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Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Dos piropos

Cristina Nobre Soares, 29.12.15

Será que sou só eu que acho que coisas como “Ó grossa, comia-te toda”, ou “Lambia-te até aos olhos”, não são piropos? E será que sou só eu que acho que chamar a isto piropo é tão cretino, como achar que “uma mulher séria não tem ouvidos”? Tenham juízo, senhores. Chamar a isto, piropo, é sinal de uma coisa tão má quanto o machismo. Chama-se ignorância.

Coisas avulsas

Cristina Nobre Soares, 28.12.15

Em que penso? Que os temporais vistos da janela são bonitos. Que talvez por isso os quadrados dos vidros se notem mais nestes dias. Que o verde é a mais humana das cores. Mesmo quando não vê nos ramos despidos. E que o fim de ano é pior do que a chuva, para me pôr a pensar em coisas que não valem um caracol.

 
 
 
 

Este estabelecimento deseja-vos Feliz Natal

Cristina Nobre Soares, 20.12.15

Porque para mim o Natal será sempre isto. E um presépio com carpete verde a fazer de musgo e uma estrela de papel celofane amarelo. E a calda de açúcar dos sonhos da minha mãe. E ficar imóvel no chão da sala a desejar que a noite fosse maior. E contar isto à minha filha, como se fossemos ambas corpos de um mesmo tempo, que não este. Um tempo de uma história que um dia será uma memória. Feliz Natal.

 

 

Talvez seja eu que pense demais

Cristina Nobre Soares, 19.12.15

Nunca conseguirei perceber a urgência que assalta as pessoas nesta época. Urgência de comprar, de serem boas pessoas, de terem gestos grandiosos, de se lembrarem de quem se esquecem todos os dias. Lava os copos que eram da tua mãe, alinha o guardanapo com os talheres, isso, direitinho, olha que as lojas fecham à uma, não, é verdade, fecham mais tarde porque é Natal, traz-me meio quilo de nozes, mas vê se não estão bichadas e não te esqueças do bolo-rei que ninguém come. Urgência de repetir, de reviver, de desembrulhar, de cozinhar, de pôr na mesa, de dizer as mesmas coisas. Ou talvez os outros não sejam urgentes. Talvez seja eu que pense demais.

Rua do Arsenal

Cristina Nobre Soares, 17.12.15

Percorria-a na altura do Natal, pela mão da minha mãe. Corre. Corre, senão ainda perdemos o eléctrico, e as minhas pernas de oito anos a ficarem ainda mais pequenas, corre, que se apanharmos este, ainda chegamos antes do teu pai. As luzes de Natal por cima da minha cabeça a arrastarem-se na seis da tarde, que já era noite, eu a apertar o nariz por causa do cheiro a atum de barrica e a bacalhau, os passos rápidos da minha mãe, anda, vá, corre. O barulho dos saltos dela na calçada, corre, anda, os sacos amarfanhados na mão com os presentes, eu a desviar-me das pernas de um cego, vá corre, não olhes, que não há nada para ver. Nós a subirmos para o eléctrico, o guarda-freio a sorrir-me e eu, ainda com o coração a bater depressa, a desenhar um sino de Natal na humidade do vidro.

Vidro azul

Cristina Nobre Soares, 15.12.15

Embrulhávamos os enfeites que tinham vindo de lá em guardanapos de papel. Porque eram vidro, daquele vidro frágil de que são feitas as recordações. Quando, em Dezembro, os desembrulhávamos, às vezes encontrávamos apenas estilhaços. O meu pai encolhia os ombros resignado, e dizia, mais um. E os anos, contavam-se pelo número de cacos de vidro. Quando se partiu o último, que era azul, de um azul intenso, teriam passado quinze anos do retorno e o meu pai disse: Foi-se. As memórias, às vezes, também se vão assim.

(Dezembro, 2013)

 

Domingo à tarde

Cristina Nobre Soares, 13.12.15

E depois acontecem-nos aquelas tardes cor de chumbo e chovemos. Pensei em escrever sobre isto, mas, por vezes, o salitre das palavras é pior que o bafio do silêncio. E penso que faço melhor se beber um chá. Talvez assim, a chuva passe.

Estrela

Cristina Nobre Soares, 11.12.15

Olho-lhe as mãos, engelhadas, cheias de manchas, agarrando-se em esforço ao varão de metal. Na outra, o saco de plástico pesado, com as folhas de uma couve-galega a saírem, maceradas, por uma das asas. O autocarro arranca com um solavanco. Ela quase que se desequilibra. Uma mulher nova oferece-lhe o lugar. Ela olha-a com a mesma firmeza com que agarra o corrimão, agradece, e diz que não é preciso. Eu cá me aguento. Outro solavanco, uma das folhas parte-se, um homem faz um gesto como que a querer ampará-la. Ela ri-se, guarde isso para as raparigas novas, e endireita de novo as pernas inchadas. E antes do autocarro chegar à Estrela, penso que ainda bem que as  artroses e a vida,  não são capazes de nos retorcer a teimosia.

Formigos

Cristina Nobre Soares, 08.12.15

Diz-me que não tem pachorra para a invasão do Natal nórdico e anglo-saxónico. Que não sabemos preservar as nossas tradições, e que se não nos pomos a pau, qualquer dia somos engolidos pelo que vem de fora. Diz-me que na casa dos pais, onde toda a família se junta, na ceia de Natal não podem faltar as filhoses tendidas no joelho e os formigos da Conceição. A Conceição está connosco, na nossa família, já há mais de sessenta anos, explica-me. Foi trabalhar para casa da minha avó com catorze anos. O meu pai também começou a trabalhar com catorze anos, comento. Ela olha-me e não diz nada. E subitamente somos dois países. Talvez por isso voltemos à conversa das tradições, e eu falo do arroz doce da minha mãe. As tradições por vezes são a uma forma de recordarmos apenas aquilo que nos convém. Ali, à mesa daquele café da moda, ninguém quis lembrar o país pobre por detrás dos formigos da Conceição. O país que só calçava sapatos nos dias festa. Que dedicava uma vida a servir a família dos outros. Um país onde muitos pais, como o meu, lutaram para que fosse diferente para os filhos. Felizmente que foi.

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