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Sou contra o acordo ortográfico. Aliás, este estabelecimento a partir de hoje tem um erro de ortografia no nome. Paciência, que me recuso a tirar o c de recta. Mas há uma coisa que me intriga, perante as vozes escandalizadas que bramam desde ontem nas redes sociais. O que é que cada um de nós fez objectivamente contra isto? Eu, na minha teimosia, que tanto me caracteriza, mas que muitos associam já como sintoma de velhice, limitei-me a fazer tábua rasa e continuei a escrever como escrevia antes. Acho que assinei uma petição. Sim, pouco mais. É triste, realmente. Mas digam-me, senhores, fez-se alguma coisa sobre isto? É como o fecho dos cinemas, das casas de espectáculos e livrarias: para que não fechem e não se transformem num franchising de uma coisa qualquer, convém que sejamos clientes, relativamente assíduos. Digo eu. Não basta lamentar depois. Fazer por aquilo em que acreditamos é assim uma espécie de obrigação nossa. E já agora façam atenção nas eleições que aí vêm. E na falta de alternativas do panorama político. Vá lá que a palavra democracia não mudou com o acordo. Menos mal

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O nosso silêncio é proporcional à culpa dos outros

por Cristina Nobre Soares, em 12.05.15

Mas se tu não conseguires defender a tua ideia, aquilo em que acreditas, ninguém o fará por ti*. Disseram-me isto há pouco mais de um ano, a propósito da minha eterna ansiedade por ter de falar em público. Lembro-me deste momento com aquela clareza com que guardamos tudo aquilo que sabemos que nos será decisivo. A honestidade, a verdade com que trilhamos o nosso caminho, muitas vezes tem de ser feita em voz alta. Por mais que nos custe, que o preço disto por vezes é alto demais. Mas a lealdade para com a nossa consciência, não poderá nunca ser refém dos nossos medos. Emudecermos será sempre uma forma de sermos menos. E convenhamos, que sempre que o fizermos, o nosso silêncio será proporcional à culpa dos outros.

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Estás tão parecida com a tua mãe

por Cristina Nobre Soares, em 11.05.15

Quando me dizem, estás tão parecida com a tua mãe, eu respondo invariavelmente que não, que a minha mãe era e ainda é muito mais bonita. Não digo isto por simpatia ou por me ficar bem. Digo-o por ser verdade. A minha mãe sempre foi uma mulher muito bonita. Basta ver as fotografias dela com a mesma idade que tenho hoje, quarenta e um,quando eu nasci. Não há comparação possível. E a minha mãe não teve uma vida fácil. Uma vida provavelmente semelhante a quase todas as mulheres da geração dela, de contínua conformação. Passou maus bocados, muitas vezes tive de me esquecer de mim por vossa causa, dizia-me. Não duvido. Mas ficava sempre bem nas fotografias, sempre muito bem penteada e arranjada. Como ainda hoje, aos oitenta e dois anos. Sempre que a vou buscar para irmos beber um café dou com ela,impecável, a cheirar ao seu perfume de sempre, com o seu cabelo preto, que agora é alourado, os seus sapatos de biqueira escura, os seus brincos de pérola. E eu , invariavelmente despenteada, muitas vezes de ténis e calças de ganga, rio-me e digo-lhe sempre, parece que vais para o baile da embaixada. Ela resmunga. Diz-me que eu tenho de tratar mais de mim. Não faças como eu, lembra-me. Eu digo-lhe, que não, que descanse, que não o farei. Ela suspira e às vezes pede-me, um dia tens de contar a minha história, parece a da gata borralheira. Eu digo-lhe sim. Talvez um dia o faça. Talvez seja essa a forma de nos vermos as duas no mesmo espelho.

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Bagas de goji, pomadas e outros proselitismos

por Cristina Nobre Soares, em 10.05.15

Poucas coisas me irritam mais nesta vida que o proselitismo. Eu, que cultivo fervorosamente a questão da relatividade na vida alheia, perco facilmente a paciência com qualquer tipo de tentativa de evangelização, seja ela religiosa, politica ou artística, seja sobre a forma de educar criancinhas ou como viver até aos duzentos anos a comer bagas de goji. Seja sobre marcas de cerveja, computadores, pomadas para as dores lombares ou robots de cozinha. Prezo todo o tipo de opinião, gosto de aprender com a diferença dos outros. Fascina-me essa diferença, de como tudo pode ter sempre um lado certo, de como tudo depende do caminho feito até ali. Os porquês dos outros têm o condão de me fazerem questionar sobre as minhas próprias opções. E mesmo que chegue à conclusão que essas ditas opções não me servem, já terei aprendido alguma coisa. E a vidinha torna-se num sítio formidável quando isto acontece. Percebo que algumas das escolhas que fazemos, principalmente quando saem das cercas traçadas pelo comodismo, nos dêem uma sensação terrível de solidão e que a tentação de chamarmos os outros para a nossa causa é grande. Mas caríssimos, se a nossa causa for realmente uma porta para um admirável mundo novo qualquer, as pessoas, por mais dormentes que andem, acabarão por abri-la. Basta dar-lhes tempo, que é também uma coisa muito relativa. Mas muito menos realtiva do que o respeito pelas opções alheias.

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A vida acontece em meia dúzia de palavras.

por Cristina Nobre Soares, em 09.05.15

Não vale a pena contar histórias com palavras a mais. A vida acontece em meia dúzia de palavras, geralmente sem vaidades linguísticas.  As pessoas essas, que se levam tão a sério, tão cheias de artifícios e redundâncias, tropeçam, desajeitadas, nesses detalhes quase invisiveis. A limpidez, a crueza dos verbos, fraqueja-lhes as pernas.  Não vale a pena contar histórias com palavras a mais.  O resto será sempre lastro de má qualidade, a pesar-nos no que realmente somos.  

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Fracções de coisa alguma

por Cristina Nobre Soares, em 08.05.15

E subitamente alguém de quem gosto muito diz-me, estou a ler o teu livro. Sorrio, por não saber o que dizer. Esta coisa de nos publicarmos em fracções de coisa alguma será sempre um exercício de nudez, difícil de explicar.

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Quinta-feira

por Cristina Nobre Soares, em 07.05.15

Mãe, não te esqueças de me comprar um pijama, digo que sim e ao vê-la sair reparo que ela não se penteou outra vez. O homem à minha frente na fila do banco tem as sobrancelhas de cor diferente do cabelo e enquanto uma velha de pernas inchadas se lamenta, eu penso que dificilmente o homem algum dia terá sido alourado. Abro a caixa dos mails, o telefone toca mais uma vez, eu já sentada a escrever este texto inútil, suspiro e penso que definitivamente seremos sempre criaturas que só acontecem no silêncio

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Memória de uma prenda para o dia da mãe (com papoilas)

por Cristina Nobre Soares, em 03.05.15

A prenda para o dia da mãe era um dossier para guardar receitas. Forrado a tecido, com letras de feltro e debruado com aquela fita ondulada, a que chamam grega. Havia, espalhados pelas carteiras, dossiers lindos, com o pano esticado e as letras primorosamente recortadas. O meu, não. Tinha dedadas de cola, a fita um pouco retorcida, as letras de tamanhos diferentes. Fui ter com a minha professora quase a chorar. Ela ainda franziu a testa, ai Cristina, Cristina és sempre a mesma coisa. Mas depois riu-se, a abanar a cabeça, deixa-o aqui que eu vou ver o que lhe consigo fazer. Apontou para o meu lugar e disse, pega na sebenta e escreve uma história, daquelas tuas, mas com letra bonita. A tua mãe vai gostar mais, de certeza. Acho que escrevi qualquer coisa sobre as papoilas. Esqueci-me que tinha de ser sobre o dia da mãe.

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Hoje também ando por aqui.

por Cristina Nobre Soares, em 03.05.15

A falar de Educação de, e para a arte

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Dos Sábados que parecem Domingos

por Cristina Nobre Soares, em 02.05.15

Gosto de dias de silêncio. Dias limpos da ortografia das rotinas.  Dias durante os quais existimos sem termos de ser absolutamente nada. Penso, talvez esta pretensão de texto ficasse melhor com mais uma frase ou duas. Não vale a pena. Há dias em que nos basta o rascunho das horas.

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