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Senta-te aí

por Cristina Nobre Soares, em 17.01.20

-Senta-te aí.

Levanto a cabeça do telemóvel. À minha frente uma mulher cansada, de cabelo pigarço, com o ondulado crespo muito agarrado à cabeça.

- Senta-te aí.

Ordena ela de novo a um homem com a camisa mal presa nas calças e as mãos encolhidas como se a enfiarem pelo peito adentro. Deve ser tontinho, a minha mãe a dizer naquela piedade, meio aliviada pela sanidade dos seus, meio a esconjurar o medo. Vá, anda, deve ser tontinho, eu miúda e a minha mãe a apertar-me a mão na paragem do autocarro, não olhes, deixa o estar, deve ser tontinho, não sabe o que diz, o homem a berrar coisas sem sentido, cheias de palavrões e cuspo seco e branco aos cantos da boca, não olhes, anda, não ligues, não sabe o que diz, a ver se ele não atravessa a rua, raio do autocarro que não chega, que coisa, não ligues, deve ser tontinho.

O homem ao meu lado diz qualquer coisa que não se percebe.

- Deixa-te estar aí.

Pergunto à mulher do cabelo crespo se se quer sentar. Diz-me que não, obrigada.

Chamam o meu número e levanto-me. Embora haja gente em pé, ninguém se senta no lugar que deixei vago. Até que a mulher do cabelo crespo pousa a mala na cadeira, mais os envelopes dos exames e o casaco que trazia pendurado no braço. A compor o vazio. O homem não diz nada, não se mexe. Mesmo assim ela diz-lhe:

- Deixa-te estar aí.

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Noutros assuntos:

por Cristina Nobre Soares, em 15.01.20

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Sabe explicar de uma forma simples o que é uma molécula? Ou uma gimnospérmica? Ou um macroinvertebrado?

Comunicar ciência para fora do meio científico não é uma tarefa fácil: a linguagem usada “entre pares” é difícil de perceber e a falta de um fio narrativo pode tornar os temas pouco interessantes e demasiado complicados. E facilmente se perde a oportunidade de passar uma mensagem que é importante para todos nós. Comunicar ciência de forma clara e acessível pode ser o caminho que nos leva a uma ciência para todos."

 

Como não há 2 sem 3, aí vem a 3ª edição do  curso "Comunicar Ciência Clara" no Instituto Superior de Agronomia (sim, dado por mim).

Mais informações, programa e inscrições em: https://fenix.isa.ulisboa.pt/degrees/clccc

Ide, inscrevei-vos! Que eu lá vos espero ;)

 

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Mini azul

por Cristina Nobre Soares, em 12.01.20

Descemos as escadas até à estrada e espreitámos para dentro do edifício novo. Está fechado, disse-me ele e eu, a propósito de nada, ou talvez por ter passado um Mini azul, dos antigos, em tudo igual ao primeiro carro de uma grande amiga minha, no qual demos grandes passeios até ao Guincho e fizemos imensos planos que nunca se concretizaram, contei-lhe um episódio que nunca lhe tinha contado. Acho que vou precisar de uma vida inteira para te conhecer, disse-me ele. E eu, em tom de provocação, respondi-lhe, por detrás da estridência do sino das cinco da tarde, uma vida inteira é uma unidade de medida muito curta. Acho que não me ouviu, pois respondeu-me comentando o frio que da tarde, que realmente assentava bem e nos fez encolher nas golas dos casacos grande parte do caminho, e eu, agora pensando bem, acho que o Mini da minha amiga era de um azul mais escuro, mas a memória é aquilo que fazemos dela

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Lembrar com irmãos

por Cristina Nobre Soares, em 11.01.20

É bonito lembrar com irmãos. Não há uma história única, mas sim uma memória, ou uma verdade, com vários corpos. Os nossos corpos. Cada um deles marcados com amor, dores, raiva, alegrias, ressentimentos diferentes. Tão diferentes que por vezes nem os espaços em que vivemos nos parecem iguais. Lembrar com irmãos é perceber que nesta vida não afirmamos nada. Apenas, talvez, possamos acrescentar.

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Números imaginários

por Cristina Nobre Soares, em 05.01.20

Vim sentar-me cá fora. À hora em que as nossas sombras ficam maiores que a gente, como ouvia dizer a uma vizinha que morava duas casas abaixo de uma tia minha e que se vinha sentar, enquanto cortava a hortaliça da sopa para dentro de um alguidar, nos degraus de pedra à entrada da casa, por entre os vasos de sardinheiras e hortênsias que faziam o lugar do gradeamento.

(Os meus vizinhos da última casa brincam com a filha que já anda. E eu comento para dentro, sem saber se me ouvem, a bebé da casa do fundo já anda, isto passa a correr, caramba.)

E já estamos noutro ano, diria essa minha tia, duas casas acima da vizinha dos degraus de pedra e dos vasos de sardinheira, má raça do tempo, que ainda ontem tinha a vossa idade e num instantinho fiz-se-me velha. Fico a empreender nessa coisa do tempo e na discussão que vai no meu mural sobre se afinal começou a década ou se começa para o ano, se há ano zero ou não há.

(Os meus vizinhos entraram em casa.)

Lembro-me da vez em que o meu irmão me explicou que havia números “atrás” do zero, no Verão antes de eu entrar para o ciclo. Puxou de uma folha e traçou uma linha com um zero no meio. À direita os números que conhecia, até a uns pontinhos a fazer de infinito. À esquerda os mesmos números mas com um menos à frente. E os mesmos pontinhos a fazer de infinito. Não fiques tão espantada, um dia vais aprender que existem muitos mais e uns que até se chamam números imaginários. Lembro-me que não percebi muito a explicação dos números negativos que o meu irmão me deu, mas achei formidável na mesma.

(Estou cá fora, grito para dentro, ao “Onde estás?”, vindo do corredor.)

O céu ficou púrpura. É sinal que amanhã está bom, diria a tal vizinha das sardinheiras. Já nem sequer há sombras no chão. Mas já se notam os dias. Janeiro fora uma hora, ela com alguidar encaixado na anca, o pé a travar a porta e a faca de cabo de madeira na outra mão, e quem bem procurar mais meia hora há-de encontrar.

(E antes dos números imaginários ainda vieram os irracionais, penso, antes de entrar em casa.)

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Casa

por Cristina Nobre Soares, em 18.12.19

Não havia sinos, não havia missa, não havia chaminé, só uma lareira a fingir, que era um bar onde se guardavam as bebidas e as bases para os copos. Não havia avós nem outras crianças. Não havia ranger de tábua corrida, nem o frio da pedra nos pés, nem portadas de madeira nas janelas, nem cheiro antigo de casa, nem silêncio na rua. Não havia cheiro a pinho, nem a musgo, nem a fumeiro. Havia uma carpete de flores, em cima dessa carpete, ao canto da casa de jantar, uma cadeira de costas altas, ao lado dessa cadeira uma janela que dava para varanda, que por sua vez dava para a praceta. Nessa janela havia a ponta do meu indicador a desenhar na humidade do vidro uma memória que me ficou para além de todos os reflexos da casa.

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Crueldade

por Cristina Nobre Soares, em 02.12.19

Às vezes, acho que a nossa humanidade se resume a uma luta permanente, desde o momento em que tomamos consciência de nós, contra o instinto da crueldade. Sendo a esta, em todas as suas manifestações, mesmo a mais ínfima, a que chamamos mesquinhez, uma estranha evolução do medo como ferramenta de sobrevivência.

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Reflexo

por Cristina Nobre Soares, em 28.11.19

No outro dia, olhei-me ao espelho e vi a minha mãe. Passava pelo corredor quando a vi reflectida num dos espelhos, por cima do aparador. As minhas rugas na testa são iguais às dela, arqueiam muito quando algo não é do nosso agrado. Passei-lhes as pontas dos dedos (que já as sinto com as pontas dos dedos). Quando eu era criança a minha mãe já era uma mulher no fim dos seus quarenta anos, principio dos seus cinquenta e eu tinha a certeza que iria demorar uma eternidade a chegar à idade dela. Era a mais velha de todas as mães da minha escola, uma vez perguntaram-me se era minha avó e eu fiquei triste por acharem a minha mãe tão velha. Esses 41 anos que nos separam nem sempre nos facilitaram a vida, especialmente durante a adolescência. Há uma grande incompreensão entre duas margens de tempo tão distantes.
Ficámos as duas frente-a-frente. A minha mãe será sempre mais bonita e eu tenho este torcer de boca irónico do meu pai. Mas estou muito parecida com ela, sim. Envelhecer é também tornarmo-nos numa espécie de reflexo dos nossos pais.

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Ficou tudo como estava

por Cristina Nobre Soares, em 25.11.19

Ele interrompia-a sistematicamente. Falava por ela. Outras vezes, desmentia-a em público. Era brusco, agressivo.

“É a maneira dele ser”, diziam-me. “No fundo é boa pessoa, e gosta muito dela, tem é aquela maneira de falar.”

Ela era submissa. A última palavra era dele. Não fazia nada sem lhe perguntar ou pedir autorização.

“Cada um sabe de si”. “Há mulheres que são felizes assim.”

Uma vez, ela atrasou-se. Ficou numa aflição inexplicável. A mim pareceu-me medo.

“Estás a ver coisas onde não existem.”

Outra vez ele gritou-lhe, daquele gritar de quem manda sempre, de quem humilha. E baixou a voz quando viu que eu os observava.

“Estás a ver coisas onde não existem.”
“Não te metas."

E eu não me meti.
Nem ninguém se meteu.
Ficou tudo como estava.

#DiainternacionalpelaEliminaçãodaViolênciacontraaMulher

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Pequenas coisas absurdas

por Cristina Nobre Soares, em 22.11.19

Uma vez, alguém confessou-me que, numa altura em que vivera longe de casa, as saudades eram tantas que nunca desfazia a mala, deixando-a aberta entre Verões, altura em que vinha de visita. Assim, parecia que faltava pouco para voltar a casa, disse-me. Lembrei-me de uma casa onde vivi, perfeita, quase de revista, na qual nunca pus fotografias nas molduras. As quais não chegaram a sair da gaveta. Havia uma mesmo ainda embrulhada no papel de seda. Essas molduras foram as primeiras coisas que tirei dos caixotes quando aqui cheguei. Escolhi três fotografias nossas e pu-las em cima da lareira, ainda com a sala completamente vazia. No fundo, sabemos perfeitamente quando estamos de passagem e quando finalmente chegámos a casa. Mas precisamos de pequenas coisas absurdas que, ao nos darem a ilusão de poder controlar alguma coisa, nos fazem suportar a espera.

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