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Pão por Deus

por Cristina Nobre Soares, em 31.10.17

Mesmo depois de se lhe começar a falhar a memória Manel Cipriano continuaria a contar as mesmas duas histórias. Uma delas era a da primeira vez em que metera o dente num bolo fino. Fora num Dia de Todos os Santos. A senhora dona Maria do Amparo, a da Casa Grande, mandara dar bolos finos, mandados vir de uma pastelaria de Lisboa, ali para os lados do Rossio, a todos os catraios que lá fossem pedir o Pão por Deus, em vez das broas de erva-doce dos outros anos. Contara a Rosa, que era lá criada de dentro, que os bolos tinham sido por causa uma promessa que a senhora fizera por o seu mais novo se ter livrado do tifo. Que as doenças até aos ricos calham. Manel Cipriano não se conseguia lembrar de quanto anos tinha quando isto acontecera, só que nunca mas voltara comer bolos assim, nem nos casamentos, que a Maria Dulce era muito boa doceira, mas só com mão para o mais do mesmo. Não, não se conseguia lembrar quando isto acontecera, mas tinha ideia que fora muito antes do exame da quarta classe, dia em que calçara o seu primeiro par de sapatos. E esta era a outra memória que tinha.

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1 comentário

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De j.campião a 01.11.2017 às 10:59

Dizes pouco das personagens deste texto, mas ao mesmo tempo dizes tudo. Muito bom.

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