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Os alter egos de Bordalo

por Cristina Nobre Soares, em 23.10.17

Está a fazer um ano que tive a sorte de participar neste projecto maravilhoso. Está a fazer um ano que, juntamente com a Inês Fouto que encarnou os textos e com a Mariana Calaça Baptista que coordenou este projecto, o Parque D. Carlos I, nas Caldas da Rainha reviveu Bordalo Pinheiro.

"A Marquesa" foi um dos textos que escrevi para este espetáculo.

Há memórias boas. Esta é uma delas. 

 

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A Marquesa

 

Hoje, encontrei numa velha caixa de chapéus esta fotografia que tirei com o meu querido Rafael Augusto. Quis recordar-me de quando foi tirada, mas a minha memória já não é como era dantes. Falha-se-me. Uma maçada. Dantes lembrava-me de tudo, dos detalhes todos, mesmo aqueles que as pessoas impacientes acham comezinhos. Uma lembrança sem detalhes não é uma lembrança, é apenas tempo avulso, sem pilhéria nenhuma. Pena não ter escrito a data na parte de trás. Tenho ideia que foi num Verão, numa temporada às termas. Sempre sofri muito dos ossos. Desde rapariga nova. Uma cruz. Recomendou-me as termas o doutor Oliveira de Macedo, que tinha consultório na Rua das Flores. Seis semanas de águas sulfurosas. Um horror! Engraçado, lembro-me do dia em que foi tirada, mas da data, não. E lembro-me que nesse dia, ele, o meu querido Rafael Augusto, ofereceu-me um pequeno sapo de louça. E eu perguntar-lhe, marota, se era suposto dar-lhe um beijo, e ele a rir-se, ora, ora, que raio iria fazer uma marquesa com um príncipe de loiça? Um pândego, este meu querido Rafael Augusto. Nasceu duas casas abaixo da casa da minha tia Maria Antónia, a que me ensinou a tocar piano. Senhora austera, sempre vestida de preto, ainda que nunca tenha sido viúva. Só da boa disposição. Mas senhora virtuosa da música, com estudos particulares em Paris que quis por que quis ensinar-me a tocar. Um sofrimento. Porque foi coisa que eu sempre detestei e que me deixava umas dores fininhas, terríveis, nos nós dos dedos. Sempre sofri muito com os ossos. E com o frio também. Desde gaiata. Adiante. Quem diria, que duas casas abaixo, enquanto eu fazia escalas, de costas bem direitas, que uma menina tem de se saber sentar, a minha tia a dizer, tinha o meu querido Rafael Augusto. Nunca lhe disse, mas sempre achei que a Maria da Paciência dava uns certos ares à minha tia Maria Antónia. Que, curiosamente, também tinha um gato. Não se chamava era Pires. Não me lembro do nome do gato, que era siamês e insuportável. Como a minha tia. Tareco? Não, não me lembro mesmo, a minha memória realmente já não é o era. Que as piores artroses são as que nos chegam à memória, valha-me Deus. Voltando à fotografia: foi num Verão, numa temporada às termas. Não me lembro da data, mas lembro-me que foi no dia do baile do parque. O meu querido Rafael Augusto era dado a muitas artes, mas a de dançar era-lhe menor. Não se pode ter engenho para tudo nesta vida. Mas ainda assim, pedi-lhe uma valsa. A única valsa que pedi a um homem, ainda por cima, casado. A tia Maria Antónia se soubesse disto benzer-se-ia três vezes, uma menina tem de se saber sentar e não convida um homem casado para dançar! Pois, sim. O que ela, a minha tia, nunca soube é que sempre tive pouco de menina e mais de andorinha. Lembro-me que havia uma série de ninhos delas no telheiro da cozinha. A minha tia mandava as criadas destruírem os ninhos, que o raio dos pássaros só fazem barulho e sujam a pedra toda, mas a Gertrudes, a cozinheira não deixava. São as galinhas de Nossa Senhora, dizia ela. Mexer-lhes nos ninhos dá azar. Enquanto dançávamos no parque, contei esta história ao meu querido Rafael Augusto. Ele riu-se muito. Disse-me que eu tinha alma de andorinha. Que disparate, Rafael Augusto, onde já se viu uma mulher cheia de espartilhos e outras condições apertadas ter alma de pássaro? E ele olhou para mim, parou de dançar, pôs o monóculo no olho direito e disse rompante: Temos de tirar de um retrato! Chamou o fotógrafo, que andava na alameda a registar o acontecimento, olha o passarinho, eu rir-me que nem uma perdida e uma encomenda de papel pardo a chegar-me a casa meses depois. Uma encomenda para si, senhora dona marquesa, a minha criada de “chambre” a dizer-me e lá dentro, esta fotografia e, Deus meu, uma andorinha de loiça. Na parte de trás da fotografia, apenas uma frase sem data: Alma de pássaro, minha querida, têm todos aqueles que não se contentam em ser aquilo que os mandaram ser.

 

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1 comentário

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De j.campião a 23.10.2017 às 21:03

Os meus parabéns pelo excelente texto (!) e o meu obrigado pela partilha.

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