Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]
Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Lembro-me de um ano em que pedi o mesmo desejo 12 vezes, seria pouco mais velha do que a minha filha. Pedi 12 vezes liberdade. Liberdade como a que os rapazes tinham, que, por serem rapazes, podiam mais do que eu, que os rapazes não aparecem em casa com filhos na barriga, liberdade como a que os ricos e os de bom berço tinham, que esses podiam tudo, os remediados, como nós, só podiam ter sonhos na medida do seu remedeio. Liberdade para correr o mundo, conhecer todos os sítios que só conhecia dos livros e da televisão. Liberdade para ter a chave de casa da minha vida. Para fazer o que me desse na veneta, incluindo as coisas que eu achava transgressoras, como sair à noite até de madrugada, pintar os lábios de vermelho e ser anarquista (que usavam boina basca e não aceitavam ordens de governo nenhum). Engoli as 12 passas com grande sacrifício e agonia, como exigia a importância de um desejo desses. Quando me perguntaram o que tinha pedido, aos primeiros minutos do novo ano, acobardei-me e menti, dando a resposta que esperavam de mim, uma menina bem comportada: saúde, amor e dinheiro, principalmente saúde, que é o mais importante. Demorei muitos anos a perceber que eu era o meu maior cativeiro.
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.