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Vá, agora digam lá que o dia da mulher é amanhã.

por Cristina Nobre Soares, em 07.03.15

 

Uma vez, andaria eu na terceira classe, cheguei ao pé do meu pai e estendendo-lhe um pião pedi que me ensinasse a atirá-lo. Olhou-me, meio contrariado e disse-me, isso são jogos de rapazes. Eu insisti e a minha mãe resmungou, isso agora é tudo igual, rapazes e raparigas. Nessa tarde, o meu pai ensinou-me a fazer girar o pião no chão da cozinha. No fim disse-me, agora devias pintá-lo para ficar mais bonito. E eu pintei. Com o verniz das unhas da minha mãe, coisa que me custou uns valentes puxões de orelhas. No dia seguinte o meu pião, branco e brilhante, destoava no meio dos dos rapazes, que a contragosto, lá me deixaram jogar. Ganhei. No fim do recreio guardei o pião na mala e nunca mais o usei. A verdade é que nunca achei piadinha nenhuma ao jogo e só insisti na coisa, por não achar justo porem-me de parte só por ser rapariga. Tenho tido vários jogos de pião ao longo da minha vida. Infelizmente, perdi alguns. Só por ser mulher. Como se o meu útero de alguma forma estigmatizasse a minha existência. Parece que amanhã se celebra o dia do meu género. E eu penso, que sim,que é mais do que justo haver uma efeméride qualquer para lembrar a luta de séculos de outras mulheres para que eu hoje possa escrever, ler, votar, trabalhar. Mas celebrar? O quê, senhores? Eu não quero que me celebrem. Até porque não fiz nada merecedor disso. Limitei-me a nascer mulher. E a vida é bem mais do que isso.

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6 comentários

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De Magda L Pais a 07.03.2015 às 22:14

Subscrevo na integra!!!
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De Mom Sandra a 07.03.2015 às 23:55

Olá Cristina. Infelizmente, desta vez, não consigo concordar com as tuas palavras.
Parece-me que nós, que somos mulheres ocidentais, que vivemos em países civilizados onde existe (alguma) igualdade de género, que estamos num dos poucos continentes do planeta em que nos sentimos protegidas, não percebemos muito bem o porquê de festejarmos um dia em que somos apenas mulheres.
Mas se sairmos deste nosso canto e olharmos para as mulheres noutros continentes, nascidas noutros países que têm outras culturas (que chamamos de culturas atrasadas), onde muitas são perseguidas, proibidas de estudar, de conduzir, ou mesmo de falarem com homens, ou onde muitas são abandonadas à nascença só porque nascem mulheres, talvez já percebamos o motivo do festejo.
Não festejamos o Dia Internacional da Mulher, mas sim o que ele representa. Há festejos que são simbólicos. O Dia Internacional da Mulher, para mim, e enquanto existirem mulheres pelo mundo fora que não são tratadas como seres humanos, é um dia de festejo.
Beijinhos e feliz Dia da Mulher!
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De Cristina Nobre Soares a 08.03.2015 às 00:04

Olá, Mom Sandra. Mas eu digo ressalvo isso no texto: Na importância de assinalar um dia, enquanto efeméride de luta por direitos, que sim ainda não estão adquiridos. O que eu não concordo, é que este dia seja usado apenas celebrar, e muitas vezes de uma forma leve demais, apenas um género. Não sei se sou feminista, sei apenas que tenho dedicado grande parte dos meus 41 anos de existência a uma luta por direitos iguais, e não falo apenas destes que ainda assim tardam em chegar a esta nossa "bolha ocidental".
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De Cristina Nobre Soares a 08.03.2015 às 00:07

Ficou a faltar um " e" entre digo e ressalvo :)
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De Mom Sandra a 08.03.2015 às 00:30

Também eu dediquei (e ainda dedico) quase a maior parte dos meus 38 anos a lutar por igualdade de direitos - acho que o meu pai foi o meu grande exemplo - e nunca me calei, nem nunca me calarei. Tenho duas filhas a quem eu e o maridão mostramos que não há "coisas" de meninos nem de meninas. Também lhes explicamos que, infelizmente, existem muitas meninas, com a idade delas, que não têm os mesmos direitos que elas - já lhes falamos, por exemplo, da Malala Yousafzai e do que lhe aconteceu, ou do caso das meninas raptadas na Nigéria por Boko Haram.
Acho que a melhor forma de luta por uma igualdade de direitos é transmitir a importância de sermos mulheres e de sermos iguais, aos nossos filhos. Acredito que só podemos mudar o futuro se ensinarmos essa mudança aos nossos filhos, para que possam, um dia mais tarde aplica-las.
Infelizmente penso que somos pequenas gotas num imenso oceano... Ainda há muitas mães e pais a educarem os filhos como homens e as filhas como mulheres... E enquanto isso continuar a luta e o dia 08 de Março será sempre de um só género.
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De Cristina Nobre Soares a 08.03.2015 às 09:33

Sim, continuar a luta pela mudança do que ainda não foi mudado. Sempre :)

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