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Passe L1

por Cristina Nobre Soares, em 06.09.17

A cidade acabava na praça ao pé da estação de Algés. Ali, como quem descia do Restelo. Da rua dos eléctricos em diante já não era cidade, era subúrbio. Dali em diante o passe da Carris passava a ter números à frente do L. Quanto mais embrenhado no subúrbio mais números tinha. Enquanto o autocarro subia até ao meu bairro, a cidade ia ficando para trás. A cidade, esse centro de tudo, feito de depuradas linhagens urbanas, garantidas pelos limites dos bairros certos. Dali para a frente não havia nada disso. No subúrbio não havia raízes, porque não há raízes que consigam deitar corpo no cimento e no pré-fabricado. As raízes do subúrbio tinham ficado lá, na terra aonde todos os suburbanos iam sempre que podiam. Um suburbano não era um urbano. Era alguém, que à semelhança do passe da Carris, tinha um prefixo a revelar que não pertencia à palavra original. Era um acrescento, um anexo da casa principal onde se deixam as roupas do campo para não enxovalharem a sala. O autocarro parava. O meu bairro ficava num dos terminais. Era o fim da linha. Mas um fim de linha onde nunca se chegava. Só se partia.

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1 comentário

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De David Marinho a 07.09.2017 às 05:39

Descrição perfeita. Adorei!

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