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Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E é (também) por isto que gosto de ter livros.

Cristina Nobre Soares, 26.02.15

Antes dela sair, disse-lhe: Espera, tenho uns livros para ti. Não lhe falei da velha com o burro carregado com gravetos, e por causa da qual parei o carro para  pedir uma fotografia.  Do azul, tão azul de tudo.  Do morno dos dias nas urzes secas. Tinha menos um ano que ela, quando esses  livros me aconteceram. E o tempo também me parecia eterno.

Um dia normal.

Cristina Nobre Soares, 25.02.15

Quinhentas e vinte palavras. Não gosto delas, amanhã escreverei melhor. Três cafés e dois descafeinados, todos acompanhados com copo de água, alguém que parte em viagem, uma mulher com collants amarelos e um cão minúsculo com uma capinha de xadrez, já tenho saudades de quem parte, o livro da Ana de Amsterdam por começar, ainda em cima da mesinha da sala, raios, que as viagens dos outros deixam-me sempre melancólica, reparo que não tirei os bifes para descongelar e penso que já bebi cafés suficientes.

As pessoas desmentem-se nos gestos

Cristina Nobre Soares, 24.02.15

As pessoas desmentem-se nos gestos, naqueles que lhes acontecem quando se distraem. Penso, enquanto os meus olhos estranham o tom agreste dele e o silêncio encharcado de medo, dela.  Eles notam-me,  disfarçam, voltam a uma normalidade que só existe do lado de fora e eu finjo que não sou cúmplice de uma história triste.

23 de Fevereiro de 1983 ( Não, não é sobre os Óscares)

Cristina Nobre Soares, 23.02.15

A  minha mãe fez-me um vestido de tricot, com perneiras a condizer.  Azul, que eu queria sempre tudo em azul. Entrei na cozinha, onde ela  preparava o lanche para a festa e lamentei  estar a chover, assim não podemos ir brincar para rua, não gosto de fazer anos no Inverno. Deixa lá, disse a minha mãe,  na tua terra agora é Verão. Eu olhei pela janela  e mais uma vez tentei imaginar esse sítio mágico, uma terra  que era  mais dos outros do que minha, onde as estações do ano eram diferentes. Porque é que não voltamos para lá? Não me respondei. Nunca me respondiam. E eu olhei  de nova pela janela  e pensei que a chuva mais miudinha era aquela que chovia dentro dos crescidos.

Tags

Cristina Nobre Soares, 21.02.15

Tens de pôr tags nos textos que publicas no blogue. Uma espécie de índice remissivo. Pois sim.  Acontece, que os textos deste estabelecimento pertencem todos à mesma categoria: Vidinha. 

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Cristina Nobre Soares, 20.02.15

Entrou comigo na paragem do Rato. Inclinou ansiosa, a cabeça e disse-me, eu queria sair em Alcântara.  Sim, eu aviso-a. É apenas uma paragem antes da minha. Não se sentou. Ficou, em pé, perto da saída. Sempre que o autocarro parava, interrogava-me com os olhos e eu pensei o quanto vivemos ansiosos por sair numa paragem qualquer.  Desci com ela em Alcântara. Não faz mal, ando mais um bocadinho a pé, disse-lhe.  Até porque não importa a demora, quando somos nós quem nos esperamos  ao fim da rua, pensei.

Do Photoshop

Cristina Nobre Soares, 19.02.15

Juro que me fazem confusão, as fotografias retocadas com Photoshop. Uma espécie de: deixa-me lá limpar os pés de galinha e com eles as horas de riso, choro, noites mal dormidas, excessos, défices, paixão, remorsos, sonhos em voz alta. Sabem, a essa coisa chata, que nos engelha por fora (e o fora é o que doi, eu sei, como doi), chama-se vida. Que é uma coisa que diz que acontece apenas uma vez.

Ainda vais a tempo.

Cristina Nobre Soares, 18.02.15

Ainda vais a tempo, dizem-me. Engraçado, como este correr a dois passos atrás de nós, nos faz acreditar que o tempo a que chamamos vida, será sempre mais. E nunca apenas isto.

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