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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Sempre fui uma rapariga de Outono. Não sei se por causa da luz. Se por causa das castanhas e dos marmelos. Se pelas três sílabas dos meses, dos erres no fim a arranharem-nos a boca, que se arrefece com o vento frio. Se por não ter paciência para a Primavera, tão cheia de rimas fáceis e jogos florais. Se pelos tapetes de folhas e outros restos de Verão, varridos ao canto das ruas. Sempre fui uma rapariga de Outono. Pena que chova tanto.
Começa com uma sensação de enfado, que não se explica. Depois revirar-se-ão os olhos a torto a direito, sempre que uma comum criatura lhe dirigir a palavra. Principalmente se for uma daquelas maçadoras, que ninguém conhece (clinicamente conhecidas por Zé-ninguém) e que insistem em ter ideias. Segue-se uma compulsão por tudo o que for chique e moderno (mas a valer). Atenção, que quando não tratado atempadamente poderá levar a toilletes embaraçosas e a uma pérola na gravata.
Lembro-me de uma vez que fui com o meu irmão e os amigos à feira popular. Teria uns doze anos, pouco mais velha do que a minha filha é agora. Sair com os amigos universitários do meu irmão, fazia-me sentir importante, mesmo que eles me tratassem como se eu fosse uma espécie de mascote. Lembro-me que moí o juízo ao meu irmão para me deixar conduzir o carrinho de choque. Não me deixou. Que me gozou mais uma vez, por causa do comprimento das minhas calças, um palmo acima dos sapatos, para se verem as meias estilo Madonna. Andas com as calças zangadas com os sapatos, disse mais uma vez. E que respondi que gostava de Wham e do I Should Have Known Better, quando me perguntaram que música é que eu ouvia. Gozaram comigo até ao limite, principalmente sendo eu a irmã caçula do guru do rock progressivo da Alameda Afonso Henriques. Passaram a noite a fazer imitações parvas da parte do ai, ai, ai. Hoje, esta música faz parte das coisas sem explicação de eu que gostei, nas quais também se incluem umas calças verdes fluorescentes. Mas não deixa de ter sido o meu primeiro slow. E se o rapaz era giro.
E depois há dias em que chovemos lá fora. Ou talvez sejamos nós que chovamos aos olhos dos outros. E penso que há coisas que parecem sempre mais poéticas quando conjugadas na terceira pessoa. Talvez a vida seja um verbo defectivo impessoal.
Sento-me no banco para saborear a luz oblíqua de Outubro. Há outras pessoas sentadas, e pombos na calçada. Observo a arquitectura estado novo dos edifícios da praça e as suas linhas austeras, quase recatadas, mas de certa forma harmoniosas. Onde o todo é mais importante que o individuo. Onde tudo, das janelas, ao rosa quase vermelho sem nunca o ser, cumpre uma ordem, um propósito. Onde tudo é uma peça duma memória colectiva. Não importa que esta não seja verdadeira. Mas que seja fácil, que dissimule as diferenças. Se nos lembrarmos todos da mesma coisa é porque somos iguais. Sem ambições, pensamento crítico ou outras perversidades. Ao fundo, um outro edifício que destoa dos restantes. Maior. Pesado. Velho. De estores metálicos retorcidos. Igualmente parado no tempo. Pintado num verde autista, que ignora a realidade. Que edifício é aquele? Pergunto. É o da segurança social. E eu penso, que no fundo não somos um país. Somos apenas uma praça. Entalada entre uma memória feita de encomenda, e o autismo de um estado indiferente à nossa não pertença. E nós insistimos em fingir que os próprios bancos, onde nos sentamos a apanhar sol, não são uma triste metáfora da nossa resignação.
Em 2007 comecei o meu primeiro blogue. Chamava-se “ O que é feito de si Mrs. Pankurst?” .
Espero não voltar a fazer esta pergunta amanhã.
Sempre achei o dia de reflexão uma estupidez. Que a única coisa que reflecte é a hipocrisia e a falta de noção de realidade do nosso sistema político. Podíamos, sim, reflectir sobre isto.
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