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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Finalmente sopra uma brisa no calor viscoso da noite. Há um gemido que rasga a praceta excessivamente pequena. Parece-me o ganido de um cão, mas talvez se o seguir com os olhos seja o choro de alguém. Por isso chego-me à janela. Do outro lado da rua há um homem que fuma à varanda. Fala com alguém que estará na sala, apenas iluminada pela televisão. Um estendal que chia, o cheiro de roupa acabada de lavar, um rapaz que espera, talvez, encostado a um candeeiro da rua, uma baforada de fumo, a luz minúscula do cigarro, o homem debruça-se sobre a varanda. Tento perceber-lhe o rosto, mas só me consigo lembrar, não sei porquê, da mulher que vende pastéis de bacalhau no fim do passadiço da praia. Trá-los dentro de um cesto tapado por um pano da louça, que só levanta quando as pessoas se aproximam, acabados de fazer, ainda estão quentinhos, diz num fio de voz. Veste um luto aliviado pelas pintinhas brancas da blusa e carregado pelas duas alianças na mão esquerda, ainda estão quentinhos. O homem que fuma responde a qualquer coisa que vem da sala, já vou, talvez seja isso que diz, deita o cigarro fora, num gesto com raiva, já vou, a mulher do passadiço limpa o suor com as costas da mãos, ainda estão quentinhos, o rapaz continua encostado ao candeeiro, a porta de correr fecha-se com brusquidão, a luz da televisão apaga-se e o gemido volta a rasgar a praceta. Mas agora, com os olhos saciados de histórias, tenho a certeza que é o ganido de um cão. Ninguém chora assim.
Ouvi-lo remete-me sempre para memórias que nunca tive, de uma época que não vivi, mas que através das vozes mais velhas dos outros, as trago comigo. Lembra-me que terei muitas histórias para escrever sobre esse tempo. Recorda-me também as longas e acesas discussões politicas com o meu pai, ele bater com a mão bem aberta no braço do sofá, lá vens tu com o psico-social e eu dizer-lhe que não, só porque sim. Há momentos em que tenho a sensação que precisamos desesperadamente de ser assombrados pela nossa própria memória.
Faria hoje 86 anos. E o meu pai teria apenas mais um.
Reparo que ela está perder os traços de criança. Não sei bem de que forma, mas o rosto alterou-se um pouco, o olhar também. Pergunta-me se lhe posso dar o lenço azul e verde quando já não o quiser e aproveita para me avisar que estou despenteada. Passo os dedos pelo cabelo e ela ri-se, ficou na mesma, mãe. O microondas apita, tiro-lhe a caneca do leite, digo-lhe que depois não se esqueça de lavar os dentes, achas que eu vou fazer estas mesmas coisas aos meus filhos? Pergunta-me. Eu digo-lhe que sim, que somos todos muito iguais nos hábitos que temos. A avó fazia-te as mesmas coisas? Fecho a porta do microondas. A avó aquecia-me o leite no fervedor. Ela pega na caneca com as duas mãos. Pois, eu esqueço-me que tu és de outro tempo. Olho-a. O tempo é sem dúvida uma criatura que se gosta de fazer notada.
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