Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Balancete

Cristina Nobre Soares, 02.02.21






Cat Stevens na playlist, uma chávena de um chá estranho de hibisco e cereja, uma noite mal dormida, três cafés, um trabalho em atraso, um curso a começar daqui a umas horas, uma grande vontade de sair do ruído, alguns quadrados de chocolate a mais, um melro, um chapim-azul, mais uns tantos pássaros que não faço ideia do que sejam, a minha vizinha que veio contar que andam a destruir um ninho de vespas, uma miúda a passear o cão, menos trezentos e menos não sei quantos mais dias à espera que isto melhore, dois livros a meio e mais nada para dizer.



“I listen to my words but they fall far below”












 


 




Espera

Cristina Nobre Soares, 28.01.21
No outro dia, depois de eu pagar as compras, a rapariga da caixa puxou de um caderno e uma caneta e perguntou-me:

- Se definisse este ano que passou numa única palavra qual era? É para um trabalho que ando a fazer.

Respondi sem hesitar.

- Espera. A palavra seria espera.

Ela apontou e olhou para mim.

- É verdade. Andamos todos à espera que isto passe não é?

- É.

Peguei nos sacos e saí. Fui a pensar até ao carro que não me referia apenas à espera das coisas grandes e importantes, de que todos esperamos. Claro que todos esperamos que cheguem as vacinas, que baixem os números, que a tal normalidade volte. Que "isto passe". Falava também das inúmeras insignificâncias que adiámos. Listei de memória todas as pequenas coisas que deixei suspensas neste ano que passou. Algumas nem eu sabia que existiam, ou se calhar sabia, mas temos este pudor (ou pensamento mágico) de achar que só os grandes problemas devem ser verbalizados e esquecemo-nos que são sempre as pequenas coisas que nos salvam a normalidade. Como se a moralidade das grandes coisas fosse a nossa salvação. Ah, coitados dos que acreditam nisto.

No meio da tal lista, que fui fazendo de regresso a casa, lembrei-me do meu sobretudo cor-de-rosa novo, há tanto tempo à espera para ver a luz do dia, à espera que tudo passe, de o levar para trabalhar, a um teatro, jantar fora.

Que se lixe, da próxima vez que vier ao supermercado visto-o. Antes que seja Verão outra vez.

Reserva

Cristina Nobre Soares, 27.01.21

Desde segunda que cai uma chuva miudinha e passa na rádio uma música dos Oasis, a da banda sonora do “Butterfly effect”. Reparo que devia pôr gasolina, mas sinceramente nem para isso tenho paciência. Também não vou a lado nenhum. E se fosse, para onde iria? Todos os sítios parecem-me absurdamente iguais, a irem dar a lugar absolutamente nenhum.

 



Don't be scared (don't be scared)

Your destiny may keep you warm

 



Lembro-me de não ter adorado o filme da primeira vez que o vi. Não gostei do fim. Mas também que fim poderá ter uma história de alguém que volta sempre atrás para mudar o que não lhe agrada no presente e que descobre que por mais que mude o presente este será sempre a mesma desilusão? Penso como teria sido este ano que passou se nunca tivesse havido pandemia. Se calhar uma bela merda, como tantos anos da minha vida já foram, só que aí a falta de ar seria só minha. Uma bela merda na mesma, mas com a diferença que podia fugir à vontade. Será que podia? Teria sempre de me levar na fuga. Se calhar é essa a diferença deste ano. Estarmos presos a nós mesmos e pouca coisa nos tiram tanto o ar do que o excesso de convívio connosco. Ligo o limpa-para-brisas, que neura de tempo. A luz da reserva acendeu.

 



Don't be scared

You'll never change what's been and gone

Contar carneiros

Cristina Nobre Soares, 26.01.21
Hoje, o dia foi longo. Tão longo que, quando terminou, dei por mim, e já era amanhã. Talvez por isso agora não tenha sono. Desço até à cozinha, faço um chá de camomila, a única tisana que tolero, todas as outras me agoniam, deito-me no sofá e pego numa manta. Chove lá fora (e a saturação do confinamento também faz com que, ultimamente, chova um bocadinho cá dentro). Dou por mim a pensar que se tivesse agora uma insónia, poderia escrever alguma coisa sobre isso. Sobre o deambular pelo silêncio da casa, a solidão da noite, a lentidão das horas, a vigília de uma escrita urgente e febril. Mas que sei eu sobre insónias? Eu que tenho um sono santo e para quem as duas da manhã sempre foram altas horas da madrugada? Bebo a tisana com o esgar de quem toma um medicamento (mas quem é que gosta de ervas fervidas com água, senhores?), abro o computador para escrever alguma coisa e lembro-me de uma história parva, uma zanga que tive com a minha professora primária a propósito da interpretação de um texto. Um texto sobre um miúdo que não conseguia dormir e que a dada altura, depois de a mãe tentar vários truques com ele (as coisas de que me lembro, valha-me deus, amanhã, se me quiser lembrar da lista supermercado só trago metade das coisas), o miúdo lá adormeceu. Perguntou-nos a minha professora o que é que o tinha feito adormecer. Eu pus o dedo no ar e respondi que tinha sido o piar da coruja, das cigarras (que deviam ser ralos) e o som da brisa noite. Muito bonita a tua resposta, Cristina, mas está errada, disse ela, foi por contar carneiros que ele adormeceu. Eu achei aquilo um perfeito disparate (mas alguém dorme a contar carneiros?) e teimei com ela. Não, insistiu ela, foi por contar carneiros. Fiquei zangadíssima. E ainda hoje acho que eu é que tinha razão,

Acho que já contei esta história, por aqui. Mas, também, já não deve andar por aqui ninguém, por isso é a altura perfeita para contar histórias que não interessam um caracol. E, mesmo sem coruja, ralos e som da brisa da noite, vou-me deitar. A vigília febril terá de ficar para uma outra vez.

Luz

Cristina Nobre Soares, 12.01.21
Nos últimos dias, por esta hora, a luz lá fora, de tão oblíqua, quase que toca no chão.

Encosto-me à cadeira e fico a olhá-la. Apenas a olhá-la. Depois volto ao teclado, lamentando não saber escrever poesia. Nunca soube. Não sei dizer as coisas para além do que elas realmente são.

Lá fora, a esta hora, há uma luz tão oblíqua que quase toca no chão. E, por alguma razão que não sei explicar (e teria de o saber?) dá-me uma grande tranquilidade. E, isto, apenas isto, parece-me tanto à primeira vista, que fico sem vontade de me contentar com mais do que pouco.

Caligrafia

Cristina Nobre Soares, 04.01.21
Comecei um diário. Aproveitei um caderno que a minha filha me deu o ano passado para ver se eu voltava a desenhar. Mas, em vez de desenhar, aproveitei-o para voltar a escrever à mão. Deitei fora as primeiras folhas onde escrevi, queria muito que a primeira página ficasse com a letra com aspecto aceitável, que bonita já desisti que fosse desde que comecei a escrever. Nessa altura a minha mãe comprou-me cadernos de caligrafia, ensinou-me a pegar com leveza na caneta, mas em vão. Saíam-me letras de tamanho diferente, mal fechadas pela pressa em acompanhar o meu pensamento, os dedos esborratdos com tinta que parece que me nascia por pegar na caneta com tanta força, letras a levantarem-se das linhas e a irem pelas margens adentro. Ah, as margens, que ódio eu tinha àquelas linhas vermelhas e como gostava de escrever nas folhas brancas que roubava das resmas de escrever à máquina do meu pai, sem margens, sem regras, as linhas a irem de esguelha umas vezes para cima e para baixo, não escrevas deitada no chão, a minha mãe a ralhar-me, assim essa letra vai ser sempre torta. Assim que pude, já no liceu, enchi o dossiê com folhas brancas e lisas. A minha vida é feita de muitas rebeldias insignificantes destas, só eu dei por elas. Algumas professoras resmungavam, mas não fiz caso e elas também não, afinal eu era boa aluna e cedo aprendir a sorrir para conseguir o que queria.

Acabei por me resignar com a letra que deixei no tal diário, sei que daqui a uns tempos até eu vou ter dificuldade em percebê-la, paciência, os “as” por fechar”, os “ms e os “ns” invertidos a parecerem uma sequência de “us”, as laçadas exageradas dos “fs”, dos “gs” e dos “agás”, a letra a ficar cada vez mais corrida, sempre um passo atrás da minha urgência e os dedos a gelarem-se-me.

Que frio que está. Dou por mim a cruzá-los e a soprá-los como o meu pai fazia nos dias de Inverno em que se lembrava de Moçambique, esta terra é um gelo, dizia ele e a minha mãe troçava dele, isto é Lisboa, sabes lá tu o que é frio, homem. Facilmente nos tornamos na ausência dos nossos pais. Mas o meu pai, ao contrário de mim, tinha uma caligrafia elegante, dava um balanço teatral com a mão antes de começar a escrever e concedia uma rara paciência à lentidão da sua própria mão, sabes lá tu o que é frio, homem e as pontas de dos dedos também a gelarem-se-me agora, por cima do teclado, essa bênção sem rasuras dos impacientes que escrevem, esta terra é um gelo, Lá, agora, seria Verão.

Domingos

Cristina Nobre Soares, 20.11.20

A prima Odete embirrava solenemente com Domingos. Eram uma pasmaceira, não passava nada de jeito na televisão e tinha de cumprir o frete de ir à missa com a mãe, que o pai tinha sempre alguma coisa para arranjar em casa ou o carro para limpar e a irmã tinha aquela conversa cansativa da religião ser o ópio do povo.

Para além de tudo isso era uma maçada de um dia, pois estava tudo fechado, nem para comprar tabaco, o que implicava que ao sábado tivesse de comprar maços a fazer com conta com Domingo. Pão, só o do dia anterior torrado ou então as carcaças que a tia Maria Adelina congelava à sexta-feira. E bica nem vê-la.

Foi portanto uma alegria para a prima Odete quando, em mil novecentos e oitenta e cinco, abriu uma grande pastelaria ao fundo da rua, que tinha pão de forma fresco (a um preço exorbitante, segundo a Tia Maria Adelina) e ficava aberta até às seis da tarde de Domingo.

- Agora só falta haver um supermercado aberto ao Domingo – comentou a prima Odete, em tom de vitória.

A prima Maria Isabel deu-lhe uma grande prédica sobre os direitos dos trabalhadores, sobre o egoísmo do consumismo ( o tio Macedo achou muita piada a esta rima), que, só porque lhe dava jeito ter onde ir beber a bica e comprar tabaco, não podia lixar a vida aos outros.

A prima Odete suspirou e revirou os olhos, não havia paciência para as coerências da irmã.

E a tia Maria Adelina pegou no saco de pão duro e enquanto dava um beijinho a cada uma das carcaças antes de as deitar fora, disse:

- Sempre vivemos com tudo fechado ao Domingo e ninguém morria. O que é uma dor de alma é deitar pão fora, assim desta maneira.

- Os Domingos doem-me mais – retorquiu a prima Odete.

 

Fruta cristalizada

Cristina Nobre Soares, 18.11.20

Ao contrário da Prima Odete, que vivia para esta altura do ano, a prima Maria Isabel tinha uma embirração particular pelo mês de Dezembro. Não gostava de bacalhau, achava que o Natal era mais uma forma de opressão pelo consumo desenfreado, dizia que o Pai Natal era apenas uma caricatura da água suja do capitalismo americano e no que dizia respeito à religião, limitava-se a revirar os olhos.

Mas, na verdade, a embirração da prima Maria Isabel tinha a ver com uma certa tristeza que os dias curtos cheios de humidade e cheiro a fritos lhe causavam. A pastelaria onde bebia café a meio da manhã todos os dias tresandava a azevias e filhós a partir de dia nove de Dezembro. Eram dias de uma certa agonia.

- É o costume – dizia para o empregado de bigode, ao chegar ao balcão.

Este gritava, “Sai bica! “ e lembrava-a que só aceitavam encomendas de Bolo-rei até dia vinte e um.

A prima Maria Isabel agradecia e acrescentava.

- Não sou grande apreciadora de frutas cristalizadas.

Facto que mudou em Dezembro de mil novecentos e noventa e dois, quando, na Confeitaria Nacional, conheceu o Nuno Maria. Afortunado encontro que lhe trouxe as maravilhas da casca de laranja cristalizada com chocolate e um grande amor e assim lhe superou para o resto da vida a melancolia causada pela mudança da hora de Inverno e alguns assentos à direita da bancada parlamentar. Mas, até morrer, a prima Maria Isabel recusou-se a compactuar com a história do Pai Natal e a fazer o presépio, dizendo:

- É nos detalhes que se revelam os princípios de cada um. O resto é a vida.

 

Ainda

Cristina Nobre Soares, 14.11.20
Há sempre uma calmaria antes de chegar a tempestade, dizia a avó da Patrícia, da mesma maneira que disse outras tantas certezas que tinha, encostada ao balcão da cozinha enquanto lanchávamos. Era muito supersticiosa, acreditava em espíritos que voltavam, sabia muitas rezas, muitos responsos, sabia ler nas entrelinhas de todos os acasos, do sal que se entornava, das ventanias e trovoadas, dos dias quentes e abafados, das luas novas e cheias, dos ninhos de andorinha que alguma pedrada desfizera, do piar das corujas e do crocitar dos corvos. Até na lentidão do tempo ela via um presságio e usava a palavra “ainda” como um aviso. Ainda não há notícias, ainda não tocou o telefone, ainda não choveu. Antecipava o passar do tempo por acreditar que antecipava o malfadado destino, que assim o danado não apanharia de surpresa.

O recolher obrigatório ainda não chegou aqui, disse eu, hoje, ao telefone, à minha irmã e a avó da Patrícia levantou-nos as canecas do leite, olhou para o céu limpo pela janela da marquise e disse, vão brincar lá fora, mas só um bocadinho, que eu hoje sei que ainda vai chover.

Em que pensas tu?

Cristina Nobre Soares, 08.11.20






Hoje, quando acordei, chovia a cântaros. Da minha janela só se via uma cortina cinzenta. Parece aqueles desenhos animados de leste que passavam no programa do Vasco Granja, comentei. Ou aqueles japoneses em que havia uma criancinha órfã à chuva. Quando parou de chover e abriu um bocadinho, fui ao quintal que está cheio de folhas dos carvalhos que vivem do outro lado do muro. Tenho de esperar que o chão seque para varrer as folhas. O Outono é um trabalho de Sísifo no meu quintal. Fiquei cá fora, a pensar nos livros que tenho em cima da mesinha da sala e que ainda não li, no barulho da água nas valetas, um sinal de que chovera realmente muito e que há muitos domingos que não tinha nada urgente para fazer. Só mesmo isso, a pensar nos livros que tenho para ler, nas folhas no quintal e na chuva dos bonecos japoneses e do Vasco Granja. Como eu odiava de morte esses bonecos que eu só via na esperança que ele passasse a Pantera Cor-de-Rosa. Fiquei ali, em pé, imóvel, tão imóvel como ficava em criança, sentada no chão do meu quarto com as pernas à chinesa e a minha mãe a perguntar, em que tanto pensas tu? E eu a dizer-lhe sempre, em nada, talvez já na altura soubesse que os nossos nadas, por não terem espaço no nosso, sobejam quase sempre no entendimento dos outros. Voltei para dentro e comentei, devia ter dado mais uma demão de protector nas cadeiras do jardim. Em que pensas tu? Perguntou-me o Facebook. Em nada, respondi-lhe eu.