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Os cemitérios

por Cristina Nobre Soares, em 13.11.17

O cemitério que por vezes visito com a minha mãe é um sítio ermo, vazio, tão vazio que nem sombras tem, só as nossas. Mesmo ao Sábado ou ao Domingo pouca gente se vê, e esses poucos, na sua maioria, são velhos. As pessoas mais velhas sabem o que têm de fazer, lavam e escovam as campas, partem os pés das flores, ajeitam-nas por cores nas jarras, varrem o lixo com vassourinhas. Como se o afecto se revelasse no primor com que arranjam a campa. As pessoas mais novas cumprem ordens, mas sempre com um ar muito desajeitado, sem saberem como porem o corpo e deixam-se ficar por ali, supérfluas. As campas mais novas ainda têm flores frescas, mas com o tempo vão sendo substituídas pelas das de plástico. Compõem na mesma e duram mais. E assim espaçam-se mais as visitas. Porque ninguém gosta de ir ao cemitério. E ninguém vai. É um sítio pesado e triste, construído para ser pesado e triste, onde se têm pensamentos pesados e tristes. E não tem mal. É assim que lidamos com a morte: de uma forma pesada e triste. Noutros sítios farão as coisas de maneira diferente, e diremos, olha, que engraçado, lá na minha terra fazemos de outra maneira. Não é melhor nem pior, nem mais bonito nem mais feio. É o que é. Muitas vezes, o maior peso que as coisas parecem ter vem da falta de vontade de as aceitarmos como realmente são.

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1 comentário

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De Maria Araújo a 14.11.2017 às 18:41

Belo post.

"As campas mais novas ainda têm flores frescas, mas com o tempo vão sendo substituídas pelas das de plástico. Compõem na mesma e duram mais. E assim espaçam-se mais as visitas. Porque ninguém gosta de ir ao cemitério. E ninguém vai. É um sítio pesado e triste, construído para ser pesado e triste, onde se têm pensamentos pesados e tristes. E não tem mal. É assim que lidamos com a morte: de uma forma pesada e triste."

Enquanto viver, farei as minhas visitas quinzenais, as flores frescas estarão lá nas campas dos meus familiares, os círios arderão até ao último fio do pavio, e porque o cemitério é um lugar que me dá alguma tranquilidade e pequenos momentos de conversa com os meus.

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