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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Poucas coisas doem mais do que uma amizade não correspondida. Às vezes, até doem mais do que um amor não correspondido. Engraçado, tanta bibliografia sobre amor e dores de corno, quilómetros de poesia. Sobre a amizade não correspondida nada. E tanto que podíamos dizer sobre aquela pessoa que achávamos o máximo, perfeita para ser nossa amiga, que nos fartámos de convidar para tomar café e beber uns copos, com quem planeámos tantas conversas interessantes, a quem ligámos tantas vezes a perguntar como estava e que nunca podia, que estava sempre muito ocupada, muito indisponível, muito ausente. Que nunca nos ligou de volta. Que nunca mostrou o mesmo entusiasmo que nós. Que nos trocou por outros amigos, para os quais afinal não estava tão indisponível. Que nunca nos achou suficientemente interessantes para nos tirar desse limbo sem compromisso chamado "pessoa conhecida". Não, sobre isto ninguém fala, nem escreve, nem rima. Como se fosse um dor menor. Coisa de gente imatura, falhada e patética, ou que simplesmente não sabe como é vida. É pena. Era capaz de dar boa literatura. Digo eu.
Na sala de espera do hospital está uma mulher de máscara e lenço de cornucópias na cabeça sentada à minha frente. Ao lado dela, um miúdo dos seus nove, dez anos. O miúdo enfia as mãos nos bolsos enquanto espera que o chamem para a pediatria. A mulher recosta um pouco a cabeça e fecha os olhos. O bebé da rapariga com unhas de gel azuis começa a choramingar e ela levanta-se para o embalar. Penso que essa rapariga não deva ser muito mais velha que a minha filha. Terá quantos? Dezassete? Dezoito anos? Chamam alguém pelo intercomunicador e a mulher do lenço de cornucópias levanta-se com o miúdo pela mão. O bebé da rapariga das unhas de gel continua a choramingar e ela tenta distraí-lo com qualquer coisa na janela enquanto lhe dá beijos na testa. Um homem tira uma garrafa de água da máquina. Chamam um João Manuel, uma Maria da Luz, um Martim, uma Elsa Cristina, um Joaquim com um nome e apelido que ninguém percebe. Entre os nomes vejo as horas no telemóvel. Abro um e-mail. Uma pessoa aqui demora uma eternidade, diz uma mulher de cabelo muito curto e muito branco. Há alguém que concorda com ela. A mulher de lenço de cornucópias volta, pela porta dupla, com o miúdo pela mão. Mas antes, volta-se para as pessoas da sala de espera e diz no que me pareceu ser um suspiro: as melhoras. Foi a única que o disse.
Depois de almoço, ao café, a minha amiga comentou o calor, não é normal para esta altura do ano, disse. Respondi-lhe que não, pois que não era, hoje até tinha reparado, na rua que desce junto ao parque, na quantidade de folhas castanhas no passeio. Ainda é cedo para tanta folha no chão e fugiu-me um bocadinho a conversa para a senescência das folhas. Volta e meia acontece-me, dá-me um entusiasmo que penso que já não tenho e do nada ponho-me a falar sobre árvores. Ainda no outro dia deu-me para comentar qualquer coisa, a meio de um almoço com outros amigos, sobre o abrunheiro-dos-jardins e o quão as prunóideas ficam bonitas na Primavera, por causa da floração, mas que não era a minha árvore de arruamento preferida, que gostarei sempre mais das olaias. E dos lódãos-bastardos, mas estes por me terem feito companhia durante uns bons anos durante as minhas subidas e descidas da Luís de Camões e uma pessoa afeiçoa-se à sombra de todos os dias e ao escorregar nos dias de chuva. E por causa do nome claro, lódão-bastardo é imponente, caramba. Há árvores com nomes lindíssimos. Como o carvalho negral ou pinheiro de Alepo. Disse os nomes muito devagarinho para perceberem a beleza do som. Depois, apercebendo-me da triste figura que fazia, calei-me. Não sem antes acrescentar que mesmo com um nome menos fácil de dizer a mais bonita para mim era mesmo a Gingko biloba e agora, com o Outono, ainda mais bonita fica. Essa todos conheciam.
No dia 11 de Setembro vim para casa à hora de almoço. Estava com uma gripe terrível, cheia de febre. Na altura fazia um estágio no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros e, ao fim da manhã, a Julieta disse-me, vai mas é para casa que estás boa é para te enfiares dentro da cama. Aparentemente isto não interessa nada para a história, só para mim, temos este hábito de dar detalhes supérfluos que só fazem sentido para nós e que nos põem no centro de tudo. Cheguei a casa, deitei-me no sofá da sala, tapei-me com uma manta, tomei um comprimido e liguei a televisão. Passava a notícia (tenho a certeza que era na SIC) de que um avião fora de encontro a uma das torres do World Trade Center. Um acidente. Minutos depois, qualquer coisa explodia noutra torra. Que coisa, pensei eu, queres ver que o helicóptero dos bombeiros se rebentou na outra torre? Que tótós... Mas os jornalistas começaram a disparar comentários à toa. Alguma coisa se passava. Minutos depois o mundo, o nosso mundinho mudava. Era um ataque. A minha mãe ligou-me, acho que liguei à Rita, o Hugo estava no campo. Havia medo nas conversas. Especulámos muito. É normal que o façamos quando pressentimos que as coisas não vão voltar a ser as mesmas. E não voltaram a ser as mesmas. Mesmo quando essas coisas que mudaram se tornaram normais, tão normais que já nem ligamos. Quando explodir uma bomba não sei onde e morrerem não sei quantas pessoas se tornou banal ( O tempo banaliza tudo? Ou é a memória que o faz?) A dada altura desliguei a televisão. A febre não baixava, puxei a manta e acho que dormi umas horas. Ou 18 anos. Não sei.
A mãe da Marta guardava o vestido de noiva numa mala debaixo da cama. Uma vez mostrou-nos. Tinha uma gola alta de renda da Guipur a condizer com os folhos dos punhos e uma capeline de um tecido rosado parecido com tule. A Marta quis vesti-lo, olha que agora já não te casas, disse-lhe a mãe, enquanto ela rodopiava vestida de renda de Guipur, descalça na carpete de flores azuis. Depois, a mãe da Marta contou-nos que tinha casado virgem e que o irmão morrera nove dias depois, em Moçambique, ao pisar uma mina. Olhou para mim, a Marta pôs a capeline e eu baixei os olhos.
As mulheres juntavam-se no anexo onde cozinhavam, apesar de a casa ter uma cozinha toda equipada, mas essa nunca era usada. Para não sujar, diziam. Naquele anexo, para onde iam os electrodomésticos velhos e as loiças escaqueiradas, faziam as refeições, amanhavam os coelhos e os frangos, esfolados e depenados no pátio, aproveitando-lhes o sangue num alguidar de barro, se acaso fosse dia de cabidela. E falavam da vida alheia. Sabiam da vida de todos, de quem fazia o quê, de quem era visto com quem, do que alguém teria dito sobre o que ouvira dizer de alguém, do carro de fulano, ah, que ele parece que está muito bem, olha-me aquele carrão e diz que o comprou a bater o dinheiro todo, dos terrenos que se vendiam, dos desempregos, dos que deixavam de ter onde cair mortos, das cordas ao pescoço. E dos podres, especialmente dos podres, que se contavam sempre em meias frases, cala-te boca, é melhor estar calada, sabes lá tu o que para ali vai, com uma satisfação ou uma espécie de alívio, por saberem que havia quem estivesse pior do que elas, o mesmo que punham quando falavam de acidentes e doenças, caixões fechados por o corpo do defunto já não estar capaz, pés todos roxos, feridas abertas e purulentas, cancros sem remédio, abriram-no e fecharam-no não havia nada a fazer, coitadito. E respiravam fundo, enquanto partiam os coelhos e os frangos com uma pancada de mão aberta no cutelo. Olha, antes eles que nós.
A mulher da mesa ao lado queixa-se do emprego, parece que as colegas de trabalho são umas grandessíssimas cabras, da saúde, há duas semanas que não dorme, as análises não estavam grande coisa e não pode comer coisas muito temperadas, embora a sogra, a casa da qual vai almoçar quase todos os dias, não queira saber, e do marido, que não lhe liga nenhuma e não faz nada em casa. A vida é-lhe um peso imposto pelos outros. A velha que costuma estar à janela a ver quem passa, agora, com o calor e a rua vazia, vem sentar-se na paragem do autocarro, à espera que o tempo passe. Ando a ouvir o “Ar de Rock” do Rui Veloso. De resto, nada de novo.
Acho engraçada esta divisão entre os que gostam da Greta e os que não gostam da Greta. Tipo gostar ou não de cozido. Por estas redes sociais acima ( ou abaixo) as paixões dividem-se entre o bota-abaixismo fatela contra a miúda e a sua sacralização com um piquinho a Sãozinha de Alenquer. A Greta tem 16 anos. Tal como todos nós já tivemos 16 anos. Uns com mais sangue na guelra do que outros. Com mais convicções do que outros. Com boas intenções ou nem por isso. A Greta faz-nos pensar, caraças, eu com a idade dela o mais radical que fazia era dizer mal do Cavaco. Ou mandar vir contra a comida da cantina. E mesmo agora, com mais uns anos em cima, a coisa fica-se por umas bocas por aqui, uns #hashtags e uns perfis lindinhos “por qualquer coisa” comigo a fazer pose para a selfie. A miúda tem espírito, mexe-se, levanta o rabo por aquilo que acredita. Quantos de nós fomos assim? Pois. Foi o que eu calculei.
Mas (vocês sabiam que havia um mas) o problema da Greta não é a Greta, é a algazarra à volta da Greta. O problema da Greta é o vazio cívico ser tão grande que o pessoal se agarra a algo que supostamente uma miúda de 16 anos representa, como se não houvesse amanhã, como se não tivesse mais nada. Ou como se tivesse apenas cestas vazias de pão e peixe, à espera que façam a multiplicação por eles (ou do que há-de vir). Para além disso, tem um certo lado perverso, um certo sacudir a água do capote, do “ah, isto agora só as novas gerações é que podem dar a volta isto, que nós já não temos estaleca”. Isto, sim, é o que me agasta no tema Greta. Só que disto a Greta não tem culpa nenhuma.
Podem engalfinhar-se à vontade que não é o gostar ou não gostar da Greta que nos vai encher as cestas. É o perguntar: o que é que eu já fiz hoje para que isto mude? E, já agora, o que é que fizeram?
Gostava muito de conhecer o café de que tanto falas nos teus textos, disse-me uma amiga. É um café de aldeia, que também é padaria, respondi-lhe, não tem nada de especial. Tem fitas de plástico na porta, mesas de fórmica branca com porta-guardanapos a dizerem Compal, ladrilhos brancos no chão, uma arca com gelados da Olá, uma vitrina com sumos e leites achocolatados em baixo e bolos em cima (de lado, a fazer esquina, é só para o pão), um quadro de cortiça onde se afixam os anúncios de pessoas que engomam para fora, que dão explicações de matemática, que vão a casa fazer limpezas, das aulas de danças de salão da colectividade recreativa, das tasquinhas de verão, nas paredes algumas molduras com fotografias de Nova York e Paris, compradas na loja do chinês, mulheres velhas que levam os netos, mulheres mais novas que não trabalham, outras que não são novas nem velhas, de porta-moedas e saco de plástico dobrado debaixo do braço, que vêm só para esperar pela carrinha branca do peixe, que passa, se não me engano, duas vezes por semana, um tontinho, sempre com a barriga de fora, a quem a rapariga do balcão costuma dar bolos (fala-lhe como se ele tivesse quatro anos), a rapariga do balcão que não é sempre a mesma, há uma mais velha que tem um filho e o rosto manchado com pano e uma mais nova que só chega depois de almoço, que tenho ideia que também é dona. Homens há poucos, vão aos outros cafés onde só há homens. Tirando um ou outro velho que venha acompanhado pela mulher ou pela filha, por já não se orientar nem dizer coisa com coisa. Há miúdos que vêm ao pão, à hora das fornadas. À tarde, vêm aos gelados.
É um café como tantos outros, sem interesse nenhum.
Em Santo Amaro, nos anos da passagem de Macau para a China, mesmo em frente à paragem onde eu apanhava o autocarro de regresso a casa, havia uma varanda com um grande pano preto que dizia “Por Macau” em letras pintadas a branco. Esse pano ficou lá pendurado durante anos.
Macau dizia-me muito pouco. A única referência que tinha, para além da do livro de meio físico e social, era a Raquel da minha turma na 3ª classe. A Raquel tinha nascido em Macau, mas por causa do trabalho do pai, que eu nunca soube qual era, os pais tinham regressado a Portugal. A Raquel tinha uns olhos amendoados que não eram bem orientais, mas também não eram como os da maior parte dos outros miúdos. E tinha uma espécie de caneta com oito cores de lápis que eu achava maravilhosa (escolhia-se a cor carregando nas cores na parte de cima da caneta). Invejava-lhe tanto essa caneta que a Raquel deixou-me levá-la para casa num fim-de-semana para eu poder fazer desenhos com ela. Não fiz desenho nenhum. Deixei-a guardada no fundo da mala da escola, sem lhe tocar, como se faz a um tesouro.
Tirando isso Macau não me dizia rigorosamente nada. Era apenas mais um resto anacrónico do império. Como eu o era. Como a Raquel. Como a Flora cujas histórias sofridas tanto me lembrei quando os alunos se juntaram no Pavilhão Polivalente da minha escola a cantar a canção do Luís Represas, por altura do massacre de Santa Cruz.
Enquanto esperava pelo autocarro tentava imaginar como seria a pessoa que pusera aquele pano. Seria um velho a cheirar ao mofo dos valores da Exposição do Mundo Português? Seria um macaense? Ou seria apenas um desenraizado como eu? Nunca soube. Assim como nunca mais soube da Raquel nem da Flora. Tudo boas histórias para contar. Mas o autocarro entretanto chegava, chega sempre, e a vida ainda faz conta comigo para jantar.
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