Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Pelos cornos

por Cristina Nobre Soares, em 18.07.18

Sempre adorei ler. Era mesmo uma croma dos livros (ainda sou, mas na adolescência nota-se mais). Mas achei uma seca monumental quase todos os livros que dei nas aulas. Lia-os sempre depois e gostava. Incluindo os Maias, cujo 17 me foi dado pelos benditos cadernos Europa-América.
Digo quase todos, porque adorei os Lusíadas. Mas a minha professora de português do 9º ano era uma personagem. Falava daquilo com uma paixão tal, que Camões quase se tornou num herói para 28 adolescentes enfiados numa sala de aula de um pavilhão pré-fabricado. Era contratada. Nunca mais a vi. Disse-me uma vez, ao ver o meu ar desiludido com o 15 que dera a um texto meu, que se eu queria escrever tinha de perder o medo das palavras, que tinha de deixar de pegar nelas com as pontas dos dedos e agarrá-las à bruta. Pelos cornos, Cristina, pelos cornos.
Pena que não se perceba que a melhor pedagogia será sempre essa, da literatura à matemática: a paixão que agarra tudo pelos cornos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Um post um tudo-nada desiludido

por Cristina Nobre Soares, em 16.07.18

Ia começar a escrever um post um tudo-nada desiludido. E amargo. Iria usar uma personagem inventada, por aqui podemos mentir muito que ninguém dá por nada, uma amiga ou prima que nunca tive, até já tinha nome. Para que não pensassem que era sobre mim, que desabafar é uma coisa, falar sobre nós é outra completamente diferente e egocêntrica. Ia despejar o fel que não tive a coragem de despejar quando devia, sou daquelas pessoas a quem as melhores respostas ocorrem sempre depois da conversa. Ah, raios, devia ter-lhe respondido isto e aquilo, mas não, no calor da discussão só digo disparates. Também me ocorrem belíssimas respostas quando imagino as discussões, caso encontrasse a pessoa, no meio da rua, por exemplo. Tantas verdades afiadas eu lhe enfiaria pelo corpo dentro! E o meu ar frio e implacável? Que maravilha, sem titubear, sempre muito calma e alinhada, sem levar nada para casa. Sou extraordinária nas minhas discussões imaginárias.Um primor de eloquência. Nas reais, uma anedota.Resta-me, por isso, o consolo de inventar histórias com amigas e primas que nunca existiram.
Mas quando acabei de escrever este tal texto um tudo nada amargo e desiludido, pareceu-me idiota, tal como me parecem todas as minhas tiradas quando me passa a fúria. Tirando o nome que dei à personagem Maria do Céu. Ficou lindamente. Disse que era minha prima. A ver se o aproveito para outra coisa.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Querido Outono

por Cristina Nobre Soares, em 15.07.18

Querido Outono, 
Eu adoro-te. Mas esta relação está a ficar demasiado possessiva. Vamos dar um tempo?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pecados

por Cristina Nobre Soares, em 11.07.18

Há três dias que não se vê o sol, o céu sempre cinzento, hoje o dia passou ensopado numa chuva morrinha. Uma miséria, este tempo.

(Falar do tempo evita-nos embaraços, não nos faz perder a pose. Por isso este foi o post possível para não ter de falar de futebol, nem emitir opinião sobre as touradas ou uma qualquer outra indignação que por aqui corra. Ou queixar-me da vida, ninguém quer ouvir lamentos, os problemas alheios têm mau hálito, fazem-nos desviar a cara, que para desgraças já bastam as nossas. Glórias também não, é melhor ficarem para nós, que a vaidade é um pecado muito grande, porque se vê. Se é para pecar deve escolher-se um pecado que não se veja, como a inveja. Até para pecar é preciso decência. Sendo assim vou ficar aqui a invejar as vossas fotografias de férias, cheias de bom tempo. Raios vos partam.)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Esperança

por Cristina Nobre Soares, em 10.07.18

Leio que os 12 miúdos tailandeses e o treinador já estão a salvo. Ainda bem. Precisamos destas pequenas boas notícias, destes pedacinhos de humanidade para nos nortear. Que não nos iludamos, são os quase nadas que dão sentido à vidinha, que nos fazem compadecer e aproximar do que nos é estranho. A propósito dos miúdos tailandeses falei à minha filha sobre o episódio dos mineiros chilenos, ela ainda era muito pequena para se lembrar. Pediu-me que lhe contasse o que tinha acontecido e percebi que não me lembrava de quase nada. Mas contei-lhe a história do mineiro que tinha duas mulheres e que, quando ele foi resgatado, estavam cá fora as duas à espera, para ajustar contas. A minha filha riu-se, coitado, deve ter ficado com vontade de voltar para a mina. A esperança é, sem dúvida, uma criatura com um tremendo sentido de humor. Temo pelo dia em deixemos de saber rir.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Datas

por Cristina Nobre Soares, em 08.07.18

Sou um pavor com datas. Facilmente me esqueço do meu próprio dia de anos. A minha mãe liga-me sempre a avisar dos aniversários da família, já sei como és, por isso liguei-te, diz-me ela. Neste assunto o Facebook tornou-me uma pessoa muito mais sociável. Faço um brilharete à conta da funcionalidade dos aniversários. Mas, no outro dia, fintou-me: esqueci-me de dar os parabéns a uma grande amiga, que por uma mania qualquer não tem a data disponível aqui. Lá caiu por terra a minha imagem de pessoa extremosa. Mas que não se pense que eu não me lembro das pessoas. Lembro-me é a despropósito, sem data marcada nem tempo. Por exemplo, ontem, quando me ofereceram uma cerveja preta, lembrei-me do amigo que me apresentou o Ryuichi Sakamoto, que ainda hoje me faz companhia enquanto escrevo. E algures na semana passada perguntei-me o que seria feito da Anabela da minha turma de liceu, tinha um cão rafeiro, muito irritante, com um malha castanha no olho, igualzinho a um que passou por mim, enquanto eu atravessava o parque. A Anabela fazia anos em Janeiro. Não me lembro em que dia. Mas lembro-me que ela me dizia que sentia que tinha nascido para viver um grande amor. Tomara que o tenha encontrado.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A solidão é sempre real

por Cristina Nobre Soares, em 05.07.18

Podemos escrever quilómetros de posts a queixarmo-nos, a apontar todos os malefícios do Facebook, mas o que é certo é que, para quem cá anda, ele faz parte das nossas vidas.

Podemos dizer que é uma forma de nos alienarmos, um sítio de felicidade e beleza postiça, de amores eternos que duram o tempo de um post, que nos afasta da vida real, do contacto humano, que nos tira a memória, onde nunca somos nós, apenas uma persona construída em função dos likes. Que há quem use só para coscuvilhar a vida alheia, quem use só para mandar remoques e indirectas. que cara-a-cara ficariam no eterno silêncio.

Pode ser tudo isso. Mas só é porque é alimentado por pessoas. Pessoas. Que sempre quiseram ser mais bonitas, mais felizes, profissionais de sucesso, pais orgulhosos, filhos resolvidos, poetas geniais, opinadores considerados, pessoas mais cultas, de extremo bom gosto musical e literário, fotógrafos inspirados. Ou apenas pessoas menos sós. Que a solidão não se compadece do virtual. É sempre real.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Encontros

por Cristina Nobre Soares, em 03.07.18

 

Diz-me que se encontrou no silêncio do campo, que se conectou com a natureza. Que depois de andar perdido dele próprio no cinzento da vida da cidade, nos dias formatados pela pressão da sociedade, que se encontrou aqui, onde as coisas são mais simples e o tempo demora mais. Diz ele. Que se despojou de tudo o que era supérfluo e abraçou a graça de uma vida simples. Engraçado, dantes as pessoas procuravam Deus na simplicidade das coisas e as epifanias aconteciam quando o encontravam. Diziam elas. Havia quem se curasse de melancolias, prostrações e maleitas várias (até cegueiras!) por pressentir o criador. Depois de lhes ser concedida essa graça também se despojavam dos bens terrenos. Agora procuram-se a elas para se curarem da própria humanidade. Talvez sejamos pequenos deuses amaldiçoados com a morte. Pergunta-me se eu, que cá vivo já há tantos anos (para as pessoas da cidade, o campo é um “cá” muito vasto), não me sinto mais ligada, mais eu. Digo que não, até porque a fé que tenho em mim sempre foi muito fraquinha. Sou uma herege de mim própria. Com alguma tendência para a blasfémia. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Casas

por Cristina Nobre Soares, em 01.07.18

No caminho para o café reparo numa casa que ao corpo principal, quatro águas muito velhas, lhe foram acrescentados vários anexos, dando-lhe uma forma estranha. São casas labirínticas, onde um quarto pode ter uma porta, que dá para umas escadas que nos levam até a uma casa de banho, ou onde as salas, expandidas com chão de tijoleira falsa e janelas de alumínio, podem ter degraus de pedra gasta que antes davam para a porta da entrada. Também podem ter paredes interiores que conservaram os nichos que tinham quando davam para a rua. Lembro-me de uma parede assim, algures da minha infância, ondulada de tantas camadas de cal e sempre fria da humidade. No nicho havia uma Nossa Senhora de Fátima, com uns três palmos que brilhava no escuro, e me metia metia muito medo. Eu atravessava esse quarto a correr, de olhos fechados. Acho que dava para outro quarto.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A minha secretária

por Cristina Nobre Soares, em 28.06.18

Arrumo a secretária, coisa que raramente faço. Na secretária onde trabalho, que é enorme, de madeira de cerejeira, mora um caos quase permanente de cadernos, livros, canetas, correspondência, canecas de chá esquecidas. Comprei-a há muitos anos numa loja de móveis muito pequena, tão pequena quase não nos conseguíamos mexer lá dentro, e que hoje é uma loja de artigos esotéricos e de cristais. Os donos, um casal do Norte, fizeram um desconto muito grande, dizendo que não a conseguiam vender por ser grande demais. Tem inclusive gavetas para guardar CDs que, obviamente, não uso há muito tempo, tanto que entretanto a madeira inchou e já não se conseguem abrir. Tem também um compartimento para uma torre, cuja parte de trás teve de ser furada, para que passassem os cabos, por um marceneiro a quem faltavam dois dedos na mão esquerda e a cabeça do polegar da direita. Tem aqui uma secretária para a vida, disse-me, e aconselhou-me a passar óleo de cedro de vez em quando. Adoro o cheiro do óleo de cedro, tanto que às vezes abuso na quantidade que ponho, era assim que ficava a cheirar a casa depois da minha mãe fazer as limpezas grandes. A óleo de cedro e a Pó Vim.



Ficou um mimo depois da arrumação. Lá fora, o céu embrulha-se num cinzento que anuncia chuva e o carvalho agita-se. O vento está feio.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D

GA



google-site-verification: googledeb34756365df053.html