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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Os jacarandás e as mimosas em flor. A claridade do rio nos azulejos dos prédios. A ponte ao fundo, e eu pequena a pedir ao meu pai, vai pela grelha, só para ver pedacinhos do rio por debaixo de nós. O cheiro a sabão da roupa que se agita num estendal do rés-do-chão. Passo à porta da embaixada de Angola e lembro-me que ainda não li o livro do Rafael Marques.
Diz que hoje é dia da criança. E lembrei-me dos meus dias de ser criança, nos idos de oitenta. Os pais, os meus e os dos outros, tinham lá a vida deles, às vezes tinham tempo para uma história, uma brincadeira ou outra, mas uma maneira geral estávamos por nossa conta. Lembro-me de chegar a casa, ter a responsabilidade de fazer os trabalhos de casa e depois dizer à minha mãe, vou brincar para a praceta, que às vezes era a minha, outras vezes era a da Patrícia, da Ana Sofia, da Filipa. Todos éramos donos das nossas ruas e das pracetas. E a minha mãe dizia, quero-te cá às seis. E eu sabia que às seis tinha de voltar inteira. Lembro-me que tinha de participar nas reuniões dos adultos, porta-te bem, com boas maneiras. Eram uma estopada, um sofrimento atroz. Mas engraçado, aprendi a ouvir coisas sobre a vida, sobre o mundo. Aprendi a adivinhar-lhes o que não diziam, pelo tom, pelos gestos. Às vezes metiam-se comigo, mas nunca fui o centro das atenções. Nem tinha de ser. Era apenas uma criança. Passei muitas horas sozinha, aprendi a aborrecer-me, a estar comigo, a abstrair-me, a pensar em coisas absurdas e inúteis, que são essas que até nos vão definindo como pessoa. As outras crianças não eram diferentes de mim. Não passávamos os dias em actividades, os fins de semana a ir ao cinema, a festas de anos, parques temáticos, comprar coisas, à praia, à piscina, a workshops disto e daquilo. Não era suposto seremos infalíveis, não tínhamos de ser os melhores alunos, músicos promissores, bailarinos exímios, falar duas línguas estrangeiras desde os quatro anos. Tínhamos de ser crianças e voltar ilesos dessa aventura. E voltámos. Digo eu. Se bem que às vezes pergunto o que nos aconteceu, às crianças das nossas pracetas, que se tornaram adultos com medo de tudo e que criam os filhos numa redoma, num espaço asséptico onde somos todos perfeitos, onde as crianças não sofrem desilusões, não se angustiam, não se esforçam, não se cansam, não se aborrecem. Onde vão ser os melhores, os mais bem preparados para o mundo difícil que os espera. Pois sim, que nós, pais, que também temos de ser perfeitos, sem falhas, verdadeiros exemplos vivos de manuais de pedagogia, damos-lhes tudo, o melhor. Menos uma coisa. Uma coisa chata que às vezes não corre como esperamos, que nos enche os joelhos e a alma de arranhões. Uma coisa maçadora que nos obriga a saber parar para pensar. Uma coisa chamada vida.
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