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1ª – Ele tem realmente um grande sentido de humor. E é irónico. Muito irónico. E desconfio que também tivesse sido irónico nesta declaração que está a incendiar as redes sociais. Mas a ironia é uma coisa cada vez mais “invisível aos olhos", nos dias que correm. Tudo é lido à letra e, para que não o façam, temos que despejar emoticons com risinhos e olhos a piscar para as pessoas perceberem que “estávamos a brincar”. Estilo as plaquinhas com “rir” e “aplaudir” que as assistentes do Serafim Saudade usavam em palco. E apanhar uma ironia costuma ser sinal de inteligência. Digo eu.  

2ª- Agora, vamos partir do princípio que ele não estava a ser irónico coisa nenhuma. Que foi um cagão, um pedante. E? Esta ideia de que temos de ser sofríveis para não maçar os outros é adorável. Perdoa-se tudo neste país: vigarices, nepotismo, racismo, até matar a mulher por ciúmes, mas, alto lá, vaidades é que não. Temos tanto azar à vaidade que até cultivamos a profilaxia do nunca elogiar para evitar que os outros caiam na tentação da vaidade. Elogios, só quando a pessoa não está presente (especialmente depois de morta, que aí merece, coitada, afinal aconteceu-lhe o azar de morrer), não vá ela não ficar com a ideia que tem grande importância e passar-lhe pela cabeça que é mais do que nós. Só que esses tais elogios sobre ausentes (sobre os feitos dos nossos filhos, a eficiência dos nossos funcionários, o carácter dos nossos amigos), são sempre mais sobre nós do que propriamente sobre eles. A vaidade é realmente um pecado imperdoável. Já a inveja é perfeitamente aceitável pois, ao contrário da vaidade, não se nota e ainda tem o mérito de muitas vezes passar por moral.

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Infante Santo com a Domingos Sequeira

por Cristina Nobre Soares, em 23.06.19

Estugamos o passo, por causa da chuva que engrossa, comentamos o cheiro da tílias e durante o tempo que nos demora a atravessar a rua numa corrida e entrar pela primeira vez num café que só conhecemos de passar de carro, voltamos ao cruzamento da Infante Santo com a Domingos Sequeira, em Junho. Mais ou menos o mesmo tempo que demorámos a chegar até ao que somos agora.

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Nós

por Cristina Nobre Soares, em 22.06.19

Há uns vinte e tal anos houve uma assembleia para apresentar o trabalho anual da associação de estudantes da qual eu fazia parte. Quando chegou à minha vez, falei do jornal que tinha “eu montado”, do número de edições “eu tinha publicado”, dos objectivos que “eu” tinha cumprido. A dada altura, depois de ter usado várias vezes a primeira pessoa, o Pedro, presidente da associação, do fundo do anfiteatro, disse-me, sem voz, só com o gesto da boca, “fizemos” e piscou-me o olho. E aquele segundo, para além de me ter sentido envergonhada por estar a ser tão “pavona” com uma coisa que valia o que valia (menos de um caracol), mudou-me a perspectiva de um ano inteiro de trabalho. É verdade que o jornal tinha saído cá para fora (mesmo as edições cheias de gralhas) à conta de 99% do meu trabalho, carolice e teimosia. Mas deixar de ser apenas EU, não minimizava, nem a apagava o meu trabalho e o meu esforço. Até porque a insignificância da nossa existência já é demasiado insignificante para ser minimizada. E não há apenas um “EU”. Não somos sozinhos. Faz-me lembrar uma frase do “After life” em que a velhota que o Ricky Gervais encontra no cemitério lhe diz “Só cá andamos para nos acompanharmos uns aos outros.” 
Ao dizermos que somos NÓS, passamos a trabalhar para um bem comum, para algo maior do que o nosso ego, do que as nossas vitórias e sacrifícios. Ao sermos NÓS abrimos a possibilidade de os outros sentirem que fazem parte de alguma coisa, que essa coisa foi pensada também para eles, que vale a pena fazer parte de um bem comum. Naquele caso era uma coisa feita por uma aluna para outros alunos. Hoje, o tal jornal (que se chamava BI) está exposto no ISA, juntamente com outras publicações criadas por alunos. Não interessa quem o fez. Interessa que foi feito e que se alguém quiser pode voltar a ser feito. E acima de tudo, nós não importamos (vamos todos morrer e o nosso ego será igualmente comido pelos bichos). O que importa são as portas, por mais pequeninas que sejam, que abrimos e deixamos abertas a quem vier atrás.

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Desassombro

por Cristina Nobre Soares, em 21.06.19

No cemitério, há um casal a passear por entre as campas. Vão vendo quem morreu, este era marido de fulano, da família ou das amizades de sicrano, as pedras boas, o mármore faz-se feio com o tempo, e as que revelam curteza de dinheiros, até na morte uns são mais do que outros, os ditos nas lages, se as flores são de plástico (sinal que a família já se acostumou com o luto) ou se são frescas, agora no Verão não duram nada, é só para dizer que se cá veio. Não é mórbido este passeio, desenganem-se, é um querer saber de quem já não está cá. Este tu-cá-tu-lá com a morte pode chocar alguns. A mim comove-me. Como me comovem todos os desassombros.

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Desistir

por Cristina Nobre Soares, em 20.06.19

Na carruagem vem um homem com um chapéu vermelho de aba larga. Daqueles chapéus que já vi nos bailarinos de flamenco. Mas só na televisão. Ao vivo nunca vi nenhum. Só o meu professor de aulas de sevilhanas, que não usava chapéu, mas usava sapatos de tacão alto. Só tive duas ou três aulas, acabei por desistir, era demasiado suburbana para me enquadrar naquela turma, que tinha aulas uma vez por semana (salvo o erro às quintas-feiras) no antigo lagar da minha faculdade. Gostar de dançar, infelizmente, não chega para muita coisa nesta vida. Na altura, teria sido mais coerente com o meu boletim de voto dedicar-me a um qualquer folclore de leste. Desisti, portanto. Como desisti de muita coisa nesta vida: livros chatos, namorados, idas à praia, dietas, sapatos com saltos de dez centímetros, discussões, argumentações, zangas, amizades de conveniência, dar conselhos, ouvir conselhos, exames, usar batom vermelho (acabava-me sempre nos dentes), de ser um génio ou uma gaja muita boa, de correr todas as manhãs, das idas ao ginásio, do Instagram e do Twitter e de pensar que se correr, quando sair no Campo Grande, ainda apanho o autocarro das oito e trinta. Que se lixe.

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Janela

por Cristina Nobre Soares, em 19.06.19

Chego aqui à janela. Há uma discussão acesa, já a descambar para o insulto, no mural do Nuno, a propósito da série "Chernobyl". A discussão há muito que passou o tema da série, para se tornar numa paródia da cortina de ferro. Ignoro. A Céu ( trabalhámos juntas, não a vejo há uns dez anos) publicou uma fotografia da filha, que deve ter idade da minha. Faço um love e escrevo “Gira, a miúda!”. Nunca gostei muito da Céu, era uma chata, com aquele hábito irritante de dar palmadinhas nos braços dos outros enquanto perguntava “Não é? Não é?”. A Inês partilhou uma musica dos Smiths, faço love, claro, afinal assim toda a gente fica a saber que também gosto imenso, ainda por cima é uma pouco conhecida, não é como a "There is a light that never goes out", que toda a gente partilha. O não-sei-quantos com quatro apelidos continua a publicar selfies e a puxar dos galões. Não há paciência para pavões. Faço-lhe unfollow. Rio-me com o post do Hugo, valha-me o mural dele para não me fartar disto. Dou os parabéns a duas pessoas e enquanto escrevo isto, a mulher do Miguel volta a fazer like nos meus posts. Ambas sabemos por que razão me faz likes nos textos. E eu hoje estou cínica o suficiente para lhe retribuir com um love numa fotografia. Agora, chega. Vou trabalhar.

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Variações de Goldberg

por Cristina Nobre Soares, em 16.06.19

Vivia na casa que fora da avó, um rés-do-chão na Ferreira Borges, e alugava o quarto vago para ajudar a pagar as contas. Uma das suas inquilinas foi uma sarda de Erasmus, a quem nunca se vira um par de cuecas estendido. Só uma vez, umas vermelhas de renda, dizia-me. Daí se concluir que a sarda não usaria cuecas. E também que gostava de Bach, pelas vezes que punha na aparelhagem o mesmo CD com as variações de Goldberg, sempre com o volume no máximo. Às vezes, quando chego e ela tem isto a tocar, não entro logo em casa. Sento-me nas escadas a ouvir. Descobri que o prédio tem uma acústica belíssima.

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Restos

por Cristina Nobre Soares, em 14.06.19

O meu 9º ano talvez tenha sido o ano escolar que mais me marcou. Nesse ano tive dos melhores professores da minha vida (o de geografia, um dos melhores contadores de histórias que conheci, a de português, que fez com que achássemos os Lusíadas uma coisa formidável, a de francês, a bacana a quem contávamos todos os nossos dramas). Mas também os piores: a minha professora de história, às vezes, vinha com os copos depois de almoço, a de inglês devia ter aprendido inglês com o Zézé Camarinha e a de saúde, que por acaso era nossa directora de turma, e que só dizia disparates. Algum deles gravíssimos, como o “ninguém engravida na primeira vez”, que custou uma falta disciplinar à Sandra, por dizer "a stôra é uma irresponsável". A mesmo professora que nos disse a pérola, no primeiro dia de aulas: “Esta turma foi feita com restos”.

Aquilo, na altura, chocou-me tremendamente. O que é que ela quereria dizer com restos? Talvez falasse da Flora, que tinha 18 anos e estava a ver se não passava para o recorrente. Ou da Maria Pia, a menina betinha do Restelo, que os pais tinham matriculado naquela escola para a afastar do namorado agarrado à heroína e que foi inútil, pois ela acabou agarrada à heroína na mesma. Ou da Isabel, recém-chegada da África do Sul, completamente inadaptada a Portugal e revoltada por a mãe ter de andar limpar a dias. Ou do Nuno que pedia ao pai para o ir apanhar ao fim da rua para ninguém descobrir que o pai era preto. Ou da Susana, que gostava de Joy Division e andava sempre sozinha por causa da fama de puta, por já ter ido para a cama com uma data de rapazes.

Provavelmente era isto que ela queria dizer com “restos”. O meu 9º ano foi uma bolha de "restos". É que há bolhas onde precisamos de viver, para podermos rebentar outras.

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Bolhas

por Cristina Nobre Soares, em 12.06.19

Por estes dias toda a gente fala de bolhas. De viver em bolhas. 
Hoje, numa pequena viagem de comboio entre duas sedes de concelho do Oeste, que me obrigou a levantar às 6 da manhã por falta de horário (a mesma falta de horário no regresso que me faz ter tempo para "queimar" e escrever este post) vinha a pensar nisso. Talvez pelas poucas pessoas na carruagem. Talvez pelas estações fechadas pelas quais passei. Talvez por perceber que as pessoas de um certo meio social, não usem este meio de transporte, preferindo de longe, o carro, esse medidor do nosso sucesso financeiro. Talvez pelos eucaliptais e pinhais visivelmente abandonados (talvez os filhos e netos dos donos vivam na cidade e nem saibam que estes pinhais existam). Talvez pela carrinha de caixa aberta, onde vinha uma velha sentada, talvez para ir fazer qualquer coisa à vila, talvez fosse hoje dia de ir ao banco ou ao supermercado, e que nos acompanhou ao longo da linha durante uns metros. Talvez pela mulher no banco ao lado, a comer um pão com manteiga, enquanto falava baixinho ao telemóvel (um ainda daqueles com teclas). Talvez por tanta coisa. As bolhas rebentam-se. É fácil. Difícil é saber o que fazer e pensar depois de rebentá-las.

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Verónica

por Cristina Nobre Soares, em 10.06.19

Embirrava muito com a Verónica. Por ser uma sonsa, pela mania irritante em mexer no cabelo, fosse a fazer canudinhos com o dedo indicador, fosse a pô-lo atrás da orelha. Pelo risinho que parecia que lhe dava soluços pelo corpo todo, pela forma como pegava no cigarro, com o cotovelo apoiado na anca, por não pôr açúcar no café para não engordar, ao mesmo tempo que dizia que comia “imenso chocolate", por dizer que queria ser ortopedista e escrever poesia nos tempos livres. Mas ainda embirrava mais com o cão dela, um rafeiro mínimo de pêlo curto, estilo carpete, que rosnava aos tornozelos de toda a gente e que nunca devia ter feito uso das patas, porque a Verónica andava sempre com ele ao colo, dava-lhe muitos beijinhos na boca e fazia aquela voz parvinha que as pessoas fazem ao falar com os animais e com os bebés. A Verónica dava-me uma carga de nervos. Felizmente que não a tenho no Facebook.

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