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Vocações sem medo

por Cristina Nobre Soares, em 06.03.15

Desde que me lancei nesta aventura educativa, chamada Dream Lab, que me perguntam recorrentemente: Quando é que fazes um Dream Lab para crianças? A resposta é simples. Não faço. Não farei. Porquê? Porque as crianças vivem inundadas de actividades, mais ou menos criativas, mais ou menos dedicadas às artes, mais ou menos úteis. As crianças podem tudo. Inclusive sonhar. O problema é partir dos doze.

Aí, já tem de ser a sério, que isto não está para sonhos e a vida não é uma coisa para brincadeiras. É pena que muitas vezes aquilo a que chamos “brincadeiras” sejam simplesmente a vocação dos nossos filhos. Aquilo que eles realmente são. E provavelmente nada mais será tão sério na vida deles quanto isto. Por isso não trabalho com crianças e sim com adolescentes. Porque a estes, é lhes pedido aos catorze, quinze anos, que escolham as traves mestras daquilo que muito provavelmente lhes definirá os próximos cinquenta anos da sua vida profissional. Que é como quem diz, o resto da vida deles.

E esta escolha é feita sem rede, sem qualquer tipo de orientação, apenas com meia dúzia de instruções avulsas sobre o que é um curso com mais ou menos saída, e quase sempre feita dentro dum limitado leque de opções. Porque “tens de escolher uma profissão a sério". Caros pais, parem um segundo que seja nessa vossa vida engrenada. O que é isso de “profissão a sério”? Não vos parecerá no mínimo engraçado, que num mundo em permanente mudança (não esqueçamos que Krisis, em grego, também é sinónimo de mudança, de oportunidade) ainda insistamos nesta receita económico-social, a qual, nós geração parental, já experimentou, que todos os dias experimenta e que sente na pele que não funciona.

Assim como o sistema educativo também já terá conhecido dias melhores, pois enquanto permanecermos nesta surdez que divide o conhecimento em disciplinas de primeira e de segunda, o sistema pura e simplesmente continuará a falhar. E foi a partir daqui que nasceu o Dream Lab, sustentando na crença de que “aquilo que tu fazes só faz sentido quando é aquilo que tu és”. Caros pais, os melhores colégios, os melhores tutores e explicadores, de nada servirão aos vossos filhos, se estes não tiverem a montante uma orientação vocacional estruturada, pensada, de acordo com as suas aptidões e personalidade. E como é que se descobrem vocações? Para mim, de uma maneira simples: abrindo- lhes o mais possível, o leque de opções, mostrando caminhos feitos por pessoas que arriscaram uma profissão diferente, menos “a sério. E que deram provas de sucesso, de estabilidade financeira. Porque fazem aquilo que são. E fazendo-os experimentar.

É por isto que não trabalho com crianças. Porque a estas não lhes é negada capacidade de sonhar. Nem tal seria possível, uma vez que é algo que elas fazem naturalmente. Trabalho com aqueles anos onde mais se truncam sonhos e expectativas. Com aqueles anos onde se aprende que os sonhos não moram na realização de uma vida. Onde se silenciam vocações, simplesmente porque muitas vezes estas não cabem no nosso sistema educativo massificado. Nem cabem no medo de mudar. Os sistemas repetidos nos outros conferem-nos uma sensação de segurança, à prova de falhas.

Caros pais, tal chão não existe.Os nossos filhos, à nossa imagem e semelhança irão falhar. As vezes que forem precisas para encontrar o seu caminho, a sua voz. E o que podemos fazer? Deixa-los experimentar o que são, o que podem ser. Sem medo. Que este sim é o maior valor que podem dar aos vossos filhos. Deixa-los ser adultos sem medo. E o segundo maior valor é que sejam vocês, também, pais sem medo

Texto publicado, hoje, no blogue Educação Profissional

 

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2 comentários

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De S.o.l. a 06.03.2015 às 14:50

E quando o adolescente tem um deficiência cognitiva ligeira, que o impede de ter/seguir muitas das vocações que abundam, e só necessita de algo que seja pratico? Sem ter de fazer contas, sem ter de escrever muito.
É tão difícil achar um caminho a seguir, algo que o realize que não exija coisas que ele não pode dar.

Para umas coisas não tem idade, para outras não tem competências. Não há acordos, protocolos para aulas praticas em empresas, no campo, onde for... nada. Algo que a escola/entidade publica ou privada pudesse oferecer aos alunos que não se nas integram turmas regulares mas também não tem deficiência suficiente para integrar nas outras... O que fazer quando não se é carne nem peixe?

As vezes só se quer achar um caminho que eles possam seguir com a sensação de se sentir confiantes no que estão a fazer.

Foi só um desabafo, gostei do que li no vosso Dream Lab, parabéns pelo vosso trabalho.
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De Cristina Nobre Soares a 06.03.2015 às 14:56

Obrigada S.o.l., pois são palavras, desbafos como estes que nos dão alento para continuar :)

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