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Brincadeiras

por Cristina Nobre Soares, em 18.02.19

Uma vez, deram-me um serviço de chá de brincar. As chávenas eram amarelas-torradas e os pires eram vermelhos. Agora já podes tomar chá com as tuas bonecas, disseram-me. Acho que nunca o fiz. Chá com bonecas pareceu-me ser uma brincadeira muito aborrecida. Em vez disso montei uma pastelaria: voltei as chávenas ao contrário, a fazerem de bolos e os pires a fazerem de bolachas de morango. As chávenas nem eram bolos, eram “buns" como os que a padeira dá à Sarah na “Princesinha”. Eu não sabia como seria um “bun”, só que era um bolo que comiam em Inglaterra, mas, também não interessava, porque na minha pastelaria, onde dois bancos de cozinha faziam de balcão, eram amarelos-torrados. Depois embrulhava-os em folhas de revistas velhas e dizia aos meus clientes imaginários: não os aperte muito, que ainda estão quentes e depois perdem a graça, que era o que o senhor Luís dizia quando lhe comprávamos arrufadas. Gostava tanto, tanto, desta brincadeira!
(Lembrei-me disto hoje, a propósito de uma discussão acesa sobre brinquedos para meninas e brinquedos para meninos. Deixem os miúdos em paz, eles lá sabem da vida deles.)

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Surdina

por Cristina Nobre Soares, em 14.02.19

Hoje de manhã, no café, havia um silêncio quase absoluto, quebrado apenas pela mulher, de cabelo ralo, que lamentou não lhe ter saído nada na raspadinha. O silêncio era tal que me chamou a atenção o som do vento na cortina de fitas. E a sombra riscada que fazia no chão. Algumas das cozinhas da minha infância tinham cortinas de fitas e degraus de pedra que cheiravam a sabão. Lá dentro havia penumbra, para que o sol da tarde não aquecesse a casa. Cá fora havia um tanque, que às vezes era só um alguidar, onde brincávamos com a água. E a minha prima cantava em surdina sempre a mesma canção sem palavras.

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A lida da casa não é igual todos os dias

por Cristina Nobre Soares, em 13.02.19

A mãe do meu vizinho chega a meio da manhã. Vem a pé, traz um casaco azul, que parece um roupão (pergunto-me se não será mesmo um roupão), por cima de uma roupa de trazer. Vem fazer-lhes a lida da casa, estende-lhes a roupa, põe as toalhas de banho e os cobertores a apanhar sol, abre as janelas para arejar. Isto é o que vejo. Lá dentro, imagino que talvez lhes deixe o jantar feito, uma carne estufada, guardada dentro de um pirex com malmequeres, ao lado da panela da sopa da menina. A roupa passada e dobrada em cima da cama, os brinquedos apanhados do chão, os vincos da coberta esticados com a palma da mão. Depois sai, tranca a porta, ajeita com o pé o tapete da entrada, rega os vasos de sardinheiras com a garrafa de água que traz na mão, na outra o saco do lixo para deitar no contentor e sobe a rua, de casaco azul, que parece um roupão (desconfio que seja mesmo um roupão), por cima da roupa de trazer. Às vezes cruza-se com o carteiro. O que significa que a mãe do meu vizinho, que chega sempre à mesma hora, não tem hora certa para se ir embora. A lida da casa não é igual todos os dias e com crianças, ainda pior.

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Plátanos

por Cristina Nobre Soares, em 10.02.19

Entrei na igreja velha. Foi a primeira vez que o fiz, apesar de passar por ela todos os dias, a caminho do café. Só a abrem de vez em quando desde que construíram a igreja nova, um edifício de linhas modernas muito feias, ao cimo da vila. Sou uma reaccionária no que diz respeito a igrejas, nunca achei piada a igrejas modernas. Parecem-me tribunais ou repartições com um sino. Gosto de igrejas velhas, cheias de talha dourada e azulejos a ilustrarem o sacrifício de mártires. Mas, geralmente, fico só para ver as pessoas. Mulheres, a maior parte das quais, velhas. Algumas sentadas, outras ajoelhadas. Mas todas com ar de esperarem alguma coisa. A fé é uma forma de espera, talvez. Esta, por estar vazia (só a voz de uma catequista, que não percebi de onde vinha) não me ofereceu interesse nenhum. Continuei o meu caminho até ao café, a pensar na confusão eterna que as pessoas fazem com os plátanos, bordos e liquidâmbares. É normal. No tempo em que as árvores me pareciam todas iguais, também chamava plátanos a tudo, inclusive à que surge na bandeira do Canadá, que não é uma folha de plátano, mas sim de bordo.

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Aviões

por Cristina Nobre Soares, em 08.02.19

Vinha às terças e quintas-feiras, das seis às sete da tarde. Chamava-se Luís, curvava-se de magreza num corpo desajeitado pelos dezasseis anos. Ele tem muitas dificuldades no inglês, mas é um sobredotado a história, dizia a mãe. É um prodígio a decorar datas, diz lá algumas à Cristina para ela ver, vá anda, é um prodígio, decora tudo o que é datas, ele agora está assim encolhido, mas devia ver, decora tudo, vá, diz lá algumas, que idade tão parva esta valha-me Deus. Para as línguas é que é uma dificuldade, anda, desencolhe-te que assim a Cristina ainda pensa que és parvinho. Ele baixava a cara cheia de acne e agarrava um dos braços. Tinha uns olhos muito escuros e mortiços e meia dúzia de pelos em cima dos lábios. Sentava-se ao meu lado, com um cheiro excessivo a água de colónia ou perfume, que me fazia uma tremenda dor de cabeça e só falava para responder às minhas perguntas, sem nunca me olhar de frente. Falámos uma única vez. O que é gostas de fazer? Perguntei-lhe. Aviões, respondeu-me. Gosto de aviões. Gostavas de pilotar aviões? Não, respondeu-me. Gosto de os ver. Faço colecção. As explicações são um esforço grandote nas nossas contas, mas tem que ser, para ver se ele levanta estas notas, que ele quer ir para direito, não é Luís? Anda, responde, não sejas atado, que a Cristina ainda pensa que és tonto.
(Acabou o ano com 14 a inglês e trouxe-me um avião pequenino, daqueles de brincar, no último dia da explicação. Dura mais do que flores ou aquelas coisas que é costume dar, disse-me. Esteve muito tempo pousado na minha escrivaninha. Perdi-lhe o rasto quando me vim embora de Lisboa.)

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Para quem é que falamos?

por Cristina Nobre Soares, em 08.02.19

Ontem, depois de uma conversa tardia (e muito interessante) sobre esta coisa da comunicação de ciência, fiquei a pensar que talvez um dos problemas seja o facto de não falarmos tanto para que os outros nos percebam mas mais pela satisfação de nos ouvirmos. Talvez a pergunta honesta que tenhamos de fazer, antes de dizer ou escrever algo, seja: 
Estou a dizer isto para transmitir uma ideia ou para mostrar que sei muito sobre essa ideia, que sou um especialista?

Não é fácil, é verdade. Exige algum despojamento (e a consciência de que não somos donos do conhecimento. Imaginem que alguém se achava dono do alfabeto. Era capaz de ser um problema.).

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Opressão

por Cristina Nobre Soares, em 05.02.19

Em sociologia rural falávamos sobre os crimes de água ou de terra. Alguém, insuspeito, sem nada a assinalar no comportamento até então, um dia enfiava uma enxada pela cabeça abaixo de outro, por causa de uma linha de água ou de uma extrema. Depois, entregava-se à guarda. Na terra nunca seria considerado um assassino, mas sim alguém que se “desgraçara”. Como se houvesse uma normalização da morte e da violência, desculpada por um qualquer sentimento de posse (onde a posse se confunde facilmente com honra). Só defendeu o que era dele, diriam na terra. Até porque uma terra sem dono não é nada, não vale nada, não existe. É essa posse que lhe dá sentido. Um homem é dono da sua terra e da sua água, mas também da sua mulher. A mulher é apenas mais uma posse, um nome num papel do notário ou da igreja. Nada mais. Uma mulher sem dono, tal como um pedaço de terra, uma casa, um animal, não é nada. Pode morrer às mãos do seu dono, o qual todos mais tarde comentarão que era boa pessoa, que se toldou num mau momento, que deu cabo da vida dele. Sobre ela dirão que foi o destino. Que é o outro nome que se dá à opressão.

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O Facebook tem dias que cansa

por Cristina Nobre Soares, em 31.01.19

O Facebook tem dias que cansa. Como cansa o mesmo café de sempre, as mesmas conversas de sempre, o mesmo lugar à janela, a mesma bica em chávena escaldada, a mesma rua, os mesmos 43 minutos de caminho até ao trabalho, mais os outros tanto de regresso, talvez um bocadinho mais por causa da rua que está sempre em obras, a mesma vizinha à janela, o mesmo telefonema a saber como estamos, a mesma hora de acordar, a mesma deitar, o leite morno ou mesma intolerância à lactose, as mesmas ideias brilhantes, os mesmos incómodos, a mesma anedota, a mesma história de infância, as mesmas piadas politicas, as mesmas crises, a mesma queixa, a série de sempre, o filme de culto, a mesma música, a mesma camisola com borboto, o mesmo bife mal passado, a mesma salada sem vinagre, só com as mesmas 2 ou 3 gotas de limão. É isso, deve ser o Facebook que cansa.

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Sorte

por Cristina Nobre Soares, em 29.01.19

Hoje está um dia de chuva e de vento cheio de folhas dos carvalhos híbridos que moram no terreno da frente. Em dias assim, na primária, a professora mandava-nos para a rua na mesma, a chuva não morde, dizia ela. Ficávamos abrigados debaixo do telheiro, que era demasiado estreito para as brincadeiras. O pátio ficava vazio, só a mãe do Nuno Luís aparecia do outro lado do portão, como aparecia todos os dias, para lhe trazer o lanche, com pão acabado de comprar na padaria. Era um mimado, mas nós perdoávamos-lhe porque ele tinha ficado sem pai, que morrera num acidente para os lados de Aveiras. Morte instantânea, comentavam as mães, mas deixou um belo seguro de vida à mulher e ao filho, apesar da desgraça, ficaram bem. Às vezes, em voz mais baixa, também diziam que a mãe do Nuno Luís tinha tido era sorte, porque o marido lhe batia e não a deixava sair de casa. Pessoas daquele nível, ele licenciado, ela vê-se que teve berço e, vai-se a ver, a miséria era pior que a da gente desgraçada. Foi o melhor que lhe podia ter acontecido, agora até remoçou, pode refazer a vida dela. Havia uma crueldade enorme nesta sorte, que mais do que uma sorte era um alívio. Vá, corre, não te molhes, gritava a mãe do Nuno Luís, quando ele voltava do portão com o lanche. Não te molhes, nem caias, meu anjo. Ele corria e, ao chegar ao telheiro, destapava a cabeça para lhe mostrar que não se tinha molhado. Talvez a sorte seja isso: uma sensação de alívio perante a vida.

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Segunda

por Cristina Nobre Soares, em 28.01.19

Dois cafés depois de acordar, ainda mais cedo que é costume, para fazer a última revisão de um trabalho que fiquei de enviar hoje. Ele sai com a miúda, digo até logo (será que disse?), relembro o que combinámos à tarde, envio o trabalho, a miúda do lado faz uma birra, reparo que vai estar de chuva outra vez, não há pássaros, é Segunda-feira e custa-me o cedo da manhã.

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