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Vergílio Ferreira

por Cristina Nobre Soares, em 27.01.16

A sobriedade da capa azul escura chamou-me a atenção. Manhã submersa. Manhã submersa. Pareceu-me um título lindíssimo. Olha que é capaz de ser um bocadinho pesado para ti, disse-me a minha mãe. Eu tinha dezasseis anos e uma zanga mimada com os autores portugueses. São chatos, dizia eu. Enfim, toda a gente sabe que a adolescência é um tempo de certezas parvas. O livro de capa azul escura deu-me a lição de que eu precisava. Era uma escrita incómoda, que me sugava para dentro de uma claustrofobia imensa. Não era bonito o que lia. Era real. Asperamente real. Asfixiantemente humano. Li as últimas páginas vezes sem conta. Não sabia que o descarnado e o violento podiam ser tão belos. Tenho ideia que fiquei uns dias a processar o livro. Não perdi dois dedos, descobri o que era ser um bom escritor. E a quase certeza de que a vida não é mais do que um foguete que prendemos dentro das mãos.

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