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Vidro azul

por Cristina Nobre Soares, em 18.12.14

Os enfeites de lá eram guardados numa caixa diferente. Talvez por serem de vidro, tão frágeis quanto as recordações contadas por meias palavras. Quando, ao abrir a caixa, se descobriam os fragmentos de algum que tivesse partido, o meu pai dizia com um encolher de ombros resignado: Mais um. E o tempo contava-se pelo número de cacos de vidro colorido. Quando se partiu o último, que era azul, teriam passado quinze anos do retorno e o meu pai disse: Foi-se o último. Intriga-me que me lembre de todos infímos detalhes da tinta branca sobre o vidro azul. E dos dedos dele, longos, brancos, a pendurarem memórias nas braçadas do  pinheiro. Que  era comprado a um cigano, que os vendia à entrada da estação de comboio de Algés. É curioso como as memórias se alinhavam por entre pequenas insignificâncias.

 

( Dezembro de 2013)

 

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