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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Não sou muito dada a efemérides. Muito menos às mais ou menos marteladas, como a de hoje. Tenho uma espécie de vertente fofinha que acha que a memória devia ser celebrada para além das datas de um calendário. Mas isso sou eu, que sou do contra. Uma pessoa maçadora, que tem umas ideias disparatadas sobre não irmos atrás do rebanho e tal. Sim, é uma vida cansativa, esta que levo. E o pior é que arrasto os que vivem comigo, como é o caso da minha filha, que me chegou a casa um dia destes, ó mãe temos todos de ir vestidos de cupido para o desfile de Carnaval. Apesar de também não ser muito dada a coisas carnavalescas (eu disse que era maçadora), lá pensámos, as duas, num fato de cupido, original, e dali saiu um cupido-roqueiro, cheio de tules neons, madeixas e luvas sem dedos. Ontem, de manhã, a miúda não cabia nela de entusiasmo. Mas, voltou a chorar da escola. Triste, mesmo triste. Porque, os outros miúdos da turma, todos eles vestidos de branco e vermelho, entre os quais, decerto que o néon da roupa dela se destacaria, gozaram com ela e a chamaram pirosa. Lá conversámos sobre as vantagens de se ter a coragem de fazer diferente, de sair das margens da folha de linhas, de se ter um cunho. Enfim, de como a originalidade é uma espécie de segunda impressão digital. Mas é difícil, perceber isto, quando se tem dez anos. Porque só queremos que gostem de nós. Como somos. Como realmente somos e não como o mundo, que a maior parte das vezes nem pensa para onde vai, acha que temos de ser. Hoje, já com melhor cara, ela vestiu a mesma roupa, mas desta vez não levo as asas, disse-me. Ri-me. Assim, pareces a Cyndi Lauper.
Eram quase quarenta. Entre os quinze os dezassete anos. Disse-lhes que não era professora de português, que não os ia ensinar a escrever, que ia apenas relembrar-lhes como se faz aquilo que toda gente nasce a saber fazer: contar histórias. Não é bem assim, disseram-me, é preciso ter jeito, um dom. Ri-me, não, não é preciso nada disso, só precisam de gostar de coleccionar, pessoas, momentos, detalhes, que é isto que faz uma boa história. Falámos de Linda Martini, de The Cure ( sim, ainda há miúdos que gostam disto), de U2 e de como um poema não precisa de ser uma coisa chata, cheia de métrica e rimas. Pedi para olharem para um Pollock e para se verem nele, mas isso são só riscos, disse-me um, pois são, respondi-lhe, e é mais ou menos isto que somos por dentro. E os avessos deles vieram ao de cima, e sentados em cima das mesas escrevemos, todos, em voz alta. Perguntaram-me se eu hoje ia escrever alguma história. Disse-lhes que sim. E como é que vai começar? Sorri e respondi-lhes: Hoje o dia valeu a pena.
Há dias que sabem a café solúvel, daquele, com mistura de chicória, que diz que faz menos mal à saúde. Duas colheres bem cheias e já está.
É sempre mais fácil ter medo. Ele, o medo, promete-nos uma sensação de incolumidade em troca da ausência da nossa própria vida. É sempre mais fácil não mudar, não apontar, não erguer a cabeça, anuir, baixar os braços, deixa estar, que no fim nada muda e quem fica mal és tu. Deixa estar, que ninguém vai querem saber. Deixa estar, que afinal não é assim tão importante. E a única coisa que vai ganhando importância é a nossa dormência, que lentamente nos incapacita na nossa humanidade. É sempre mais fácil ter medo, olhar entre portas, fechar cortinas, falar baixo, cada vez mais baixo, até que as palavras se tornem supérfluas. Até que nos tornemos supérfluos.
A luz oblíqua, os passos dos outros, as sombras da manhã, o homem à porta, a ponte, um café em chávena escaldada, o frio no rosto, o jornal aberto, os meus olhos na janela, não tem mais pequeno, não, só uma nota de vinte, a mulher atravessa a rua, o Tejo por detrás das casas, a mala e as horas que me resvalam dos ombros, um toldo que se abre, o eléctrico nos carris, vou ter de lhe dar o troco em moedas de vinte, não faz mal, que o tempo corre apenas lá fora.
E agora elas viviam felizes para sempre, disse-me, enquanto acabava de vestir a boneca dela. Eu olhei-a. Mas podem não ser, retorqui-lhe. Ela afastou o cabelo louro, liso, que eu tanto invejava e franziu o sobrolho. Isso é impossível. As pessoas no fim, acabam sempre a serem felizes. Eu encolhi os ombros. E se morrerem antes? Antes de quê? Do para sempre. Ela revirou os olhos e atirou a boneca para cima da cama, brincar com bonecas é uma chatice.
(Chegas de Xangai daqui a uma semana. E trinta anos depois, ainda não sabemos quem tem razão)
Porque os livros são uma espécie de anarcas da física. Vivem alheios às intersecções entre o espaço e o tempo. Acontecem-nos. E nós existimos-los.
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