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Vacinas: eu sei uma coisa que tu não sabes.

por Cristina Nobre Soares, em 19.04.17

Muitas vezes, quando alguém não nos consegue transmitir uma ideia de forma clara ficamos com a sensação de que nos está a esconder alguma coisa. Seja pelo vocabulário rebuscado que usou e que não sabemos o que quer dizer. Seja por transmitir ideias incompletas.

Eu estava na 32ª semana de gravidez quando o meu obstetra, que era uma besta, a meio de uma consulta de rotina de me diz: temos de fazer uma ecocardiografia fetal. E eu, obviamente assustada, perguntei: Porquê? Ao que ele me respondeu, sem mais justificações (e acreditem que foram pedidas), porque desconfio que o bebé possa ter um problema cardíaco. Foram dias de uma angústia tremenda, com medo de uma coisa que eu nem sequer sabia bem o que era. Mas era imenso. O maior medo que alguém pode alguma vez sentir: o de perder um filho.

O médico que fez a ecocardiografia não era uma besta. Muito pelo contrário. Percebeu o nosso pânico no momento em que entrámos no consultório. E explicou-nos tudo: riscos, possibilidades, o que estava em causa, o que fazer, o que não fazer. No fim, para nosso alívio, disse-nos que estava tudo bem com o bebé. Mas para além do imenso alivio que senti, o que me ficou foi a clareza e a objetividade com que ele falou connosco. A forma simples como respondeu a todas as nossas questões, explicando termos médicos quando não sabíamos o que queriam dizer. Sem paternalismos, sem arrogâncias. E isso deu-me a mim, e ao meu marido, segurança. Saber o que estava em causa deu-nos capacidade de escolha, chão. Um chão, que poderia ter sido fundamental, caso o diagnóstico tivesse sido o pior. Felizmente não foi.

Lembro-me quando era criança que quando sabíamos um segredo, gostávamos de arreliar os outros dizendo, sei uma coisa que tu não sabes. E os outros sentiam-se menos, postos de parte. Saber uma coisa que mais ninguém sabe é uma forma cretina de poder. Uma forma de opressão. Porque se não sabemos também não podemos escolher. Não saber oprime-nos a liberdade de escolha.

Num momento que o assunto da vacinação ferve nas redes sociais, e que se procuram tão avidamente os culpados, penso que a comunidade cientifica também tem culpas no cartório. A comunicação, a divulgação científica infelizmente não é feita para todos. É feita, muitas vezes, numa linguagem hermética só percetível pelos seus pares. O comum dos mortais não percebe e sente-se posto à margem. Como os miúdos do recreio. E, tal como todas as distorções, o medo também parece maior à margem. Por outro lado, os gurus da pseudociência sabem como falar ao coração das pessoas. Fazem-nos de uma forma simples, apelando a sentimentos básicos, como o medo, autopreservação e a raiva.

A comunidade científica do alto da sua torre de conhecimento deixou-se ficar para trás. E precisa urgentemente de aprender a passar a sua mensagem. De uma forma simples, que todos percebam. Explicar às pessoas o que significam os riscos de efeitos secundários. Explicar-lhes percentagens e uma coisa chamada probabilidade. Explicar que as vacinas só funcionam colectivamente e porquê. E, acima de tudo, explicar como funciona uma vacina, o que é um anticorpo, o que é imunidade. Para que os pais saibam o que realmente está em causa. E neste rescaldo da adolescente que morreu com sarampo, podemos ver que está demasiado em causa. Ninguém faz más escolhas intencionalmente. Fazemos a melhor escolha possível com os dados e conhecimento que temos na mão. Por isso só conseguimos escolher quando compreendemos. Porque quando não compreendemos só nos resta uma coisa: ter medo. E isso não é uma escolha. É uma crença.

 

 

 

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3 comentários

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De Cristina Nobre Soares a 19.04.2017 às 16:54

Infelizmente não tenho a mesma percepção. Já tive a sorte de ter médicos, tal como diz, que descomplicam, que são acessíveis. Mas também já me cruzei com outros que infelizmente não foram assim. E em termos de linguagem, sinto isso, é uma das minhas lutas. É necessária uma linguagem mais simples na comunicação cientifica ( e já não estou a falar só da medicina). Também sei que não é esta a única causa para os pais não vacinarem os filhos. Estou ciente disso. Apenas acho que contribui.
Mas como tudo na vida, cada caso é um caso.

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