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Superstições

por Cristina Nobre Soares, em 21.01.19

Da janela do autocarro, reparo no vulto de duas araucárias. É uma árvore magnífica, embora a simetria dos ramos a torne quase irreal, uma árvore de brincar. Onde vivo é comum encontrá-la nos quintais das casas, muitas vezes com o topo da copa decepado. Explicaram-me que isto se deve a uma superstição: se a araucária passar o telhado, o dono da casa morre. Então, para enganar a morte, cortam-na. A avó da Patrícia tinha muitas superstições destas: benzia-se quando entornava sal, que sal entornado traz má sorte, dizia que se andássemos para trás, de costas, chamávamos o canhoto, corria a bater na madeira, três vezes, se acaso alguém falasse em morte, não fosse a danada pensar que a estávamos a chamar. O mundo da avó da Patrícia era um mundo cheio de coisas más, que se podia controlar com uma obediência que tinha poderes mágicos. Seguíssemos os preceitos e nada nos aconteceria. As pessoas cultas dirão que isto era ignorância. Realmente a avó da Patrícia não saberia que as araucárias são gimnospérmicas, coníferas muito, muito antigas, mas decerto que temeria pelo dia em que a copa ultrapassasse o telhado e conheceria, de ouvir dizer, que seria o suficiente para a tomar por certa, a história de alguém, que por desleixo ou falta de temor, morrera de uma morte tenebrosa, cheia de estertores e olhos esbugalhados de medo, e terminaria dizendo, servindo-nos o leite nos copos de vidro com flores cor de laranja, a gente até pode não acreditar nestas coisas, mas temos de lhes ter respeito. A mulher, ao meu lado, arranca-me da cozinha da avó da Patrícia, com um ataque de tosse. Lá fora, já é noite e a lua, como todas as luas cheias, mete respeito.

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Marquises

por Cristina Nobre Soares, em 20.01.19

A dada altura, na minha rua, começaram a aparecer as marquises. As varandas deram lugar a uns caixotes de alumínio e vidro, umas com estores, outras com cortinas. O meu pai começou a dizer que também queria fazer o mesmo com a varanda da frente. A minha mãe torceu o nariz, disse que era parolo. O meu pai encolheu os ombros, lá estás tu, precisamos de espaço para guardar a tralha, nunca usamos a varanda e assim ficamos com mais uma divisão para os arrumos, olha para os livros, por exemplo. A minha mãe continuou a torcer o nariz, que os livros ali ficavam comidos do sol, mas o meu pai acabou por levar a ideia avante. Mandou pôr uns estores laminados (e assim os livros não debotavam, dizia ele) e uma estante até ao tecto, vê lá se varanda ainda cai com o peso dos livros, avisou a minha mãe, cujas premonições rasavam um bocadinho o absurdo, sem grandes ligações às leis da física, só este homem para se lembrar de fazer uma biblioteca na marquise. Só este homem.
Fui em quem arrumou os livros por ordem alfabética de autor. Mais tarde, organizei-os por temas, onde os livros de política do meu pai ganharam uma prateleira só deles e os da colecção Dois Mundos ficaram todos juntos. Passei muitas horas na marquise, às vezes, só à janela que dava para a António Sérgio (embora me ficasse bem dizer aqui que passava o tempo todo a ler, mas sempre fui dada a muita futilidade sem interesse nenhum, que há futilidades com interesse e que dão jeito, como saber quem é quem e de onde vem) , a pensar como seriam por dentro as outras marquises da minha rua, ou apenas em coisas disparatadas, como a probabilidade da varanda cair realmente com o peso dos livros.

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Elizabete

por Cristina Nobre Soares, em 17.01.19

Enquanto esperava pela minha filha, no carro, passou o “It must have been love” dos Roxette, na M80. Lembrei-me da Elizabete que foi ao cinema ver o filme, dizia ela, quatro vezes. O que queres? Sou uma romântica, afirmava, de olhos semicerrados, enquanto travava o fumo. A Elizabete já tinha ido para a cama com muitos rapazes, tinha experiência, explicava-nos uma série de coisas que nós nem sonhávamos que se faziam. Comprava preservativos a horas mortas na farmácia, quando sabia estar lá apenas a estagiária. Sou uma romântica, e por causa da Julia Roberts dizia que tinha deixado de dar beijos na boca, só vou dar beijos na boca quando me apaixonar, quando encontrar o verdadeiro amor. Sexo é uma coisa, beijos na boca é outra. Contou-me a Ana Sofia que a Elizabete se casou com um tipo que era mediador de seguros e que foram viver para Portimão. Não durou muito, acabou por fugir com um alemão que fazia retratos a turistas e que têm agora um turismo de natureza perto de Odeceixe. Esta última parte é mentira, não sei se a Elizabete ainda está casada com o mediador de seguros, é capaz. Mas achei que uma romântica daquele calibre merecia um fim de história melhor.

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Roma

por Cristina Nobre Soares, em 15.01.19

Na estação do metro, oiço alguém correr atrás de mim. Batem-me no ombro com força, sobressalto-me e olho para trás. É um rapaz com um cachecol vermelho. Olha-me com uma grande desilusão, ainda maior que o seu embaraço. Desculpe… confundi-a com outra pessoa. Digo que não tem importância, que acontece a todos (e nos filmes). O metro chega. O rapaz do cachecol vermelho entra duas ou três portas depois da minha, mas antes volta a olhar para mim, talvez para se certificar que se enganou mesmo. Sento-me ao lado de uma mulher cinzenta, de casaco e cabelo cinzentos e consolo-me com a lembrança do cachecol vermelho do rapaz. Com quem é que me teria confundido? São apenas duas paragens até ao Campo Grande. Mais do que suficiente para imaginar uma série de coisas absurdas.

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Essa é que é essa

por Cristina Nobre Soares, em 13.01.19

Olhe, já acabei de ler, quer a revista? Diz-me a velhota, sentada na mesa ao lado. Respondo que não, obrigada. Tem a Cristina Ferreira, diz-me. Não, deixe estar, obrigada. Grande mulher, comenta, aquilo ninguém a agarra. O que diz que ela era e o que ela se fez. Não é qualquer uma. Dizem que guincha muito, é capaz, mas também quem vem de baixo tem de se esganiçar para se fazer ouvir, que se a gente não se esganiça não há quem nos oiça, que quem está bem-posto tem a mania que ouve mal. Pisca-me o olho e bate-me ao de leve no braço com a revista enrolada, está a perceber? Eu também faço que não oiço quando não me convém. Suspira e levanta-se. Antes de sair diz-me, olhe, saúde é que é importante, que sem saúde não se faz nada. E eu, graças a Deus, com esta idade ainda faço muita coisa, que não há nada mais triste que a gente ficar à sopa dos outros. Não se ria e creia nisto que lhe digo. Não há nada pior que ficar à sopa dos outros. E essa (aponta para a revista) já tem a vida dela e a dos seus toda feita. Essa é que é essa.

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odos gostamos de amadurecer, mas poucos (ou nenhuns) gostamos de envelhecer. 
Amadurecer é ser mais sábio, sermos mais nós, é alcançar um nirvana que pode resumir-se apenas à nobre arte de deixarmo-nos de merdas. É bom ter mais juízo, mais paz, mais lucidez, saber definir melhor as prioridades e dar valor ao que vale a pena, desde à companhia de quem interessa ao bom vinho. É boa a sensação de se ter vivido, com mais ou menos mundo. É preciso ser-se muito burro para não gostar de amadurecer.
Já o envelhecer lixa tudo. Sim, lixa, pois por mais que digamos que não nos importamos, que somos superiores e tal, no fim é a nossa melhor foto que publicamos, é mais um retoque no Photshop, um cabelo pintado, mais umas horas de ginásio, outras tantas de corrida, uma barba grisalha que se faz todos os dias para que não se notem os pêlos brancos, um não comer isto e aquilo para estarmos no nosso melhor, um creme que promete fazer-nos voltar atrás no tempo, um corte de cabelo “mais jovem”. Tudo para termos um ar menos “pesado”, sem sabermos o que afinal nos pesa no corpo. É verdade que os anos nos dão uma versão mais depurada de nós mas num corpo diferente. Num corpo que nos lembra, permanentemente, que isto um dia acaba. Num corpo que é primeira coisa que os outros vêem, tão diferente da imagem que o nosso espelho interno nos retorna. No fundo, quem envelhece só pede uma coisa: vê-me como eu ainda me vejo. Tudo se resume a isto.

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O silêncio da aldeia

por Cristina Nobre Soares, em 06.01.19

Depois de almoço, enquanto caminhamos, comento que não há silêncio como o da aldeia. Nele tudo se ouve por sermos perto de tudo. Aqui somos mais limpos de ruído, somos o dobrar do sino, o ladrar dos cães por detrás dos muros, a mãe que chama o filho, ó Rafael, o carro na curva do caminho, a velha que fala sozinha ao bater à porta de alguém, devem ter ido a algum sítio, de novo o ladrar dos cães, ó Rafael, um estore que se fecha e a nitidez dos nossos passos no caminho, tão clara como se fôssemos sempre manhã.

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Tipo fino

por Cristina Nobre Soares, em 04.01.19

Tive uma tia que achava que a maior sorte com que uma pessoa podia nascer era ter um “tipo fino”. As pessoas de “tipo fino” eram, no seu entendimento, altas, esguias, alouradas e de pele branca. Caminhavam com graciosidade, não falavam alto e usavam o guardanapo sobre o colo e palavras caras. Eram, portanto, parecidas com as pessoas ricas, mas das ricas de berço, não desse dinheiro novo, que sabe-se lá de onde vem, pois hoje em dia até vender garrafões de vinho dá dinheiro para comprar vivendas ao lado das casas onde as mães foram criadas de servir. As pessoas de “tipo fino” eram, por nascimento, melhores que as de tipo “grosseiro”, cujos pescoços atarracados, pele queimada do sol, banhas a enchumaçarem-lhes roupas que cheiravam a fritos as impediam de ascender socialmente. As pessoas de “tipo fino”, especialmente se fossem mulheres, podiam ambicionar fazer um bom casamento, permitindo-lhes subir um ou dois degraus na progressão social. Ser dono de um “tipo fino” era uma sorte concedida por Deus Nosso Senhor, dono da ordem do mundo.

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12 vezes liberdade

por Cristina Nobre Soares, em 30.12.18

Lembro-me de um ano em que pedi o mesmo desejo 12 vezes, seria pouco mais velha do que a minha filha. Pedi 12 vezes liberdade. Liberdade como a que os rapazes tinham, que, por serem rapazes, podiam mais do que eu, que os rapazes não aparecem em casa com filhos na barriga, liberdade como a que os ricos e os de bom berço tinham, que esses podiam tudo, os remediados, como nós, só podiam ter sonhos na medida do seu remedeio. Liberdade para correr o mundo, conhecer todos os sítios que só conhecia dos livros e da televisão. Liberdade para ter a chave de casa da minha vida. Para fazer o que me desse na veneta, incluindo as coisas que eu achava transgressoras, como sair à noite até de madrugada, pintar os lábios de vermelho e ser anarquista (que usavam boina basca e não aceitavam ordens de governo nenhum). Engoli as 12 passas com grande sacrifício e agonia, como exigia a importância de um desejo desses. Quando me perguntaram o que tinha pedido, aos primeiros minutos do novo ano, acobardei-me e menti, dando a resposta que esperavam de mim, uma menina bem comportada: saúde, amor e dinheiro, principalmente saúde, que é o mais importante. Demorei muitos anos a perceber que eu era o meu maior cativeiro.

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Listas

por Cristina Nobre Soares, em 28.12.18

E chegámos àquela altura do ano em que se fazem listas de tudo. As listas dos melhores livros, dos que se leram, dos que ficaram por ler, dos melhores momentos, das melhores fotografias e, acima de tudo, listas das boas intenções para o novo ano, é desta que vamos todos para o ginásio, correr todos os dias, comer menos fritos, menos carne e mais comida da mãe, fazer um filho, gritar menos com os miúdos, dar atenção à família, aos avós, às tias velhas e à madrinha, mas tempo de qualidade, combinar os jantares e os cafés com os amigos, ser omnipresente, ser mais paciente, mandar quem merece à merda, fazer render os dias, dormir mais, dormir menos para escrever um livro, ou dois, abrir um blogue, passar menos tempo no Facebook, que isto já satura, aprender a tirar boas fotos para o Instagram, ou apenas aprender a mexer nos filtros, fazer uma viagem, ou duas, que agora fica mais em conta, ter aulas de ioga, aprender a meditar e o tal do mind fullness, mudar de vida, trabalhar mais, trabalhar menos que a vida não é só trabalho, escrever cartas, arrumar a garagem, acumular menos tralha, ser minimalista, perder peso, ganhar peso, não deixar nada por dizer, aprender a dizer que não, saltar de paraquedas, escalar uma montanha (ou duas), fazer mergulho, tirar um curso de culinária, outro de filosofia, aprender uma língua morta e mais umas duas vivas, pintar o cabelo de uma cor estranha, assumir os brancos, ir a Fátima a pé, ou a Santiago de carro, não dizer mal dos outros, talvez só um poucochinho, que isto há gente muito cabra, ver menos televisão e ler mais, que é para lista dos livros que a gente leu ser ainda maior para o ano que vem.

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