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Sem ele temos medo de tudo

por Cristina Nobre Soares, em 23.09.18

Os cães da casa ao fundo da rua ladram à minha passagem. Estão presos, cada um à sua casota, por uma corrente, daquelas que se compram a metro nas drogarias. Dão sinal, como se diz por aqui. E lembro-me do meu primo, vendo-me com medo, a convencer-me de que o cão que tinham a guardar a casa e o terreno não tinha dentes. Uma das mãos a apertar-lhe o focinho, anda faz-lhe uma festa, que ele sem dentes não te morde e eu a rir-me muito por achar parva a mentira do cão desdentado, enquanto estendia a mão, o meu riso à frente dela a fazer-me de valente. O riso chega sempre antes. Sem ele temos medo de tudo.

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Cerrado

por Cristina Nobre Soares, em 22.09.18

A neblina vinda do lado do mar espessa-se, mais uma hora ou duas e será nevoeiro cerrado. Cerrado. Não vos quero na rua com este cerrado, dizia a avó da Patrícia, brincam cá dentro. Dizia ela que conhecia um rapaz que, uma vez ao regressar da oficina onde trabalhava com o tio, apanhara um cerrado tão grande que perdera o norte para voltar a casa, que ficava a uns três quartos de hora a pé, e isso porque era rapaz novo e caminho sempre a descer. Teve de passar então a noite toda ao relento e a humidade meteu-se-lhe de tal maneira nos ossos que lhe retorceu a espinha para sempre. Ficou sem préstimo para nada, dizia ela. Por isso não vos quero na rua com este cerrado, que ainda me apanham uma doença de ossos, e não queiram vocês que os ossos vos doam, que é pior que a dor de dentes ou que ter um filho. A avó da Patrícia contava muitas histórias destas. E nós sabíamos que a a maior parte não eram verdade, mas nunca é isso que interessa numa história.

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Ressaca

por Cristina Nobre Soares, em 18.09.18

O primeiro texto que escrevemos num blogue é uma espécie de mensagem na garrafa lançada ao mar. Não sabemos onde chega. Se alguém a recebe, a lê. Até que um dia, depois de muitas marés e muitos textos, chega-nos uma resposta. Alguém que nos leu. Alguém que não conhecemos, que não é primo, amigo, daqueles que gostam do que escrevemos porque gostam de nós. Alguém de um outro lado, que pode estar a quilómetros de distância ou ali na parede ao lado. Os textos depois dessa mensagem mudam. Não nas palavras ou na forma como são escritos, mas na intenção. A ilusão de que escrevemos para nós perde-se e passa a haver uma intenção. Um falar para alguém. 
As redes sociais agilizaram este processo. Os oceanos e as mensagens na garrafa perderam-se. Tornou-se mais fácil e rápido comunicarmos, sermos vistos e aplaudidos. O “like” é um aplauso, não uma mensagem. E os aplausos inebriam. Quando estamos ébrios perdemos a noção de muita coisa: do tempo, do ruído, das distâncias, do equilíbrio. Não tenho nada contra as redes sociais. Muito pelo contrário. Sou capaz de enumerar muitas mais vantagens do que malefícios. Ainda hoje, por exemplo, fiquei a conhecer melhor o trabalho interessante de alguém. 
Mas pergunto-me, tal como nas noites de excesso e de embriaguez, se for suposto haver um dia seguinte, uma manhã depois das redes sociais, se ao acordarmos nos iremos lembrar do que aqui fizemos e de quem conhecemos. Ou se, como acontece em qualquer ressaca, vamos querer esquecer.

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Restos

por Cristina Nobre Soares, em 16.09.18

Há todo um ritual depois da visita de alguém. Almofadas que se batem e retomam o seu lugar no sofá, chávenas e copos que se recolhem das mesinhas, cortinados que se fecham, tamboretes que voltam ao sítio, restos que se guardam em caixas de plástico. Quando eu era criança, depois das visitas saírem, a minha mãe punha rapidamente a casa igual ao que estava antes, hoje já não faço jantar, dizia, peremptória, se quiserem mexam uns ovos. Todos retomavam o seu sítio de sempre, a fazer as coisas de sempre, a dizer as mesmas coisas de sempre e voltava a ser Domingo. Que cara é essa? Perguntava-me a minha mãe. Não se pode estar sempre festa, a vida não é uma festa, minha menina. Eu achava esta frase muito triste. Enquanto penso nisto, limpo as migalhas da mesa, puxando-as para a concha da mão. O que é o jantar? Pergunta-me a minha filha. Hoje, não faço jantar. Há restos. Se quiseres podes mexer um ovo.

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Estendais

por Cristina Nobre Soares, em 15.09.18

Reparo nos estendais da casa da esquina, antes de apanhar a estrada de regresso a casa. Do lado mais escondido, a dar para uma rua, que de relance me parece ser um beco, a roupa branca, os lençóis na corda de trás, as fronhas e os panos da loiça na corda da frente. No outro, na varanda mais à vista, a roupa de vestir, as calças atrás e as partes de cima à frente, alinhadas por cores e cuidadosamente voltadas do avesso por causa do sol. Come-lhes a cor, ensinaram-me. As molas também têm um preceito, não se prende uma camisola pelo cós para não alargar, nem pelos ombros para não deixar marca. As peúgas emparelham-se e os lençóis não podem ficar muito dobrados, que assim demora mais a secar. O estendal tem de ficar bonito, arrumado, afinal fica despojado aos olhos de toda a gente. Gosto de estendais. Não têm manias. Mais aprumo, menos aprumo é o que é. Roupa toda a gente tem de lavar.

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Uma imagem não diz mais do que mil palavras

por Cristina Nobre Soares, em 13.09.18

Uma imagem diz mais do que mil palavras. As vezes que já me disseram isto, em tom de argumento. Eu respondo sempre que não. Que a imagem não diz mais nada, diz é mais depressa, pois viaja à velocidade da luz e as palavras, à velocidade do som. Reparem que quando a barreira do som é ultrapassada há um estoiro. Como se fosse um aviso, olha que vais depressa demais. As palavras têm uma cautela que as imagens não têm. As palavras são mais rugosas, exigem mais esforço para uma mesma massa de informação. No entanto, também existem palavras que funcionam como imagens. Os títulos das notícias, por exemplo, são mais imagens do que palavras. Talvez por isso se tornem tão depressa em indignações que são partilhadas, nas redes sociais, à velocidade da luz. Nada tenho contra as imagens, muito pelo contrário, mas talvez tivéssemos a ganhar alguma coisa com a maior lentidão das palavras. Nesse contratempo há espaço para a reflexão.

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Um dia

por Cristina Nobre Soares, em 11.09.18

Um dia, acredito que o mau perder de uma jogadora de ténis não seja notícia.Que as roupas que ela usa em campo não sejam notícia. Que uma profissional não ache que lembrar que é mãe a torna melhor profissional. E nesse dia acredito que a única notícia merecedora de paixões seja a abada que uma miúda de 20 anos deu a uma estrela do ténis. Ainda acredito que um dia isto acontece.

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Alfarrabistas

por Cristina Nobre Soares, em 09.09.18

Restos de armazém, bibliotecas inteiras que deixaram de ter espaço ou sentido na casa de alguém, livros com as páginas ainda por abrir, outros com as páginas a separarem-se de tanto uso, capas amareladas pela luz, folhas com cheiro a bafio e escuridão, primeiras páginas dedicadas a alguém, para ti, meu amor, do pai que te estima, a lembrar o teu aniversário, ou apenas o nome do antigo dono. Páginas anotadas, frases sublinhadas que não fazem sentido para mais ninguém. Autores que não se venderam, ou que se venderam mas que por alguma razão se esqueceram, autores injustiçados, outros justamente desaparecidos. Às vezes, entro nos alfarrabistas e não compro nada. Fico só a ver os livros e a pensar nisto. Entro só para poder pensar nisto.

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Miradouro

por Cristina Nobre Soares, em 08.09.18

No regresso a casa, lembrei-me quando, de manhã, começou a cair uma chuva morrinha. Abriguei-me debaixo de uma varanda. Entre, disse-me a velhota à porta de uma loja de arranjos, que à primeira vista me pareceu ser uma lavandaria, talvez pelas tábuas de passar a ferro. Entre, para não se molhar. Estendi a palma da mão, que voltou quase seca. Deixe estar, obrigada, já abrandou e segui caminho. Confundi a rua, há uns bons anos que não andava por ali e dei por mim a chegar ao Alto de Santo Amaro. Ali deve ser a vista mais bonita sobre o Tejo, comentei. Vamos lá? Perguntou-me ele. Deixa estar, respondi e, enquanto me acobardava no passo, lembrei-me do tempo em que fugia para lá. Há, naquele miradouro, alguém demasiado perdida, desfeita numa amargura que não se deve ter aos vinte, que ainda não consigo revisitar. Desculpei-me com a chuva, que entretanto já passara, passa sempre mesmo quando ainda nos parece que chove, e descemos a rua. No carro, tento afastar os pensamentos cinzentos e salva-me uma mancha de pinheiros mansos à saída da CRIL. Tão bonito, comento, e as curvas verdes sob a luz do fim de tarde, apaziguam-me. Entre, diz-me a velhota. Não, deixe estar, já passou.

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Os primeiros dias de Setembro

por Cristina Nobre Soares, em 05.09.18

Os primeiros dias de Setembro são estranhos. Nenhuma estação tem um fim tão anunciado como o Verão, é tão efémera que nos tornamos eternamente jovens sempre que nos recordamos dela. Peçam a um velho para vos contar um dos seus Verões e ele decerto que vos falará da sua juventude. Talvez por isso, por vezes, nos demoremos a habituar à luz dos primeiros dias de Setembro. Andamos estremunhados na nossa própria mortalidade.

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