Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

12 vezes liberdade

Cristina Nobre Soares, 30.12.18

Lembro-me de um ano em que pedi o mesmo desejo 12 vezes, seria pouco mais velha do que a minha filha. Pedi 12 vezes liberdade. Liberdade como a que os rapazes tinham, que, por serem rapazes, podiam mais do que eu, que os rapazes não aparecem em casa com filhos na barriga, liberdade como a que os ricos e os de bom berço tinham, que esses podiam tudo, os remediados, como nós, só podiam ter sonhos na medida do seu remedeio. Liberdade para correr o mundo, conhecer todos os sítios que só conhecia dos livros e da televisão. Liberdade para ter a chave de casa da minha vida. Para fazer o que me desse na veneta, incluindo as coisas que eu achava transgressoras, como sair à noite até de madrugada, pintar os lábios de vermelho e ser anarquista (que usavam boina basca e não aceitavam ordens de governo nenhum). Engoli as 12 passas com grande sacrifício e agonia, como exigia a importância de um desejo desses. Quando me perguntaram o que tinha pedido, aos primeiros minutos do novo ano, acobardei-me e menti, dando a resposta que esperavam de mim, uma menina bem comportada: saúde, amor e dinheiro, principalmente saúde, que é o mais importante. Demorei muitos anos a perceber que eu era o meu maior cativeiro.

3 comentários

Comentar post