Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Para sempre

por Cristina Nobre Soares, em 23.04.19

Nasci 2 meses antes do 25 de Abril de 1974, numa ex-colónia. Não vivi a revolução, muito menos o antes que levou à revolução. As memórias que tenho, como muita coisa na minha vida, são de ouvir contar. Não é a mesma coisa do que quem a viveu. Pois não. É muito diferente. Cresci a ouvir muitas versões, muitas paixões e muitos ressentimentos diferentes sobre a mesma realidade. Cresci também a perceber que há coisas que demoram a ser faladas e que provavelmente nunca serão faladas em vida de quem as viveu. Mas aprendi a dar valor a uma coisa que sempre tive como garantida, a liberdade. E a democracia. O meu 25 de Abril é isso: gratidão. Que não precisa de ser uma memória, porque gratidão é ser para sempre.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Cordeiro de Deus

por Cristina Nobre Soares, em 21.04.19

Nós a corrermos pela ladeira que vinha do cruzeiro, a rua de granito com os restos das ramadas do outro Domingo, as mulheres a picarem a cebola na mão, o borrego no alguidar, cordeiro de Deus, as meias a escorregarem-me pela perna, tenham juízo, olha que caem, o cheiro a canela, o pão-de-ló no prato de vidro azul, as amêndoas roladas do tacho velho, os velhos à sombra de uma árvore que me parecia igual a todas as outras, que tirais o pecado do mundo, a renda fina da melhor toalha, o cabelo a soltar-se-me dos ganchos, eu bem te disse que caías, os joelhos esfolados, as meias enfoladas por cima dos sapatos, a cara vermelha, olha-me para ti, a minha mãe zangada, isso não são preparos para o almoço, tende piedade de nós.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Papel de prata e arroz-doce

por Cristina Nobre Soares, em 18.04.19

O meu pai ensinou-me a alisar o papel de prata (que se calhar era de estanho) dos ovos de chocolate. Tens de fazer com o canto da unha do polegar, e não podes fazer muita força para não rasgar. As folhas dele ficavam impecáveis, como se nunca tivessem sido usadas. Depois, guardava-as no móvel da casa de jantar, na gaveta dos naperons e dos guardanapos. Dizia ele que podiam servir de marcadores de livros, mas a verdade é que acabavam por ficar esquecidas na gaveta. Também me ensinou a fazer desenhos de canela no arroz-doce. Punha um bocadinho de canela entre o polegar e o indicador e rolava-os com precisão. Isto tem de ser com paciência, dizia, como se o xadrez de canela fosse um exercício de física quântica. 
As memórias de coisas inúteis servem para nos dar algum sentido.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Falar disso para quê?

por Cristina Nobre Soares, em 17.04.19

Nas famílias, muitas vezes, depois de episódios de mágoa ou de vergonha, gera-se uma paz podre. Um silêncio. Que se confunde com esquecimento, mas é muito diferente. Este silêncio enche uma sala, tira o ar, toca-se. Mas ninguém o quebra. Espera-se que passe, como se fosse uma gripe. Às vezes, há alguém, geralmente um velho que já não tem nada a perder ou o maluco da família, que toca no assunto. E os restantes agitam-se nas cadeiras com o desconforto, isso não é assunto para falar à mesa, isso são águas passadas, o que lá vai, lá vai, o que interessa isso agora? E tudo volta à normalidade de sempre, para que depois se possa dizer: nesta família não há conflitos, nesta família não há mágoas, neste país não há ressentimentos, neste país não há más memórias, não morreu ninguém na guerra, nem ninguém matou ninguém, não houve presos políticos, não havia miséria, não havia espinhos contra os retornados, nem contra os comunistas, nem contra os reaccionários, nem contra os latifundiários, nem contra os piquetes de greve, nem contra os pretos, nem contra os brancos de segunda. Não, isso nunca é bem assim, ou são tudo águas passadas, as mágoas não se sentam à mesa, o que passou, passou, o que interessa é que pareça que está tudo bem. Falar disso para quê?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Por quem choramos

por Cristina Nobre Soares, em 16.04.19

É estranho que até o incêndio de um símbolo que é Notre-Dame dê logo lenha (passe o trocadilho) para tanta indignação. Ele é ver quem é religioso ou não, quem realmente gostava mais da catedral, quem chora por isto e não chora por coisas mais graves, quem dá dinheiro para isto e não dá para coisas mais graves. 
Ardeu um símbolo. Mesmo quem nunca lá esteve conhece, viu fotografias no livro de história, imagens na televisão, ouviu a história do corcunda e perguntou o que era uma gárgula, recebeu um postal de férias, conheceu alguém que lá passou por ter estado em Paris em passeio, emigrado ou exilado. E quem lá esteve lida com a estranheza de ver desaparecer um sítio por onde passou, onde acendeu uma vela, apesar de não ser crente, só para dizer, eu estive aqui, e um dia mais tarde, ao lembrar-se desse momento, enquanto a Notre-Dame ardia, percebeu que a memória sabe lidar com a passagem do tempo, mas não com o desaparecimento do espaço. 
Não choramos da mesma forma por tudo. Choramos por aquilo que por alguma razão nos é mais próximo e não somos menores ou mais hipócritas por isso.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ficar calado

por Cristina Nobre Soares, em 15.04.19

Uma vez, um tipo, disse-me que "só não me atiro a ti porque tens um ar muito português e banal." Enfim, depois do que eu lhe respondi dificilmente se terá voltado a lembrar de mim como banal. 
O problema destas coisas é serem verbalizadas (e acharmos que a nossa opinião, dirigida directamente à vida de terceiros, é fundamental para a existência da humanidade no geral), pois, ao fazê-lo, mostram falta de inteligência e empatia pelos outros. E duvido, muito sinceramente, que, na maior parte dos casos, seja sequer uma agenda machista, pois implicaria alguma complexidade de raciocínio. E gente burra é o que não falta.
Provavelmente todos nós já nos desiludimos com um flirt ou paixoneta por motivos fúteis, como mau português, comer de boca aberta ou mãos suadas. Faz parte. Ninguém explica isto. E não há inocentes nisto. Uns não gostam de gente burra (como eu), outros não gostam de gordos, de magros, de gente com dentes grandes, dentes de rato, cabeludos ou carecas. Cada qual gosta do que gosta. A diferença é que se calhar, assaltados por algum bom senso e empatia, em vez de sermos "muito frontais e iguais a nós mesmos", evitámos melindrar alguém e dissemos: "o problema não és tu, sou eu." E é verdade. Nestes casos, o problema somos nós que, mesmo sendo boas pessoas na maior parte dos dias, há outros em que somos umas reais e grandes bestas, que acham os outros banais ou embirram com os erros de português alheios. Convém é ficar calado para que haja pouca gente a dar por isso.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Intermitência

por Cristina Nobre Soares, em 12.04.19

Escrevi um texto passado no corredor de uma escola, instantes antes de eu entrar para uma reunião de pais. Nesse texto falava de duas mães que comentavam entre si a medicação que davam aos filhos hiperactivos. Que depois falaram dos comprimidos que tomavam para dormir. E depois do que iam fazer para o jantar, sobre o gradeamento de uma que caíra com o temporal, mas que o seguro não pagava e da ferida num pé da outra, que afinal era por causa de um fungo, mas que tinha sido preciso a rapariga nova que estava na farmácia perceber o que aquilo era, que a enfermeira do centro de saúde não fizera grande caso. Descrevia uma como magra, de olhar cansado e cabelo pigarço e mal preso num rabo-de-cavalo. Sobre a outra falei apenas da mala de imitação de pele verde, esfolada nas costuras pelo uso. Podia ter falado do cabelo pintado da dona da mala esfolada, mas não me apeteceu, era avermelhado, saltei logo para uma lâmpada do corredor intermitente, que zumbia sempre que voltava a acender e para uma contínua antipática que se queixou disso. Terminei com uma coisa qualquer sobre a normalidade. Não publiquei o texto. Ninguém iria comentar a intermitência da normalidade, nem o gradeamento que o seguro não pagara, nem as insónias das mães, nem a antipatia da contínua, nem o fungo no pé. Iriam chamar-me à atenção que já não são contínuas e discutir a questão da hiperactividade. E a luz do corredor continuaria a piscar até que a professora nos dissesse que podíamos entrar na sala.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Em Santos

por Cristina Nobre Soares, em 09.04.19

Em Santos, entrou um homem gordo que cheirava muito, muito mal. Sentou-se num daqueles bancos voltados um para o outro, que ficam à saída do eléctrico, ao lado de outro homem que não aguentou nem dois minutos e que se levantou, agoniado com o cheiro. O homem gordo que cheirava mal, ajeitou-se no lugar, coçando a raiz do cabelo por cima da testa, de onde caíram umas escamas de porcaria e tornou-se invisível. Um homem imenso e nauseabundo que ninguém via. Talvez uma senhora quefungou, assinalando o incómodo, tivesse dado por ele. Mais ninguém. O homem saiu no Calvário e duas pessoas abriam a janela, para ver se o cheiro do homem saía com a corrente de ar, mas não, ficou a entrar pelas narinas adentro até à ultima paragem da Ajuda, até ao momento em que fizeram o jantar, se sentaram à mesa e disseram, hoje, entrou no eléctrico um homem gordo que cheirava muito, muito mal.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Fátima

por Cristina Nobre Soares, em 08.04.19


 








Uma vez, num café ao qual costumava ir, o empregado aproximou-se e disse, vamos cantar os parabéns a uma cliente, que trouxe o bolo de anos. O nome da senhora é Fátima. Olhou para mim, para dizer o nome dela, quando cantar os parabéns. A aniversariante estava em pé, sozinha, com as pestanas cheias de grumos de rímel, na mesa um bolo coberto de chantilly. Tinha um ar triste, ou talvez fosse envergonhado (as pessoas transparecem-nos apenas as emoções que conhecemos). Os clientes do café cantaram, a Fátima, de olhos muito pintados partiu o bolo em pequenos quadrados, entregou um a cada cliente do café, servido num guardanapo de papel e agradecendo a presença a cada um dos desconhecidos. Depois, voltou a sentar-se na mesa dela e comeu o quadrado de bolo que lhe calhou e os outros clientes do café voltaram à vida deles.





Autoria e outros dados (tags, etc)

Cinzento vago

por Cristina Nobre Soares, em 27.03.19

As primeiras memórias que tenho, não são da terra onde nasci. As minhas primeiras memórias são de Vila Nova de Gaia. Da Laidinha, que tinha uma venda de frutas e legumes do outro lado da rua, dos peixinhos de chocolate, embrulhados em papel prateado que a minha mãe e a minha irmã me compravam no supermercado que havia no rés-do-chão, da minha cama de madeira branca e de um cinzento vago, que durante muito tempo confundi com chuva, mas que depois percebi que era a tristeza que por vezes os adultos carregam. A minha primeira memória foi de um retorno, de um começar de novo. Hoje, ao passar por uma rua qualquer de Gaia, pensei que talvez isso explique muita coisa

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D

GA



google-site-verification: googledeb34756365df053.html