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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Brinquei com ela no parque, costumava dizer-me a minha mãe. Veio com os outros refugiados e estava hospedada no Hotel Central. Um dia foi-se embora. Tornou-se actriz de cinema. Depois, olhava para mim com uma certa vaidade, a rir-se Vês? A tua mãe brincava com uma estrela de cinema. E eu sorria, enquanto punha mais nesquick no leite, com a sensação que a infância da minha mãe tinha sido, sem dúvida, mais emocionante que a minha.
Depois de a ter fechado temporariamente por causa dos comentários fofinhos que choveram no meu email, a propósito do texto dos refuguiados. Senhores, têm todo o direito de não gostar, de serem xenófobos e preconceituosos. De estarem cheios de medo, porque realmente esta crise nos vai afectar a todos. Agora, não vale a pena é insultarem-me, serem mal educados e sempre no conforto cobardezinho do anonimato. Dá uma trabalheira ter de gerir comentários assim. É uma maçada. Pode ser? A gerência agradece.
Siglas. Irritam-me. Mas assim em bom. São uma espécie de, eu sei o que significa e tu, pobre criatura ignorante e fora do circuito, não. Que esta coisa dos clubes fechados não é só para o golfe e sociedades de geografia (se bem que nestas também se bebia gin). Mas pronto, é provável que seja só preguiça e falta de imaginação. A moda do gin, também.
E já começaram a ser desfiados os Estranhos acontecimentos do ano de mil novecentos e quarenta e nove.
Às vezes apareciam no telejornal imagens de crianças africanas subnutridas. Miúdos de barrigas dilatadas, com moscas e sujidade na cara, ao colo de mães tristes, de mamas murchas, que lhes caiam, vazias, no corpo esquelético. A minha mãe, voltava a cara, ai mudem-me isso, que não consigo ver tanta desgraça. Um de nós levantava-se e mudava para o segundo canal e fingíamos que mundo era um sitio com as mesmas assoalhadas de conforto e conveniência que a nossa casa. E éramos todos boas pessoas. Criaturas incapazes de lidar com um mundo esfacelado que no entrava pela sala dentro e se sentava sem pedir licença nos sofás com panos de crochet nos braços. Porque no momento em que a vida nos entra assim pelas consciência adentro , sabemos podemos ser nós. E baixamos os olhos, com o instinto de sobrevivência a dizer-nos baixinho, ainda bem que não somos. Nas últimas semanas temos acompanhado, confortavelmente impotentes, o drama dos refugiados. Pais que passam os filhos por cima de arame farpado, crianças sozinhas a caminharem na linha de comboio, pessoas que se atropelam desesperadas por um lugar numa carruagem, o corpo de uma criança de três anos numa praia. Um corpo vestido como vestiríamos o nosso filho para ir para o infantário, e novamente sabemos que podíamos ser nós. Nós. Num outro mundo, onde apenas se luta por vida e não pela vidinha melhor dos dias. Num mundo onde o desconhecido, apesar de tudo, tresanda menos a morte que aquilo que conhecem e por isso se torna na única opção. Já não podemos mudar o canal. Já não nos podemos mentir, nem olhar para o lado, porque a partir do momento em que sabemos, passamos a levar a esperança dos outros nas mãos. E resta-nos fazer o que é certo.
O Mario Pires, tem em média 1873 ideias por dia. Quase todas elas formidáveis. E as que não me parecem assim tanto, geralmente é porque estou distraída ou não ouvi bem. Os Assombrados foram uma dessas ideias fabulosas. Perguntou-me ele um dia: Já pensaste que todas as terras tem as suas histórias fantasmagóricas, aquelas que se contam à lareira, ou ao balcão da tasca, sempre meio inventadas? Agora imagina que cada terra, para além do roteiro histórico do costume, também tinha um roteiro ficcionado. Só com os fantasmas da terra, com aquelas histórias mais ou menos assombradas que toda a gente inventa. Imagina, eu fotografo recantos perfeitamente improváveis e desconhecidos, tu escreves-lhes as histórias e o Bruno Maltez ilustra-as. E eu disse, bora lá. Enfim, o costume. E o Bruno também, mesmo sem perceber muito bem qual era a ideia. O que não fez diferença nenhuma, porque as horas que eu e ele passámos no Cowork Lisboa a brincar um bocadinho a Deus, a matar pessoas em barda, só por si, um dia ainda darão uma bela história.
E aqui estão os primeiros assombrados, com a vila de Óbidos como pano de fundo (vá se lá saber porquê), oito personagens assombradas, centenas de horas de trabalho e alucinação conjunta. Começamos com o blogue, onde o excelso leitor poderá ir acompanhando as nossas personagens assombradas, o making of, e outras coisas que provavelmente não interessarão um caracol, mas temos pena, que a nós nos deu imenso gozo. Mais lá para a frente, diz que vai haver uma exposição e tudo, sobre isto. Diz que sim. Mas isto são coisas que o povo conta. Nunca ninguém teve bem a certeza.
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