, contei ao meu pai, com ar vitorioso que não tinha ficado por uma unha negra. Só por causa do alemão, vê lá a injustiça. Mas tiveram que ouvir umas boas. O meu pai olhou para mim e disse, certo. Mas não conseguiste. Porque o teu objectivo era ficar com o trabalho e não, provar-lhes que os critérios de selecção eram injustos. Fiquei sem argumentação. Nesse dia percebi que a concretização é uma coisa bastante binária e com pouca margem de manobra para dourar a pílula. A lucidez será sempre uma coisa tramada.
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