Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Lembro-me de uma vez em que comecei uma aula de cartografia, perguntando aos meus alunos o que é que achavam que seria necessário para medir a circunferência da terra com um erro inferior a 300km. Mesmo  terrivelmente ensonados ( e enfadados também), lá foram enumerando equipamentos e software evoluidíssimos, dignos da NASA. Certo, disse-lhes eu, mas não é preciso tanto.  Basta uma vara e um escravo. E claro, o uso em condições, do cérebro. Riram-se. Lá está a professora, isso não é possível. É, disse-lhes. Melhor, foi. Há mais de dois mil anos. 

Lembrei-me disto hoje, quando me perguntaram porque raio eu achava isto do conhecimento tão importante.  Talvez porque não haverá maior magia do que aquela que se opera numa sinapse, que responde a um porquê, até então sem reposta. Porque o conhecimento só por si, é um valor.  Apenas mensurável pelo caminho imenso da nossa humanidade até aqui. E, neste momento, olhando as nuvens cinzentas, da janela, penso numa imagem poética onde brinque com um cheiro que a cor de chumbo não terá,  ao mesmo tempo que me lembro que aquelas não são mais do que uma massa de gotículas de água.  E que a molécula da água tem apenas três átomos: dois de hidrogénio e um de oxigénio. E o que é isso tem importante? Sorrio.  Aprender é apenas outro nome que dão à capacidade nos espantarmos com o mundo.

  

Carl Sagan - Eratóstenes ( Este senhor explica a história do escravo e da vara melhor do que eu)

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Recordações de Alcântara  (ao largo do Calvário)

por Cristina Nobre Soares, em 16.01.15

 

Éramos sempre para além de uma meia dúzia. Discutíamos politica embrionária  por entre uma dose de alheira com ovo estrelado.  Por cima da toalha de papel com nódoas de gordura e vinho ordinário, resolviam-se equações diferenciais. Começou a chover  e eu disse, não trouxe guarda-chuva. Então, ele disse-me, eu levo-te até à paragem. E eu , levantei os olhos e vi-o. Ele tinha estado sempre ali.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Das coisas piores que uma dor de dentes

por Cristina Nobre Soares, em 14.01.15

Somos pequenos. E mais do que pequenos, somos insignificantes. E devíamos dizer isto todos os dias ao acordar. Ou de oito em oito horas, como antibiótico contra o excesso de confiança ou outro tipo de soberba.  Não somos especiais, nem insubstituíveis. Lá fora, bem para além das fronteiras  dos nossos  umbigos, a rotação da terra continuará, os dias também,  e no rasto deles, a vida dos outros. E o lá fora nem sequer se aperceberá do nosso imenso dentro. Porra, que dói.  Dói, ser-se normal, comunzinho. E é um raio de uma dor fininha, bem pior que a dor de dentes, ali, sempre a moer, a lembrarmo-nos que somos pouco mais do que um mero acaso de carbono e hidrogénio. É tramado. Mesmo tramado. Mas enfim, há quem diga que isto também é poesia.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Porque sim

por Cristina Nobre Soares, em 12.01.15

Achas que um dia podes deixar de gostar de escrever, mãe? Não. Isso nunca vai acontecer, respondo-lhe. Como é que sabes? Encolho os ombros e rio-me. Porque faz parte de mim. Porque preciso. Olha, porque sei que sim e pronto. 

( E porque vais perceber, ao longo da tua vida, que as coisas que mais te pertecem são sempre aquelas que não têm explicação)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Escrever em voz alta

por Cristina Nobre Soares, em 10.01.15

Com tanto que tens para dizer, devias começar a escrever em voz alta. Lembro-me do momento em que a minha professora de filosofia do 10º ano me disse isto. Devias começar a escrever em voz alta, ela a dizer, enquanto me entregava o teste. Neste vinha escrito ente parêntesis à frente da nota, numa letra tão rasgada quanto o sorriso dela: Boa! E sem saber, aquela mulher pouco mais alta do que eu, de cabelo excessivamente curto, tinha acabado de me dar uma das ferramentas mais preciosas que ainda hoje trago comigo. A forma de combater o medo de falar em público, ou pelo menos de o disfarçar de forma a que ninguém note. Sempre que subo para um qualquer púlpito ou que peço a palavra numa qualquer reunião, ela volta a dar-me a mesma palmadinha no ombro, devias escrever em voz alta. E eu escrevo. E o numero de pessoas reduz-se à dimensão de uma folha de papel. Para além dela, tive a sorte de ter outros professores que me marcaram, como o de geografia do 9º ano, que deu uma utilidade à quantidade de coisas avulsas e supostamente desnecessárias que eu debitava. Ou a minha professora de português, também do 9º ano, que me ensinou o poder da honestidade na escrita. Ou a minha professora primária, que tem o mérito de me ter deixado ser tão diferente como eu fui em criança. E se também tive quem apenas me tivesse "dado umas aulas" e nunca tivesse chegado a ser realmente professor, que também foram bastantes, bastariam exemplos como estes ( e poderia enunciar alguns mais) para manter a minha crença tão profunda no papel do professor. Nessa ligação mágica, tão única entre mestre e pupilo, que perpetuou ao longo de milhares de anos a maior riqueza da nossa espécie: o conhecimento. E hoje, que mais uma vez tive de pedir a palavra em público, lembrei-me de si, professora Ana Páscoa. E gostava tanto, mas tanto de lhe poder dizer, obrigada. Obrigada, por ter feito parte do meu caminho.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Porque a vista sobre a ponte me dá para isto.

por Cristina Nobre Soares, em 08.01.15

Também somos aonde regressamos. Que os sítios são  cantos da memória, sem arestas, onde moram todas as expectativas. Às quais, ao cair da noite, chamamos sonhos.  

Autoria e outros dados (tags, etc)

A propósito do que aconteceu hoje no Charlie Hebdo

por Cristina Nobre Soares, em 07.01.15

O politicamente correcto não é mais do que uma forma de medo. Uma espécie de dormência social onde habitamos paredes meias com a nossa cobardia. Fica-nos mal sermos dissidentes, opiniosos, polémicos. Fica-nos mal. Porque, sê-lo, dá trabalho. Implica que nos debrucemos sobre o desconforto de certos assuntos. E, também, que muitas vezes tenhamos que agir, ainda que sozinhos. E isso , toda a gente sabe, que é um pouco mais complicado que o “só juntar água” que usamos na rotina dos dias. O problema, é que essa preguiça também é uma perda. Imensa. De liberdade. De liberdade. E que isto se repita até à exaustão. Ela, a liberdade, não pode ser um conceito que nos damos ao luxo de deixar do outro lado da rua. Porque desse outro lado, que atravessa o medo, estaremos sempre nós.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Momento em que não nos ocorre nada de jeito para escrever.

por Cristina Nobre Soares, em 05.01.15

Engraçado como as páginas em branco têm o mesmo desconforto do momentos de silêncio, daquele silêncio em que ninguém sabe o que dizer. Pigarreio com a mão à frente da boca. Não. Apenas me ocorrem trivialidades.  E penso que me daria jeito agora um cigarro. Pena nunca ter começado a fumar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

1 de Janeiro

por Cristina Nobre Soares, em 04.01.15

As vozes abafam-se na luz da manhã de Inverno. Há alguém que desenha um círculo na gravilha.  Que se fecha no exacto ponto onde começou.  Levanto o rosto em direcção à luz, e penso que os inícios parecem  sempre tépidos e sem sombras.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

O homem do turbante cor de rubi

por Cristina Nobre Soares, em 04.01.15

Numa rua bem escondida, vivia um homem de pele dourada e que usava um turbante cor de rubi. Deve ser hindu, diziam os homens mais cultos. Não, dizia o doutor, o mais viajado de todos. É sikh, que os hindus não usam turbante e os sikhs não cortam o cabelo. Esse homem de turbante, que tinha sempre no seu ombro magro um macaco, talhava pequenas peças de madeira. É marceneiro, diziam. Não. É artista, diziam outros. Talvez por ele só talhar madeira exótica. Talvez por as peças serem enigmas que ninguém conseguia encaixar. Ou talvez fosse por só trabalhar de noite, pois passava os dias sentado no degrau de pedra da entrada, de olhos postos entre o céu e as janelas das mansardas, sempre com uma taça de chocolate quente na mão. Mas toda a gente sabe que não há cacau na Índia, ripostava o doutor, tem de ser chá.  E o homem do turbante cor de rubi sorria, aquecendo as mãos de dedos longos,  por saber que a magia não se importa com a coerência das coisas do mundo. Diziam também ser ele o responsável por uma série de acontecimentos inexplicáveis, todos eles no voltar do Inverno, como o aparecimento de ceias e lareiras acesas nas casas mais cinzentas, daquela cinza  que cheira a tristeza.  Diziam que ele  e o macaco deslizavam em silêncio pelos telhados e entravam pelas janelas entreabertas, para lá dentro deixarem terrinas e bules fumegantes. Dizem, que por debaixo de uma campânula ficava um dos seus enigmas de madeira, impossíveis de resolver.  Dizem porém, que uma vez alguém os surpreendeu. Talvez uma criança, que estas ouvem e pressentem sombras invisíveis aos outros e que no susto o macaco deixou cair o enigma para dentro de um bule cheio de cacau quente.  Dizem que nesse momento a madeira exótica  se transformou em chocolate e  que soltando os encaixes perdeu o segredo. Dizem. E que desde essa noite ninguém viu o homem do turbante cor de rubi. Nem o macaco. Mas há quem acredite  que ele regressa em certas noites de Inverno, deslizando pelos telhados e acendendo as lareiras. Dizem que ele volta  à casa de quem conseguir resolver o enigma. E ele ao ouvi-los, sorri. Enquanto desliza por mais uma janela entreaberta de uma mansarda.

 

( O último conto escrito para a Magia da Transformação- Óbidos Vila Natal)



Autoria e outros dados (tags, etc)



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D

GA



google-site-verification: googledeb34756365df053.html