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Mussiro

por Cristina Nobre Soares, em 12.11.18

No meio das fotografias antigas, guardadas numa enorme capa de plástico azul em forma de envelope, havia um postal com duas mulheres com o rosto coberto com uma pasta seca e acinzentada. Perguntei, vezes sem conta, à minha mãe, o que tinham aquelas mulheres na cara. E vezes sem conta a minha mãe deu-me a mesma resposta, é um creme feito com uma raiz, que elas punham para ficarem com a pele lisinha. E eu ficava a olhar para aquele postal, com a mesma sofreguidão com que olhava para as fotografias de lá. Essas, decorei-as, de tantas horas que passei a olhá-las. Assim como decorei as datas escritas à mão na parte de trás, os sítios, os nomes de todos os que apareceriam mesmo dos desconhecidos e dos que já tinham morrido. As que eram do tempo de Lourenço Marques e as que eram do tempo da Beira. O que tanto procuras aí? Perguntava-me a minha mãe, sempre que me via de volta da capa azul. A mim, procurava-me a mim.

 

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Noites iguais

por Cristina Nobre Soares, em 10.11.18

A cidade, ao fim da tarde e imediatamente antes da chuva, ainda fica mais vazia do que o costume. Desvio-me de um rapaz que passa por mim. Deixa um rasto de vapor do cigarro electrónico, que se dilui na humidade espessa do cair da noite. Uma tília, já completamente dourada e atarracada por uma poda ignorante, lembra-me que já lá vão algumas semanas desde o equinócio, quando os dias são iguais às noites. Tenho este hábito irritante de enunciar factos avulsos para não ouvir outras coisas em que penso. Mas o entardecer azulado na rua de blocos de granito, o cheiro a glicínias e a Junho e um ressentimento antigo ganham uma nitidez incómoda, o equinócio é quando os dias têm o mesmo tamanho da noite, a palavra equinócio quer dizer noites iguais e, para meu alívio, começa a chover.

 
 
 
 

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Annie Lennox

por Cristina Nobre Soares, em 04.11.18

Tiro a maquilhagem dos olhos com dois algodões embebidos em óleo de amêndoas doces. Rio-me da minha figura, entre o patético e o triste, de olhos esborratados com os restos da tinta negra do rímel e do eyeliner. E lembro-me do tele-disco da Annie Lennox em frente a um espelho de camarim. Há qualquer coisa de fim de espectáculo neste ritual de fim do dia. Tiro o resto da maquilhagem, apanho o cabelo na nuca, passo o creme, constato que envelheci, não há creme que me salve, quantos anos terá agora a Annie Lennox? Lá fora cai uma bátega de água e eu com tantos livros para ler.

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Patético

por Cristina Nobre Soares, em 03.11.18

O ramo do carvalho, que se partiu com a tempestade, ainda lá está, preso por um bocadinho de lenho. As folhas já estão castanhas, é sinal que está a morrer. Mas continua, pendurado por uma teimosia inútil, qual herói que se recusa a render. Nem todo o heroísmo é digno, por vezes tem até alguma coisa de patético.

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A amizade não é uma coisa utilitária

por Cristina Nobre Soares, em 02.11.18

A amizade não é uma coisa utilitária. Até porque não tem utilidade prática nenhuma. Não lava loiça, não aspira, não faz compras de supermercado, não evita as viroses nos miúdos, não acaba com o trânsito, não arranja sequer um lugar para estacionar o carro. Para além disso exige paciência, disponibilidade, generosidade.Tempo. É uma coisa bastante inútil, só com serventia para nos resgatar da solidão. Para nos fazer crer que não andamos neste mundo sozinhos. Tirando isso, é uma maçada para tem mais do que fazer, não dá jeitinho nenhum, pelo contrário, dá uma trabalheira ter de encaixar os amigos nas nossas vidas ocupadíssimas, cheias de urgências e prioridades sérias. Afinal quem é que tem tempo para, do outro lado do telefone, do skype, do messenger, do email, do whatsapp nos pergunte: então, como é que andas? Ou para aparecer sem aviso à porta de casa de alguém, vinha a passar (mesmo morando a 100km) e estava com saudades?. A amizade realmente não tem utilidade nenhuma até ao dia em que precisamos de um amigo. Até ao dia em que precisamos que se lembrem de nós. Aí, sim, dá um jeito do caraças.

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Pão por Deus

por Cristina Nobre Soares, em 31.10.18

Houve um ano em que fui pedir Pão por Deus com as minhas primas. Não me lembro que idade teria, só da estranheza por me darem broas, que se esmigalhavam no fundo do saco, laranjas e nozes, quando eu esperava rebuçados. E também do cheiro a chuva da noite e a eucalipto, das ruas de casas baixas onde toda a gente conhecia as minhas primas pelo nome, dos caramelos rijos que se colavam aos dentes, das caras que nos apareciam por detrás das cortinas de fitas penduradas nas portas, do corrermos na rua empedrada para chegarmos antes dos outros, do ladrar dos cães por detrás dos portões. Onde eu vivia, num bairro suburbano, às vezes, havia miúdos que tocavam à campainha a pedir Pão por Deus. Mas poucos. Eu nunca ia pedir. Não te quero metida em prédios que não conheço. Aqui na cidade é diferente, a gente nunca sabe quem são as pessoas, dizia-me a minha mãe. No bairro onde cresci, há 30 e tal anos, esta tradição era um resto de qualquer coisa, como o era o pastor que por vezes trazia o rebanho para o descampado atrás dos prédios ou o velho moinho de bombagem de água, lá ao fundo, que se via da varanda da cozinha e que se tornava um vulto preto na contraluz do fim do dia. Onde vivo agora pede-se Pão por Deus. Mas também há noite das bruxas. E, às vezes, pergunto-me se o moinho ainda lá estará no mesmo sítio

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Sem saber muito bem porque é que corro.

por Cristina Nobre Soares, em 27.10.18

Deixo-me ficar para trás enquanto observo a mulher a deitar os lápis no crivo. Conta, talvez, 48 de cada vez. Depois, embala-os nas caixas previamente montadas pela mulher de óculos, que está sentada em frente. Repete estes gestos tantas vezes até eu perder a noção do tempo. Tento adivinhar-lhe a idade, onde viverá, se mora perto, se vem de comboio, mas perco-me no ruído das máquinas do andar de baixo e no oblíquo da luz prenunciando a sirene da tarde. Deixo-me ficar ali, na ilusão de ser invisível, de caderno encostado ao peito, embora não tenha escrito nada, uma linha sequer. Serve apenas para me salvar quando não sei o que fazer às mãos (tão incómodas que estas se podem tornar para quem não tem o engenho de saber sempre o que dizer). O grupo já se afastou, a mulher olha-me e sorri sem parar as mãos, reparo que tem olhos azuis, já a estão a chamar, avisa-me, esticando o queixo para o fundo da sala. Agradeço e estugo o passo até às escadas, sem saber muito bem porque é que corro.

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Um ano e quatro meses depois

por Cristina Nobre Soares, em 26.10.18

Um ano e quatro meses depois, apesar de já haver muito verde a rebentar pelas encostas, o cinzento ainda pesa em grande parte da paisagem de Pedrógão Grande. O silêncio é agora imenso. As palavras também são um material combustível que arde depressa e com demasiada facilidade.

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Andreia

por Cristina Nobre Soares, em 21.10.18

O João Guilherme fazia parte de outro grupo. Eram mais velhos do que nós, já tinham idade para frequentar o Bairro Alto. Mas, às vezes, encontrávamo-nos debaixo dos prédios dos arcos, onde o grupo dele costumava fumar charros. O João Guilherme era giro, alto, tinha cabelo preto, muito escorrido, cuja franja lhe tapava um dos olhos. Usava botas dr. Martens, como todos os que se encontravam nos arcos. Embora também houvesse os que, como eu, por não terem dinheiro, usavam botas parecidas, mas que passavam bem pelas originais. Os grupos são implacáveis, qualquer detalhe pode rapidamente desmascarar um impostor.
O João Guilherme tinha uma namorada, uma rapariga muito magra, tão magra que nem mamas tinha, de cabelo ralo, cortado pelo queixo. Chamava-se Andreia. Eram os dois muito populares e faziam alardo das suas proezas sexuais. 
No outro dia pareceu-me ver a Andreia no metro, no lugar à minha frente. Passava com o dedo indicador, que terminava numa unha de gel azul-escura, pelo ecrã do telemóvel. Como nunca levantou a cabeça entre o Campo Grande e o Saldanha, fiquei sem saber se seria mesmo ela. Caso fosse continua com o cabelo ralinho e sem mamas. E lembrei-me que o João Guilherme me ensinou desenhar árvores sem folhas, com uma caneta BIC laranja.

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Luto

por Cristina Nobre Soares, em 21.10.18

Bebo o segundo café, há manhãs mais difíceis de acordar. Ao fundo, as vozes dos miúdos distraem-me do livro e ponho-me a ver quem passa, embora saiba que não passa ninguém na rua, a esta hora, e que dizer que me "ponho" a fazer o que quer que seja amarfanha qualquer ambição de tornar este texto decente. Ontem, contaram-me uma história de luto muito parecida com a minha. Tão parecida que até estávamos as duas sentadas a um canto da sala, de mãos cruzadas no colo. Falámos baixinho, na cidade parece mal falar da morte, é assunto de gente tétrica e infeliz. Na aldeia não há esse pudor, todos os seus detalhes escatológicos são possíveis e normais assuntos de conversa, do tipo de pedra que se escolhe para a campa ao detalhe de se o rosto do falecido está mais ou menos retorcido ou inchado. Ah, a carinha estava igual, teve uma morte serena, graças a Deus.
Passa um homem na rua com o cão pela trela, afinal há movimento, o café já parece começar a despertrar-me e eu volto ao livro que trouxe.

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