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Telhados pretos e a lenda das amendoeiras.

por Cristina Nobre Soares, em 22.05.16

Quando eu era miúda e as viagens de carro eram longas, pouco mais havia para fazer para além de dormir ou olhar pela janela. Não havia quase auto-estradas, as viagens faziam-se num ziguezaguear lento de estradas nacionais, que atravessavam vilas e aldeias. O país parecia interminável de tão pequeno que era. Lembro-me de gostar de contar as casas, com os seus telhados avermelhados. Por vezes apareciam umas casas diferentes. De telhados pretos, muito inclinados. Eu achava-as mais bonitas do que as outras. Por serem diferentes. Apontava-as e a minha mãe dizia, mas essas não são de cá. E explicava-me que as primeiras casas de telhados pretos, que tinham aparecido, deviam ser casas de emigrantes da Suíça e da França. Que os telhados lá eram pretos e inclinados por causa do frio e da neve. Depois, havia quem tivesse achado bonito, mesmo nunca tendo ido a França ou à Suíça, mandasse fazer a sua casa igual, com um telhado preto inclinado. Muitas vezes, numa terra onde nunca se teria visto cair neve.

Hoje, lembro-me recorrentemente das casas de telhados pretos, sempre que oiço terminologia inglesa metida à martelada no meio de conversas profissionais. Fica mais hype, mais moderno, é verdade. Mas em conversas feitas numa língua meridional, de verões quentes, secos e esdrúxulos, a neve e o frio verbal soarão sempre a postiço.

O que vem de fora sempre foi facilmente absorvido neste nosso pequeno rectângulo, sem grandes questões ou dúvidas. E acima de tudo, sem memória. A propósito disto, costumo citar uma frase dita por João da Ega, no livro “Os Maias”: “Aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, (…), tudo nos vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssima, com os direitos de alfândega: e é tudo em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas…”

A neve dos países mais a norte sempre nos fascinou desde o tempo da lenda das amendoeiras. Reza essa lenda, que por amor, um rei do sul, criou uma neve que consolasse os olhos da sua princesa do norte. Mas o rei criou uma neve de terras quentes, que teve de esperar pela primavera. Uma neve feita com as flores brancas de uma árvore que se dá bem nas terras de palavras quentes. Diz que a princesa curou o seu mal de saudade. E que nas terras do sul continuaram os terraços brancos. Foi esperto, este rei.

 

(Texto publicado, hoje, na Preguiça Magazine)

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