Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Tio Alfredo

por Cristina Nobre Soares, em 22.02.16

Tio Alfredo

Lá fora, a luz oblíqua descia sobre os cães deitados na gravilha. Vens? Perguntavam-me eles. Sim, e nós corríamos pela estrada de terra batida. Na curva, à entrada da vinha, estava sempre um homem sem uma perna, apoiado por uma muleta. Com as unhas escuras abria pevides e depois cuspia as cascas para o lado. Perdeu-a na guerra, dizia baixinho um dos rapazes. Os olhos apagados e magros do homem baixavam-se à nossa passagem. Quantos pretos matou lá, tio Alfredo? Os olhos dele avermelhavam-se e a espuma cobria-lhe os cantos da boca. Estupores, gritava enquanto fugíamos pelo caminho de gravilha, meus grandes estupores. Lá em baixo os cães ladravam, nós a correr pela encosta, os rapazes a rir e eu com medo do homem, meus grandes estupores. Até que um me dizia, mas tu também nasceste lá, na terra dos pretos. És preta. E eu a dizer que não, que era branca, e ele escarninho a dizer, és preta por baixo. O homem ainda a gritar, estupores, e eu a morder os lábios para não chorar, até que outro deles, o que me dava a sempre a mão para saltar a silvas, me dizia ao ouvido, não faz mal, mesmo que sejas preta por baixo, quando crescer, eu caso contigo.

Autoria e outros dados (tags, etc)



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D

GA



google-site-verification: googledeb34756365df053.html