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Utopia de uma geração sem medo - Retratos do FOLIO #5

por Cristina Nobre Soares, em 03.10.16

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O último retrato do FOLIO:

 

Todas as histórias começam com uma viagem. Mesmo que não haja viagem nenhuma na história, viajamos na mesma. Os livros são uma espécie de comboios que viajam pelo tempo e pelo espaço de quem os escreveu. São máquinas do tempo. Acho que disse isto à Marta, enquanto comprávamos os bilhetes para o comboio literário. No primeiro dia do FOLIO. Engraçado, esta crónica que é a última, começou por ser a primeira, acabando por se tornar uma viagem sobre uma viagem.

 

O revisor diz-nos que a viagem entre o Rossio e Óbidos durará cerca de duas horas. E eu penso, que a minha outra viagem, aquela que me trouxe até aqui, durou uns vinte anos. Quando cheguei a Óbidos não era bem eu, era mais um estilhaço daquilo que devia ter sido. Óbidos foi o apeadeiro necessário antes de mudar de linha. Aquele apeadeiro onde descansamos um pouco, lavamos a cara e ao olhar-nos ao espelho percebemos que afinal comprámos o bilhete errado.

 

Engraçado que tenha sido em Óbidos, numa terra onde ainda hoje me sinto estrageira, que eu tenha decidido mudar de vida. Talvez por isso, por ser estrangeira, eu me tivesse agarrado desesperadamente ao único colo que nunca me falhou: a escrita. E foi sobre os quilómetros que escrevi que fiz a minha travessia. Estes retratos do Folio também representam isso.

 

Pergunto à Marta porque é que ela veio viver para Óbidos. E ela, que também fez a viagem de Lisboa até lá, conta-me que se cansou de ter medo. Que o nascimento da filha a fez pensar que queria viver num sítio mais tranquilo, onde não andasse sempre com medo de não ter tempo. Um sítio onde pudesse ser freelancer e deixar de ter medo de perder o emprego. E eu penso, a caminho de um festival literário, cujo tema é a utopia, que se calhar essa é a utopia da nossa geração: Não ter medo.

 

Não deixa de ser estranho que uma geração, que sempre viveu em liberdade, tenha tantos medos. Temos sempre. Principalmente quando saímos das nossas gaiolinhas douradas, onde tudo parece garantido. Gaiolas que, por não terem cantos, nem sequer sombras têm. Talvez seja essa a nossa utopia, comento. E olho pela janela, para além do meu próprio reflexo. E penso que apesar de acharmos que nunca saímos do mesmo sítio, porque a paisagem e os medos correm no sentido contrario, a vida é simplesmente isto: uma viagem.

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11 comentários

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De CFHM a 03.10.2016 às 11:36

Tão bom! Adorei. Sim, somos uma geração de medos. Medo de tudo, especialmente de viver. De deixar de ter o que temos hoje e que faltou aos nossos pais.
Também nos criaram.

Adoro ler os teus textos.
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De m. a 03.10.2016 às 16:19

Muito, mas muito obrigada. Ter me cruzado com estas palavras precisamente no instante que elas me faltavam, para falar do tanto que me encheu apenas um dia de Folio, só pode ser magia !
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De Manuel Costa a 03.10.2016 às 20:44

Muito Interessante. Vou colocar link no meu blog: https://producaoindustrialblog.wordpress.com/
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De Caroline Silva a 04.10.2016 às 11:25

Não tenha medo de tentar nem se culpe quando fizer algo que não dê certo.
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De Zzzzz a 04.10.2016 às 16:34

Talvez não tanto o medo, antes a angústia pelas sensações de incerteza e insegurança quanto ao futuro. Que achas?
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De Cristina Nobre Soares a 04.10.2016 às 17:04

Que a angústia é uma forma de medo. :)
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De Zzzzz a 04.10.2016 às 17:39

Uma forma específica do medo, como o fado é uma forma específica da música ou a medicina uma forma específica do conhecimento. Pode parecer irrelevante mas cortar um braço a alguém por causa de uma martelada num dedo também me parrece exagerado. Um beijinho para ti!
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De erreguê a 04.10.2016 às 18:58

Excelente exercício de reflexão este post. O medo apesar de ser um sentimento com uma definição única, tem interpretações diferentes consoante a maneira como o observemos. Sair do nosso porto de abrigo, faz-nos ter medo do que possamos vir a encontrar, mas estamos sempre com vontade de mudar. Mudar de vida, de emprego, de local onde vivemos, de País, de roupa, de hábitos, apesar de não ser fácil, é quando ganhamos coragem e avançamos em frente que nos sentimos livres.
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De simplesmente avô a 04.10.2016 às 19:10



Gostei do seu texto.

Do seu depoimento.

Da sua honesta sinceridade.

A vida hoje não está fácil.

Sobretudo para os jovens.

Entre o capitalismo de estado e o capitalismo selvagem, venha o Diabo e escolha

Um abraço solidário.
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De mami a 04.10.2016 às 19:45

lindo
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De cheia a 04.10.2016 às 23:01

Só estamos bem, onde não estamos. As gerações anteriores passaram fome, não foram à escola e foram à guerra.
Mas, a incerteza de hoje parece-me muito pior: sem emprego, sem qualquer perspetiva de futuro, revolta.
No entanto, e ainda bem que há um silêncio, mas que me assusta. Até quando, a juventude aguenta, calada, a perda dos seus melhores anos?

Parabéns pelo seu post.

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