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João Godunha

por Cristina Nobre Soares, em 14.03.16

vilafaia1982.jpg

 

Das primeiras memórias que tenho do Nicolau Breyner é da Vila Faia. Os meus pais deixavam-me ficar a pé para a poder ver. O Nicolau Breyner era o João Godunha, uma espécie de anti-heroi, mentor do menino rico errático. Bruto mas bom homem. Redime-se nos braços da perdida Mariete, que fez chorar o país inteiro ao casar (com o João Godunha) e morrer de leucemia numa cama de hospital. Hoje foi o João Godunha (que para mim o Nicolau Breyner será sempre ele) quem deixou o país triste.

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Orgulho e preconceito na feira de velharias

por Cristina Nobre Soares, em 13.03.16

Na feira de velharias vejo um exemplar antigo do Orgulho e Preconceito. Tem a capa esfolada e mal se consegue ler a palavra preconceito. Não faz mal, mesmo só com uma sílaba eu presumo as outras que não estão lá. Dois euros, diz-me o homem enquanto ajeita o canto enfolado da manta. Digo que só estou a ver, que já lá o tenho em casa. Mas este parece-me absurdamente real. O preconceito é assim, mesmo com as sílabas cortadas pela metade, preenchemos o resto sem pensar muito. E é coisa que se compra sempre em segunda mão. Baratinho. De preferência a alguém que nos faça um resumo rápido do que lá vem dentro. Pouso o livro. Não dava mais do que um euro por ele. Não vale a pena o regateio.

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O meu pai gostava de dobrada com grão

por Cristina Nobre Soares, em 11.03.16

Sabe quais os gostos do seu pai? Pergunta-me a sms a anunciar uma promoção qualquer para o dia do pai. Sorrio. O meu pai gostava de música, de ouvir ópera no seu sofá no canto da sala.  O meu pai torcia o nariz quando eu ouvia Zeca Afonso ou Sérgio Godinho, só me faltava que desses em comuna. O meu pai gostava de dobrada com grão e de bife com batatas fritas. De batatas fritas com tudo. O meu pai não gostava de mariquices com alface. O meu pai tinha opinião sobre tudo e gostava de discutir, de debater. Mas não gostava de perder discussões. Nem de discutir comigo, és teimosa rapariga, dizia-me ele. O meu pai não tinha jeito para crianças, mas quando se entusiasmava parecia um miúdo. O meu pai tinha mau feitio, não levava nada para casa, dava murros na mesa para mudar o que achava que tinha de ser mudado. O meu pai às vezes era machista e eu zangava-me. O meu pai era do contra. E eu também. Às vezes o meu pai acontece-me nos gestos.  E em tantas outras coisas que eu não lhe disse.

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A cozinha da minha infância tinha a minha mãe o ano todo

por Cristina Nobre Soares, em 08.03.16

A cozinha da minha infância tinha oito metros quadrados, uma porta para a varanda e a mesa onde aprendi a ler e a escrever. A cozinha da minha infância tinha a minha mãe o ano todo e um alguidar de ervilhas para descascar na primavera. Se encontrares uma com treze ervilhinhas podes pedir um desejo. As ervilhas a caírem no alguidar, as unhas a ficarem verdes no sabugo, o que é gostavas de ter sido, mãe? E ela dizer-me que se a tivessem deixado estudar tinha tirado um curso de história, a luz da tarde a entrar pelo cortinado. E não tiraste porquê? A minha mãe a encolher os ombros, olha porque não me deixaram. Ela a olhar para a vagem que eu tinha na mão, quantas é que essa tem? Dez, eu a dizer, e a minha mãe a dar-me a dela, toma, fica com esta, tem treze e tu tens a vida toda à tua frente.

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Sobre isto de se ser mulher

por Cristina Nobre Soares, em 08.03.16

(Escrevi isto num 15 de Outubro. Paciência. As datas valem o valor que lhes quisermos dar. A de hoje vale pelo caminho que outras fizeram. Pelo tanto caminho ainda que há a fazer.)

 


Perguntam-me se sempre gostei de ser mulher. Respondo que não. Que nem sempre gostei de o ser. E antecipando o porquê, conto um episódio. Era o dia do casamento de uma prima minha. Eu teria uns doze anos, e a minha mãe tinha-me comprado uma roupa nova. Uma que assentasse bem no peito que crescia a olhos vistos, para meu embaraço. Mas que não te faça parecer uma mulher pequena, comentou a minha mãe. Eu não percebi muito bem o sentido da frase. Suspeitei que tivesse a ver com o meu novo corpo, que me sobrava, desajeitado. Não liguei. Afinal era dia de casamento, o que significava que eu iria brincar com os meus primos até às tantas e empanturrar-me com bolos até ficar enjoada. O costume, portanto. Mas algo mudou nesse dia. Estás uma mulher, disseram-me as minhas tias. Vai ter ali com elas, disseram-me. Elas, eram as outras raparigas, algumas mais velhas do que eu, a quem lhes tinha sido dada a responsabilidade de tomarem conta dos mais pequenos. Vai lá, disseram-me, que tens de te ir aprendendo como se faz. Olhei-lhes o mimetismo irrepreensível, com as crianças pela mão. Pareciam mulheres pequenas. Afinal aquilo que a minha mãe quis esconder com a minha roupa, podia revelar-se de outras formas. Como uma sentença de comportamento. Do outro lado do pátio, os rapazes limitavam-se a passar o tempo. E eu disse, mas os rapazes também vão ser pais e não têm de aprender nada. Mas a vida é assim, responderam-me. E aquelas palavras tiraram-me o ar. Asfixiaram os meus doze anos apenas num corpo. És mulher, limita-te a ser um corpo. Um corpo que criará os filhos que parir. Um corpo que cuidará dos outros. Dos vivos e dos mortos. Um corpo que se limitará a emprestar à existência dos outros. Que te dirão quantos filhos terás, se os poderás, ou não, abortar, como e onde os parirás, como e onde os amamentarás. Serás um corpo sobre o qual toda a gente terá opinião, regras, preconceitos e outros medos. Não, a vida não é assim, não tem de ser assim. E o meu útero não pode ser a minha sentença.

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Os nomes doem

por Cristina Nobre Soares, em 07.03.16

Contou-me a história sem nunca ter dito o nome dela. Nem datas. Como se o tempo fosse apenas uma hora anónima. Os nomes são feitos de carne e osso. E a memória cheira-lhes o medo do outro lado da rua. Os nomes, às vezes, doem.

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Dois reparos sobre texto do filme "As sufragistas"

por Cristina Nobre Soares, em 07.03.16

 

  1. “Olha que a quantidade de meninas que tem de deixar de estudar para trabalhar é ainda muito maior do que as outras”. Chegou-me por mensagem, de alguém que conhece bem essas realidades fora da nossa confortável bolha ocidental. A lembrar que ainda há muito para mudar. Muito caminho para fazer. Somos uma metade da espécie humana ainda a viver com uma fracção de existência.
  2. “Veremos a expressão da tua jovem quando ouvir outra mulher dizer que não foi votar porque estava um dia bom para a praia.” Remete-me para o comentário em cima. Nada é garantido. Que tudo se perde enquanto nos distraímos com o comodismo. O mesmo que nos faz esquecer que fora da bolha há meninas que trabalham 16 horas para coser as roupas das lojas com que nos vestimos. Que há mães com 11 anos (a idade da minha filha) que não sabem ler nem escrever, que não sabem o que é ir à escola. Que não sabem o que é escolher. Que nunca saberão o que é escolher.

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E Domingo é:

por Cristina Nobre Soares, em 06.03.16

Dia de texto na Preguiça Magazine.

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Fartou-se de chorar. Quando obrigam Maude a quebrar a greve de fome, enfiando-lhe leite com um funil. Quando o marido dá o filho para adopção, porque ele, tal como todos os homens na altura, tinha todos os direitos sobre os filhos. Quando Emily se mata para chamar a atenção do mundo para a causa das sufragistas. Cheguei a achar que o filme era forte demais para ela. Talvez tivesse exagerado. No fim, diz-me ainda a fungar: Sabes, mãe? Tenho muito, muito respeito por estas mulheres. Já viste? Se não fossem elas, não podíamos estudar e eu se calhar eu também já estava a trabalhar. Já imaginaste como seria se não fossem elas?Disse-lhe que sim. Não consegui dizer mais nada. Foi a minha vez de me emocionar.

(Vem aí o tão afamado dia da Mulher. Em vez de andarem a oferecer florzinhas e coisas cor de rosinha para celebrar o que não tem celebração, aluguem o filme. Ser mulher é ser metade da raça humana. “Apenas” isto)

 

 

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Correr deve ser uma coisa foleira

por Cristina Nobre Soares, em 04.03.16

Pergunta que me assiste: Desde quando é que as pessoas deixaram de correr e passaram fazer running? Ou correr é uma coisa foleira reservado a quem o faz para o autocarro? Engraçado, lembrei-me agora de um dos momento mais bonitos que vivi. Corremos. E metia chuva forte, inundações na 24 de Julho, um beijo e um eléctrico. Ficámos encharcados até aos ossos e ele afastou-me o cabelo que me pingava para a cara. Pois, se calhar não foi running que fizemos. Foi raining.

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