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Rubens, palavras caras e outras gorduras

por Cristina Nobre Soares, em 05.01.16

Um dia destes, enquanto folheava uma dessas edições da Taschen, sobre Rubens, fiquei por uns momentos a olhar para as pinturas cheias de mulheres opulentas e gordas. Lembro-me de alguém me ter dito, que naquele tempo a gordura era um sinal exterior de riqueza. Porque aquelas mulheres, cheias de refegos e de braços sapudos podiam comer o que queriam. Tinham acesso a luxos como o açúcar. As magras eram pobres. As que trabalhavam de sol a sol. Aquelas, não. Se eram gordas, era sinal que mais depressa morreriam de tédio do que de fome. Eu já fui gorda. Uma miúda gorda. Mas a minha gordura não era sinal exterior de riqueza, mas sim, sinal exterior de insegurança. Uma vez, ouvi alguém dizer que a gordura e as camadas de roupa que usamos para as cobrir, formam uma espécie de muro ente nós e o mundo. Todos criamos muros desses. Com diferentes tipos de gorduras. Uma delas é a que pomos na forma como comunicamos, como usamos as palavras. Principalmente se as escrevemos. Porque convenhamos, não é de bom-tom escrevermos como falamos, dirão vocês. É sinal de rudeza, até de uma certa falta de instrução. Para escrever seja lá o que for, há que puxar pelos nossos galões verbais, mostrar que sabemos da coisa. Que conseguimos morrer de tédio enquanto nos empanturramos com adjectivos e palavras decassilábicas, que não servem para mais nada senão para nos engordarem e nos entupirem os diálogos de colesterol. Ou então para fazerem de muro. Que nos resguarda a posição social. Ou nos protege contras outros medos avulsos. Como aquele de não percebemos bem o que nos dizem. O medo de parecermos intrusos, aldeões famélicos e escanzelados. Ou em linguagem que toda a gente percebe: Medo de passarmos por burros. Pena que não tenhamos igual medo daquelas palavras e expressões balofas, que transpiram tremendamente sempre que são escritas e que deixam qualquer leitor à beira da trombose. A mim causam-me pavor. Mas isso deve ser por já ter sido gorda.

 
 
 

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1 comentário

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De claudia de sousa dias a 14.01.2016 às 17:42

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