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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
O homem entra e põe um saco de maçãs em cima do balcão. Dirige-se à rapariga que está a atender, aquela sua colega, a gorda, que me ajudou com o papel do telefone, está? Desculpe, não estou a ver quem é, diz a rapariga um pouco atrapalhada. Então, não está a ver? A gorda. Não é a outra que é loira, é a gorda. A rapariga vai dizendo que não com a cabeça, enquanto tira uma folha da impressora. O homem faz um gesto de impaciência. Tem a camisa desabotoada até meio do peito e cheira a suor seco, mas afinal quantas é que vocês são? Três, responde ela. Ele encolhe os ombros e aponta para o saco, então a maçãs chegam para as três. É para irem comendo. E diga à sua colega gorda, que eu vim cá agradecer a ajuda, que eu não tinha como pagar aquilo. A rapariga sorri, olha para o saco e pergunta, e o senhor como é que se chama? Já não foi a tempo. O homem já tinha saído.
Todos os anos a minha professora primária pedia-nos uma dúzia de castanhas. Que depois a D. Hermelinda, a contínua, juntava na panela, onde as cozia com erva-doce. Eu não comia as minhas por causa da erva doce e dava-as aos outros sem que a minha professora desse por isso. Depois do intervalo, ela contava-nos mais uma vez a história do S. Martinho, que tinha rasgado a capa dele com a espada para cobrir um mendigo que morria de frio. Agora façam um desenho, pedia-nos. Eu suspirava, com sofrimento. E ela, ao passar pela minha carteira, olhava para o meu desenho e ralhava, tens de pintar por dentro dos riscos para ficar bonito. E hoje penso que isto, do pintar por dentro dos riscos, dava um bom texto sobre a vida. Talvez não. Afinal, nem todos têm a minha falta de jeito. Para o desenho.
Estranho o cedo da horas no lusco-fusco, e penso que é sempre melhor reescrever o que tem de ser contado. Mãe, podemos fazer uma torta? A Canção de Embalar do Zeca, ao fundo, na sala, um ovo que se esmaga, não faz mal, e eu a repetir os gestos da minha mãe. A memória também é um exercício de mímica
Lembro-me que usava uma camisola amarela que me picava no corpo. O que é estranho, porque raramente me lembro do que levava vestido. Lembro-me de descermos a Rua do Alecrim, da esquadria do rio, dos passos na calçada, do silêncio incómodo. Então, e nós? Perguntei eu, com a impaciência e a camisola a picarem-me na pele. E tu riste-te, atrapalhado. E eu olhei o rio, o meu rio, ao fundo, e pensei que chegar a casa seria sempre alguma coisa parecida com aquele instante.
Caros leitores do Linha Recta, o título "Pessoas despidas" é uma metáfora. Mas obrigada pelo volume de visitas de hoje.
Fala-me de uma disciplina que teve, na qual aprendeu a distinguir a árvores de fruto quando estas estavam despidas de folhas. Só troncos nus. Nada mais. E eu, que aprendi a distinguir as outras árvores pelo formato da copa, nervuras da folhas e fruto, penso, que bom que seria se houvesse uma disciplina dessas para distinguir pessoas
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