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Superstições

por Cristina Nobre Soares, em 14.10.19

A avó da Patrícia tinha muitas superstições e presságios. Afligia-se quando entornava sal, benzia o pão antes de o cortar (e beijava-o antes de o deitar fora, dizendo Nosso Senhor me perdoe), dizia cruzes canhoto quando via um gato preto e lagarto, lagarto, batendo na mesa, quando alguém falava de alguma coisa má que podia acontecer. Não gostava de pássaros grandes, dizia que traziam má sorte, nem partir copos e coisas de vidro, está aí para vir alguma coisa má. E tinha rezas para evitar todo o tipo de azares. Sentava-se no banco da cozinha, de cabeça baixa, com uma mão a segurar a testa e mexia a boca em surdina. Lembro-me da reza à Santa Bárbara, afastai a trovoada lá para bem longe, onde não haja eira nem beira, que dizia mesmo quando não trovejava, bastava que, dizia ela, o dia tivesse acordado carregado dentro do peito. Não sei se ainda será viva. Se for, terá os seus noventa e picos. Perto da idade que o meu pai teria se fosse vivo. Que não gostava de mesas com 13 pessoas.

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Não percebo

por Cristina Nobre Soares, em 09.10.19

Há uns tempos, uma amiga, que volta e meia me lê por aqui, deu-me uma grande prédica sobre as minhas piadolas e parvoeiras. Tens de perceber que tens uma carreira e, quem sabe, uma imagem para pôr para a frente e, em Portugal, já sabes, quem se ri muito e faz rir os outros é palhaço. Qualquer dia ninguém te leva a sério e, pior, ainda são capazes de pensar que as piadas lhes são dirigidas. Respondi-lhe qualquer coisa parecida com um encolher de ombros.
Mas podia ter-lhe dito que o riso é a coisa mais séria que tenho na vida. Que sem isso e as minhas escrevinhices era capaz de hoje ser alguma coisa parecida com um estilhaço. E que não consigo perceber como é que as pessoas muito sérias passam pela vida incólumes, perfeitinhas, sem qualquer escoriação. Não percebo como é que nunca precisaram que o riso as salvasse delas próprias. Não percebo.

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Novos e velhos

por Cristina Nobre Soares, em 01.10.19

Confesso que não percebo esta divisão (que sempre houve) entre ser velho e ser novo. Como se fossem criaturas mutuamente exclusivas, ou há uma coisa ou há outra, onde estão uns não podem estar outros. O que é simplesmente estúpido. As melhores equipas são as que têm gente de todas as idades. Sangue novo, aquele que supostamente anda na guelra, precisa-se, para novos horizontes e novas perspectivas sobre os que já existem. Sem os novos não há perpétuo movimento. Mas o sangue mais velho também é preciso. A chamada experiência e o tão mal visto cinismo perante o mundo são fundamentais para ajustar a tais perspectivas. E nada disto é absoluto, pois não sei com que tipo de pessoas é que vocês se dão, mas olhem que conheço miúdos de 20 que parecem saídos da brigada do reumático e pessoas de 70 que dão 10 a 0 em progressismo à malta nova.

Penso que já contei esta história por aqui, mas um dos momentos que mais me marcou quando recomecei a minha vida do zero foi ouvir um senhor, mais ou menos da minha idade (e por sinal bem instalado numa universidade estrangeira) dizer-me, a propósito de um grupo de trabalho comum, que “tínhamos de dar o lugar aos mais novos”. Ou seja, como quem diz, “já estás muito velha para estas andanças”. Como se houvesse um prazo para contribuir de forma válida, como se ser novo ou velho fosse um valor ou um peso por si só.

Volto a dizer: é estúpido. As novas gerações vão substituir-nos de qualquer das formas, quando nós, os tais mais velhos, já estivermos a fazer tijolo. Que é coisa que acontece mais depressa do que se julga. E talvez seja melhor gastar este instantezinho insignificante, que é a vida, menos a estereotipar por faixa etária e mais a construir um tempo onde haja espaço para aprendermos uns com os outros.

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A prima Laurinda

por Cristina Nobre Soares, em 27.09.19

A prima Laurinda era imbatível no Crapô, fazia um “Paris- Brest” soberbo, cuja receita não dava a ninguém, com a desculpa de que a letra com que fora escrita era muito difícil de compreender, nunca transpirava, nem sequer quando passou por aquilo a que ela chamava “a transição sensível”, mas, acima de tudo, tinha o condão de antecipar qualquer conflito. Assim que pressentia alguma exaltação entre os convivas, especialmente durante aqueles anos após o 25, a que ela, mesmo anos mais tarde, se referia como “aquela terrível fase de conturbação psico-social” (a prima Laurinda tinha eufemismos para tudo), dizia com um sorriso encantador, enquanto batia ao de leve no braço do sofá de costas capitonê, ora, ora, mas então os meus caros não se vão querer indispor agora por causa disso. E piscava olho, arrematando com um malandro “Isso é apenas fumaça”. Todos riam desta graçola de salão da prima Laurinda, uma senhora a citar o Pinheiro de Azevedo e mudavam de assunto, enquanto agitavam o gelo nos copos de whisky.
Imagine-se a agora a prima Laurinda no Facebook.

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A amizade não correspondida

por Cristina Nobre Soares, em 21.09.19

Poucas coisas doem mais do que uma amizade não correspondida. Às vezes, até doem mais do que um amor não correspondido. Engraçado, tanta bibliografia sobre amor e dores de corno, quilómetros de poesia. Sobre a amizade não correspondida nada. E tanto que podíamos dizer sobre aquela pessoa que achávamos o máximo, perfeita para ser nossa amiga, que nos fartámos de convidar para tomar café e beber uns copos, com quem planeámos tantas conversas interessantes, a quem ligámos tantas vezes a perguntar como estava e que nunca podia, que estava sempre muito ocupada, muito indisponível, muito ausente. Que nunca nos ligou de volta. Que nunca mostrou o mesmo entusiasmo que nós. Que nos trocou por outros amigos, para os quais afinal não estava tão indisponível. Que nunca nos achou suficientemente interessantes para nos tirar desse limbo sem compromisso chamado "pessoa conhecida". Não, sobre isto ninguém fala, nem escreve, nem rima. Como se fosse um dor menor. Coisa de gente imatura, falhada e patética, ou que simplesmente não sabe como é vida. É pena. Era capaz de dar boa literatura. Digo eu.

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Sala de espera

por Cristina Nobre Soares, em 17.09.19

Na sala de espera do hospital está uma mulher de máscara e lenço de cornucópias na cabeça sentada à minha frente. Ao lado dela, um miúdo dos seus nove, dez anos. O miúdo enfia as mãos nos bolsos enquanto espera que o chamem para a pediatria. A mulher recosta um pouco a cabeça e fecha os olhos. O bebé da rapariga com unhas de gel azuis começa a choramingar e ela levanta-se para o embalar. Penso que essa rapariga não deva ser muito mais velha que a minha filha. Terá quantos? Dezassete? Dezoito anos? Chamam alguém pelo intercomunicador e a mulher do lenço de cornucópias levanta-se com o miúdo pela mão. O bebé da rapariga das unhas de gel continua a choramingar e ela tenta distraí-lo com qualquer coisa na janela enquanto lhe dá beijos na testa. Um homem tira uma garrafa de água da máquina. Chamam um João Manuel, uma Maria da Luz, um Martim, uma Elsa Cristina, um Joaquim com um nome e apelido que ninguém percebe. Entre os nomes vejo as horas no telemóvel. Abro um e-mail. Uma pessoa aqui demora uma eternidade, diz uma mulher de cabelo muito curto e muito branco. Há alguém que concorda com ela. A mulher de lenço de cornucópias volta, pela porta dupla, com o miúdo pela mão. Mas antes, volta-se para as pessoas da sala de espera e diz no que me pareceu ser um suspiro: as melhoras. Foi a única que o disse.

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Coisas de árvores

por Cristina Nobre Soares, em 14.09.19

Depois de almoço, ao café, a minha amiga comentou o calor, não é normal para esta altura do ano, disse. Respondi-lhe que não, pois que não era, hoje até tinha reparado, na rua que desce junto ao parque, na quantidade de folhas castanhas no passeio. Ainda é cedo para tanta folha no chão e fugiu-me um bocadinho a conversa para a senescência das folhas. Volta e meia acontece-me, dá-me um entusiasmo que penso que já não tenho e do nada ponho-me a falar sobre árvores. Ainda no outro dia deu-me para comentar qualquer coisa, a meio de um almoço com outros amigos, sobre o abrunheiro-dos-jardins e o quão as prunóideas ficam bonitas na Primavera, por causa da floração, mas que não era a minha árvore de arruamento preferida, que gostarei sempre mais das olaias. E dos lódãos-bastardos, mas estes por me terem feito companhia durante uns bons anos durante as minhas subidas e descidas da Luís de Camões e uma pessoa afeiçoa-se à sombra de todos os dias e ao escorregar nos dias de chuva. E por causa do nome claro, lódão-bastardo é imponente, caramba. Há árvores com nomes lindíssimos. Como o carvalho negral ou pinheiro de Alepo. Disse os nomes muito devagarinho para perceberem a beleza do som. Depois, apercebendo-me da triste figura que fazia, calei-me. Não sem antes acrescentar que mesmo com um nome menos fácil de dizer a mais bonita para mim era mesmo a Gingko biloba e agora, com o Outono, ainda mais bonita fica. Essa todos conheciam.

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18 anos

por Cristina Nobre Soares, em 11.09.19

No dia 11 de Setembro vim para casa à hora de almoço. Estava com uma gripe terrível, cheia de febre. Na altura fazia um estágio no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros e, ao fim da manhã, a Julieta disse-me, vai mas é para casa que estás boa é para te enfiares dentro da cama. Aparentemente isto não interessa nada para a história, só para mim, temos este hábito de dar detalhes supérfluos que só fazem sentido para nós e que nos põem no centro de tudo. Cheguei a casa, deitei-me no sofá da sala, tapei-me com uma manta, tomei um comprimido e liguei a televisão. Passava a notícia (tenho a certeza que era na SIC) de que um avião fora de encontro a uma das torres do World Trade Center. Um acidente. Minutos depois, qualquer coisa explodia noutra torra. Que coisa, pensei eu, queres ver que o helicóptero dos bombeiros se rebentou na outra torre? Que tótós... Mas os jornalistas começaram a disparar comentários à toa. Alguma coisa se passava. Minutos depois o mundo, o nosso mundinho mudava. Era um ataque. A minha mãe ligou-me, acho que liguei à Rita, o Hugo estava no campo. Havia medo nas conversas. Especulámos muito. É normal que o façamos quando pressentimos que as coisas não vão voltar a ser as mesmas. E não voltaram a ser as mesmas. Mesmo quando essas coisas que mudaram se tornaram normais, tão normais que já nem ligamos. Quando explodir uma bomba não sei onde e morrerem não sei quantas pessoas se tornou banal ( O tempo banaliza tudo? Ou é a memória que o faz?) A dada altura desliguei a televisão. A febre não baixava, puxei a manta e acho que dormi umas horas. Ou 18 anos. Não sei.

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Capeline

por Cristina Nobre Soares, em 09.09.19

A mãe da Marta guardava o vestido de noiva numa mala debaixo da cama. Uma vez mostrou-nos. Tinha uma gola alta de renda da Guipur a condizer com os folhos dos punhos e uma capeline de um tecido rosado parecido com tule. A Marta quis vesti-lo, olha que agora já não te casas, disse-lhe a mãe, enquanto ela rodopiava vestida de renda de Guipur, descalça na carpete de flores azuis. Depois, a mãe da Marta contou-nos que tinha casado virgem e que o irmão morrera nove dias depois, em Moçambique, ao pisar uma mina. Olhou para mim, a Marta pôs a capeline e eu baixei os olhos.

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Antes eles que nós

por Cristina Nobre Soares, em 04.09.19

As mulheres juntavam-se no anexo onde cozinhavam, apesar de a casa ter uma cozinha toda equipada, mas essa nunca era usada. Para não sujar, diziam. Naquele anexo, para onde iam os electrodomésticos velhos e as loiças escaqueiradas, faziam as refeições, amanhavam os coelhos e os frangos, esfolados e depenados no pátio, aproveitando-lhes o sangue num alguidar de barro, se acaso fosse dia de cabidela. E falavam da vida alheia. Sabiam da vida de todos, de quem fazia o quê, de quem era visto com quem, do que alguém teria dito sobre o que ouvira dizer de alguém, do carro de fulano, ah, que ele parece que está muito bem, olha-me aquele carrão e diz que o comprou a bater o dinheiro todo, dos terrenos que se vendiam, dos desempregos, dos que deixavam de ter onde cair mortos, das cordas ao pescoço. E dos podres, especialmente dos podres, que se contavam sempre em meias frases, cala-te boca, é melhor estar calada, sabes lá tu o que para ali vai, com uma satisfação ou uma espécie de alívio, por saberem que havia quem estivesse pior do que elas, o mesmo que punham quando falavam de acidentes e doenças, caixões fechados por o corpo do defunto já não estar capaz, pés todos roxos, feridas abertas e purulentas, cancros sem remédio, abriram-no e fecharam-no não havia nada a fazer, coitadito. E respiravam fundo, enquanto partiam os coelhos e os frangos com uma pancada de mão aberta no cutelo. Olha, antes eles que nós.

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