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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Das primeiras memórias que tenho do Nicolau Breyner é da Vila Faia. Os meus pais deixavam-me ficar a pé para a poder ver. O Nicolau Breyner era o João Godunha, uma espécie de anti-heroi, mentor do menino rico errático. Bruto mas bom homem. Redime-se nos braços da perdida Mariete, que fez chorar o país inteiro ao casar (com o João Godunha) e morrer de leucemia numa cama de hospital. Hoje foi o João Godunha (que para mim o Nicolau Breyner será sempre ele) quem deixou o país triste.
Na feira de velharias vejo um exemplar antigo do Orgulho e Preconceito. Tem a capa esfolada e mal se consegue ler a palavra preconceito. Não faz mal, mesmo só com uma sílaba eu presumo as outras que não estão lá. Dois euros, diz-me o homem enquanto ajeita o canto enfolado da manta. Digo que só estou a ver, que já lá o tenho em casa. Mas este parece-me absurdamente real. O preconceito é assim, mesmo com as sílabas cortadas pela metade, preenchemos o resto sem pensar muito. E é coisa que se compra sempre em segunda mão. Baratinho. De preferência a alguém que nos faça um resumo rápido do que lá vem dentro. Pouso o livro. Não dava mais do que um euro por ele. Não vale a pena o regateio.
Sabe quais os gostos do seu pai? Pergunta-me a sms a anunciar uma promoção qualquer para o dia do pai. Sorrio. O meu pai gostava de música, de ouvir ópera no seu sofá no canto da sala. O meu pai torcia o nariz quando eu ouvia Zeca Afonso ou Sérgio Godinho, só me faltava que desses em comuna. O meu pai gostava de dobrada com grão e de bife com batatas fritas. De batatas fritas com tudo. O meu pai não gostava de mariquices com alface. O meu pai tinha opinião sobre tudo e gostava de discutir, de debater. Mas não gostava de perder discussões. Nem de discutir comigo, és teimosa rapariga, dizia-me ele. O meu pai não tinha jeito para crianças, mas quando se entusiasmava parecia um miúdo. O meu pai tinha mau feitio, não levava nada para casa, dava murros na mesa para mudar o que achava que tinha de ser mudado. O meu pai às vezes era machista e eu zangava-me. O meu pai era do contra. E eu também. Às vezes o meu pai acontece-me nos gestos. E em tantas outras coisas que eu não lhe disse.
A cozinha da minha infância tinha oito metros quadrados, uma porta para a varanda e a mesa onde aprendi a ler e a escrever. A cozinha da minha infância tinha a minha mãe o ano todo e um alguidar de ervilhas para descascar na primavera. Se encontrares uma com treze ervilhinhas podes pedir um desejo. As ervilhas a caírem no alguidar, as unhas a ficarem verdes no sabugo, o que é gostavas de ter sido, mãe? E ela dizer-me que se a tivessem deixado estudar tinha tirado um curso de história, a luz da tarde a entrar pelo cortinado. E não tiraste porquê? A minha mãe a encolher os ombros, olha porque não me deixaram. Ela a olhar para a vagem que eu tinha na mão, quantas é que essa tem? Dez, eu a dizer, e a minha mãe a dar-me a dela, toma, fica com esta, tem treze e tu tens a vida toda à tua frente.
(Escrevi isto num 15 de Outubro. Paciência. As datas valem o valor que lhes quisermos dar. A de hoje vale pelo caminho que outras fizeram. Pelo tanto caminho ainda que há a fazer.)
Perguntam-me se sempre gostei de ser mulher. Respondo que não. Que nem sempre gostei de o ser. E antecipando o porquê, conto um episódio. Era o dia do casamento de uma prima minha. Eu teria uns doze anos, e a minha mãe tinha-me comprado uma roupa nova. Uma que assentasse bem no peito que crescia a olhos vistos, para meu embaraço. Mas que não te faça parecer uma mulher pequena, comentou a minha mãe. Eu não percebi muito bem o sentido da frase. Suspeitei que tivesse a ver com o meu novo corpo, que me sobrava, desajeitado. Não liguei. Afinal era dia de casamento, o que significava que eu iria brincar com os meus primos até às tantas e empanturrar-me com bolos até ficar enjoada. O costume, portanto. Mas algo mudou nesse dia. Estás uma mulher, disseram-me as minhas tias. Vai ter ali com elas, disseram-me. Elas, eram as outras raparigas, algumas mais velhas do que eu, a quem lhes tinha sido dada a responsabilidade de tomarem conta dos mais pequenos. Vai lá, disseram-me, que tens de te ir aprendendo como se faz. Olhei-lhes o mimetismo irrepreensível, com as crianças pela mão. Pareciam mulheres pequenas. Afinal aquilo que a minha mãe quis esconder com a minha roupa, podia revelar-se de outras formas. Como uma sentença de comportamento. Do outro lado do pátio, os rapazes limitavam-se a passar o tempo. E eu disse, mas os rapazes também vão ser pais e não têm de aprender nada. Mas a vida é assim, responderam-me. E aquelas palavras tiraram-me o ar. Asfixiaram os meus doze anos apenas num corpo. És mulher, limita-te a ser um corpo. Um corpo que criará os filhos que parir. Um corpo que cuidará dos outros. Dos vivos e dos mortos. Um corpo que se limitará a emprestar à existência dos outros. Que te dirão quantos filhos terás, se os poderás, ou não, abortar, como e onde os parirás, como e onde os amamentarás. Serás um corpo sobre o qual toda a gente terá opinião, regras, preconceitos e outros medos. Não, a vida não é assim, não tem de ser assim. E o meu útero não pode ser a minha sentença.
Contou-me a história sem nunca ter dito o nome dela. Nem datas. Como se o tempo fosse apenas uma hora anónima. Os nomes são feitos de carne e osso. E a memória cheira-lhes o medo do outro lado da rua. Os nomes, às vezes, doem.
Fartou-se de chorar. Quando obrigam Maude a quebrar a greve de fome, enfiando-lhe leite com um funil. Quando o marido dá o filho para adopção, porque ele, tal como todos os homens na altura, tinha todos os direitos sobre os filhos. Quando Emily se mata para chamar a atenção do mundo para a causa das sufragistas. Cheguei a achar que o filme era forte demais para ela. Talvez tivesse exagerado. No fim, diz-me ainda a fungar: Sabes, mãe? Tenho muito, muito respeito por estas mulheres. Já viste? Se não fossem elas, não podíamos estudar e eu se calhar eu também já estava a trabalhar. Já imaginaste como seria se não fossem elas?Disse-lhe que sim. Não consegui dizer mais nada. Foi a minha vez de me emocionar.
(Vem aí o tão afamado dia da Mulher. Em vez de andarem a oferecer florzinhas e coisas cor de rosinha para celebrar o que não tem celebração, aluguem o filme. Ser mulher é ser metade da raça humana. “Apenas” isto)
Pergunta que me assiste: Desde quando é que as pessoas deixaram de correr e passaram fazer running? Ou correr é uma coisa foleira reservado a quem o faz para o autocarro? Engraçado, lembrei-me agora de um dos momento mais bonitos que vivi. Corremos. E metia chuva forte, inundações na 24 de Julho, um beijo e um eléctrico. Ficámos encharcados até aos ossos e ele afastou-me o cabelo que me pingava para a cara. Pois, se calhar não foi running que fizemos. Foi raining.
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