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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Sabemos sempre. Antes do pestanejar, daquele brevíssimo instante antes de todas as hesitações, de todas as certezas que não as nossas. Sabemos sempre, mas à luz rasgada da claridade, cerramos os olhos e diluímo-nos na sombra das impressões do medo.
O livro na mesa de cabeceira. A tisana morna que nunca bebo. Alguém que chega ao fundo da rua, a janela, a minha, sempre aberta. Um sino tão desfasado das horas quanto o próprio tempo. E sei, na urgência das palavras que me escorrem por dentro, que serei sempre todas as noites que antecedem a luz trémula das manhãs.
Foi a única árvore que alguma vez plantei. No quintal da frente de uma casa onde vivi. Era uma arvorezinha raquítica, com meia dúzia de folhas, sem piadinha nenhuma. Perdi a conta às vezes que tive de explicar o porquê da teimosia em plantar aquilo. Contava sempre a mesma história: que depois da bomba de Hiroshima, a Gingko biloba foi primeira espécie a florescer, tornando-se assim um símbolo de resiliência, de esperança. Daí o meu fascínio por esta espécie, também pela forma tão diferente das folhas, o amarelo comovente com se revestem na senescência, por ser um fóssil vivo que nos recorda o quanto a nossa humanidade é impermanente na história do planeta. Era isto que eu dizia quando as pessoas me perguntavam o que era aquilo no meio do meu quintal. Riam-se. Pois sim. Uma árvore demora décadas a crescer. A vida também.
O filme foi tão bonito, mãe, disse-me à saída do cinema. Pois foi, concordei. Fez um segundo de silêncio e perguntou-me, mas tu não acreditas em contos de fadas, pois não? Disse-lhe que não. Mas os contos de fadas ensinam-nos uma das coisas mais importantes do mundo: a ter esperança. A acreditar que algo tremendamente fantástico está para acontecer. Fez outro segundo de silêncio e comentou, o centro comercial a esta hora tem um ar assustador.
Por alguma razão que nunca percebi, os velhos gostam de conversar comigo. As crianças não me ligam nenhuma, acho que pressentem a minha falta de jeito natural para com elas. Mas os velhos não. Sentam-se ao pé de mim, falam do tempo, queixam-se das dores nos ossos retorcidos e fracos, da tosse e dos diabetes, da falta de sal na comida por causa da tensão arterial, das filas nos supermercados, da televisão, onde pelos vistos não passa nada de jeito desde as emissões experimentais na feira popular. Eu sorrio-lhes e dou-lhes uma fracção ínfima do meu tempo, enquanto o deles se coa demasiado depressa por entre as artroses dos dedos das mãos. Eu, que não sei o que é ter avós, que nasci tarde demais para o saber, faço de conta que sei o que é ser neta com pessoas que não conheço de lado nenhum. Torno-me numa neta postiça. Acho que eles percebem. E ficamos ali a fingir que não somos criaturas incompletas.
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