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Time-sharing

por Cristina Nobre Soares, em 01.03.17

No outro dia alguém me lembrou da febre do “time-sharing”, que consistia em comprar uma ou mais semanas de utilização de um apartamento para férias. Dizia-me a pessoa que o nome “time-sharing “ era uma estupidez porque as pessoas não partilhavam tempo, mas sim um espaço. E eu dei por dei por mim a pensar que o nome até fazia algum sentido. Pois esta coisa do tempo, este recurso tão escasso, é uma espécie de bem imobiliário. E funciona exactamente como as casas.

Ora vejamos: há quem tenha casas grandes, com quatro e cinco assoalhadas de tempo, onde cabe muita gente sem se terem de preocupar muito. Outros vivem em estúdios exíguos onde só cabe uma cama e o próprio ego. Há também aqueles que, apesar de terem casas mínimas, arranjam forma de lá meter imensa gente. São pessoas que acham que tudo que na vida se resolve arredando um móvel ou outro.

O tempo, como qualquer bem imobiliário, também valoriza conforme a zona. Há quem tenha um belo apartamento de tempo em bairros de luxo. Uma espécie de Lapa da disponibilidade, aonde pouca gente chega e, muitas vezes, depois de passar dias à espera para ser convidado para um mísero cafezinho de cinco minutos. Outros tempos moram em bairros velhos e degradados, que apesar de terem imensos anos de história para partilhar, ninguém quer lá ir. Talvez pelas alturas festivas demos lá um salto, porque parece mal se não formos. São casas de tempo a que só damos valor quando ficam vazias e devolutas.

Depois há os que têm tempos muito arrumadinhos, com as almofadas todas no sítio e que perdem a cabeça com uma única migalha no tapete. À conta disso têm poucas visitas.Também há quem tenha tempos desmazelados, cheios de pilhas de roupa por arrumar aos cantos e que dizem sempre que começa o mês de Janeiro: este ano vou dar uma volta à casa. Em Fevereiro está na mesma. Os filhos também nos mudam muito os tempos, deixam os brinquedos pelo chão, as camas por fazer e um dia vão-se embora e a gente já não sabe como se arruma a casa. E há aquelas pessoas tão importantes e ocupadas que para manter a casa têm de pagar a uma empregada. Mas isto é só para quem pode.
O tempo é um bem imobiliário. Pessoal mas transmissível. Custa muito a vender. Dá-lo, então, é uma dor, que uma casa custa muito a pagar, fizemos muitos sacrifícios para a ter, não se pode dar assim às boas. Partilhá-la também é difícil. Carece de muita paciência e jeito, porque não é nada fácil ajeitarmo-nos aos hábitos uns dos outros. E há quem não dê ponto sem nó e acabe por arrendar. Partilhar a casa sim, mas com contrapartida. E que, quando se forem embora, deixem a casa como estava, sem buracos nas paredes, nem riscos no chão. Que é para não haver recordações.

Mas acima de tudo o tempo que temos agora é sempre o melhor. Não adianta andar à espera de comprar aquele tempo enorme, com uma sala comum de cinquenta metros quadrados e vista para o mar. Não vai acontecer. E se acontecer, vamos passar a maior parte do tempo a suspirar pela casinha mínima onde fomos tão felizes e não sabíamos. É a vida. Faz parte. 

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De Um quarto para as nove a 01.03.2017 às 16:17

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