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Crueldade

por Cristina Nobre Soares, em 02.12.19

Às vezes, acho que a nossa humanidade se resume a uma luta permanente, desde o momento em que tomamos consciência de nós, contra o instinto da crueldade. Sendo a esta, em todas as suas manifestações, mesmo a mais ínfima, a que chamamos mesquinhez, uma estranha evolução do medo como ferramenta de sobrevivência.

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Reflexo

por Cristina Nobre Soares, em 28.11.19

No outro dia, olhei-me ao espelho e vi a minha mãe. Passava pelo corredor quando a vi reflectida num dos espelhos, por cima do aparador. As minhas rugas na testa são iguais às dela, arqueiam muito quando algo não é do nosso agrado. Passei-lhes as pontas dos dedos (que já as sinto com as pontas dos dedos). Quando eu era criança a minha mãe já era uma mulher no fim dos seus quarenta anos, principio dos seus cinquenta e eu tinha a certeza que iria demorar uma eternidade a chegar à idade dela. Era a mais velha de todas as mães da minha escola, uma vez perguntaram-me se era minha avó e eu fiquei triste por acharem a minha mãe tão velha. Esses 41 anos que nos separam nem sempre nos facilitaram a vida, especialmente durante a adolescência. Há uma grande incompreensão entre duas margens de tempo tão distantes.
Ficámos as duas frente-a-frente. A minha mãe será sempre mais bonita e eu tenho este torcer de boca irónico do meu pai. Mas estou muito parecida com ela, sim. Envelhecer é também tornarmo-nos numa espécie de reflexo dos nossos pais.

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Ficou tudo como estava

por Cristina Nobre Soares, em 25.11.19

Ele interrompia-a sistematicamente. Falava por ela. Outras vezes, desmentia-a em público. Era brusco, agressivo.

“É a maneira dele ser”, diziam-me. “No fundo é boa pessoa, e gosta muito dela, tem é aquela maneira de falar.”

Ela era submissa. A última palavra era dele. Não fazia nada sem lhe perguntar ou pedir autorização.

“Cada um sabe de si”. “Há mulheres que são felizes assim.”

Uma vez, ela atrasou-se. Ficou numa aflição inexplicável. A mim pareceu-me medo.

“Estás a ver coisas onde não existem.”

Outra vez ele gritou-lhe, daquele gritar de quem manda sempre, de quem humilha. E baixou a voz quando viu que eu os observava.

“Estás a ver coisas onde não existem.”
“Não te metas."

E eu não me meti.
Nem ninguém se meteu.
Ficou tudo como estava.

#DiainternacionalpelaEliminaçãodaViolênciacontraaMulher

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Pequenas coisas absurdas

por Cristina Nobre Soares, em 22.11.19

Uma vez, alguém confessou-me que, numa altura em que vivera longe de casa, as saudades eram tantas que nunca desfazia a mala, deixando-a aberta entre Verões, altura em que vinha de visita. Assim, parecia que faltava pouco para voltar a casa, disse-me. Lembrei-me de uma casa onde vivi, perfeita, quase de revista, na qual nunca pus fotografias nas molduras. As quais não chegaram a sair da gaveta. Havia uma mesmo ainda embrulhada no papel de seda. Essas molduras foram as primeiras coisas que tirei dos caixotes quando aqui cheguei. Escolhi três fotografias nossas e pu-las em cima da lareira, ainda com a sala completamente vazia. No fundo, sabemos perfeitamente quando estamos de passagem e quando finalmente chegámos a casa. Mas precisamos de pequenas coisas absurdas que, ao nos darem a ilusão de poder controlar alguma coisa, nos fazem suportar a espera.

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Ontem, fomos ver o acender das luzes de Natal. Estava uma imensidão de gente à volta da praça principal. Muita gente a fazer ao mesmo tempo o que toda a gente faz. Por cima de nós, numa varanda de um primeiro andar, estava uma mulher, de meia-idade (que é o que dizemos quando não sabemos dizer se pessoa é nova ou velha), sozinha, embrulhada num xaile de lã grená. A minha filha invejou-a, disse que ela é que via bem o concerto e o acender da árvore e sem sair na casa dela, já viste? Olhei-a e achei-a sozinha. Sim, claro, não é por uma pessoa estar sozinha numa varanda que se torna numa pessoa só. Mas a maneira como ela não se encosta ao parapeito, como as luzes de dentro não estão acesas, como a porta está descuidadamente aberta deixando o frio entrar, como alguém nunca olha para dentro, nem para as pessoas cá em baixo procurando uma cara conhecida, construiu-me uma solidão tão grande que me distraiu do acender das luzes. Olha, a árvore este ano está mesmo bonita, disse a minha filha. É verdade, disse-lhe eu. E a mulher aconchegou-se no xaile.

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Não me habituo

por Cristina Nobre Soares, em 10.11.19

Passo quatro meses a tentar habituar-me às noites maiores. Perante os meus lamentos dizem-me, é assim todos os anos, já devias estar habituada. Mas não me habituo. Todos os anos é o mesmo desconforto, a mesma melancolia e, desconfio, uma inexplicável desilusão.
Ontem, contaram-me mais uma história de discriminação. Que não foi por causa da cor da pele, nem da nacionalidade, nem do género da pessoa que a sofreu. Foi por causa do estrato social a que essa pessoa pertence. Das suas origens. Por não querer parecer aquilo que não é. Uma pessoa com capacidade de trabalho e com talento, impedida de progredir por não corresponder ao estereótipo de um grupo social.
Dizem-me, o mundo é assim, sempre houve elites que trancam as portas aos que consideram ser menos, já devias estar habituada. Mas não me habituo. Sempre que me confronto com isto é o mesmo desconforto, a mesma melancolia e, desconfio, uma inexplicável desilusão.

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Pequeno aviso à navegação

por Cristina Nobre Soares, em 06.11.19

A partir de hoje também estarei por aqui: https://estradaparadamasco.blogs.sapo.pt/

Se gostarem desta coisa da comunicação de ciência, da ciência para todos, espreitem ;)

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And now for something completely different:

por Cristina Nobre Soares, em 29.10.19

Se a história da Branca de Neve fosse um abstract de um artigo científico (sim, o meu trabalho é um coisa muito peculiar):

Tem-se comumente observado que alguns monarcas em estado de viuvez apresentam alguma propensão para casar com indivíduos do sexo feminino portadores de distúrbios narcísicos, os quais, com elevada frequência, afectam a socialização com enteados. Em Grimm & Grimm (1822) são observados alguns desses comportamentos, que podem ser considerados, segundo estes autores, como patologia extrema, especialmente os relacionados com o enviesamento do reflexo da sua própria imagem.
Neste trabalho foi observado que o convívio com um número primo de indivíduos portadores de nanismo pode, por si só, constituir uma terapia provisória para os enteados rejeitados. Igualmente, observou-se que o consumo de certas variedades de pomóideas submetidas previamente a manipulação química, pode induzir estados narcolépticos, os quais apenas passíveis de serem quebrados através de troca de fluidos salivares entre um individuo de sexo masculino e outro do sexo feminino.

#comunicaçãodeciência

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Medos portugueses

por Cristina Nobre Soares, em 27.10.19

Há vários medos que fazem isto de ser português: o medo de ser feito de parvo talvez seja o maior. Depois, o medo de arranjar chatices, que isto toda a gente se conhece. O medo de parecer mal e daquilo que os outros possam dizer. O medo de dar com os burrinhos na água e por isso deixa-te estar quieto, não te envergonhes. E o medo de parecer provinciano, pacóvio, saloio. Que é um medo que, no fundo, junta os outros todos.

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Ideias feitas

por Cristina Nobre Soares, em 21.10.19

Há quem ache que todas as louras são burras. Que todos os betos são arrogantes. Que todas as mulheres vaidosas são fúteis. Que todos os intelectuais são presumidos. Que todos os adolescentes são melodramáticos e infantis. Que a malta nova nunca sabe o que quer. Que quem é velho já não aprende nada.Que quem não vive na cidade nunca viu o mundo. Que uma investigadora pós-doutorada não pode gostar de trapos. E que quem gosta de trapos nunca terá cabeça para ser investigadora. Que quem lê Thomas Mann não vê concursos de televisão. Que quem ouve Antena 2 não ouve música pop. Que quem nunca viajou não tem horizontes. Que quem viaja muito é muito culto. Que toda a gente de esquerda tem mente aberta. Que toda a gente de direita é elitista. Que todos os católicos são beatos. Que todos os ateus são inteligentes. Que quem é de ciências não se interessa por literatura. Que quem foi para letras não sabe o que é uma tangente. Que quem é do Norte troca os vês pelos bês. Que todos os açoreanos têm sotaque de S.Miguel. Que quem é gordo não tem força de vontade. Que quem é magro não come alheiras. Que quem tem uma depressão é porque pode. Que quem se ri muito é tonto. Que quem é muito sério é básico. Que quem não tem filhos é egoísta. Que quem tem seis é inconsciente. Que quem tem dois é igual a toda a gente. Que quem faz muitos posts no Facebook é porque não faz mais nada. Que quem não faz é porque tem a mania. E que quem tem ideias feitas são sempre os outros, nunca eu.

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