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O medo de cair

por Cristina Nobre Soares, em 14.05.16

No parque há uma mulher sentada no banco do jardim. Observa um miúdo que atira pedacinhos de pão a um bando de pombos. Explica-lhe como deve fazer, mas o miúdo está mais interessado em correr e em assustar os pombos para os fazer voar. Não corras, olha que ainda cais, diz-lhe a mãe. O miúdo ignora e continua a correr. A dada altura desequilibra-se, deixa cair o saco do pão e a mãe, num gesto reflexo estica os dois braços e grita-lhe: ai, que tu cais! Não caiu.

Quando nos morre um pai a nossa própria morte entra-nos pelos olhos adentro. Percebemos que podemos cair a qualquer momento. Como se tomássemos consciência do frágil equilíbrio que é a nossa existência, onde a única coisa garantida é a queda iminente.
Mas quando nos nasce um filho percebemos que temos medo de morrer. Porque passa a ser possível doermo-nos num corpo que não é o nosso. Porque passa a ser possível morrer mais do que uma vez. E mais do que as nossas quedas, passamos a temer as deles.

Quando nos nasce um filho achamos que a perfeição, aquela que não temos, vai ser possível. Porque se os nosso filhos forem perfeitos nunca cairão. Quando nos nasce um filho achamos que vamos ser melhores pais do que os nossos foram. Obviamente. Que vamos educar criaturas que serão absolutamente felizes, a transbordar de recordações perfeitas. Claro que não vamos. Vamos cair e esfolar-nos na mesma.

Fica quieto, não corras. Olha que cais. Ou corre apenas onde o mundo for forrado a tapete de pneu reciclado. Assim, não te aleijas. E eu também não. Num mundo cheio de rankings, cheio de algoritmos e manuais sobre como ser feliz, num mundo cheio de filtros nas fotografias, para limpar as falhas da vida, talvez a nossa maior imperfeição seja o medo de sermos imperfeitos. O medo de cairmos. De vivermos de joelhos e cotovelos esfolados. Olha que cais, gritamos. Mas se não cairmos nunca teremos consciência do peso da nossa existência. E sem essa consciência não conseguimos andar pelas próprias pernas. Muito menos, voar.

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4 comentários

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De a mãe a 14.05.2016 às 19:50

Ainda de fraldas, a minha filha filha corria que nem uma "desalmada".
-Olha que cais!
E ela, sempre a correr. E a rir:
-Ai cai, cai! Ai cai, cai... Ai cai,cai! Ai cai,cai....

Hoje, com 30 e alguns anitos, continua assim. A correr pelo mundo, a rir e:
-Ai cai, cai... Ai cai,cai...

E assim, se vai longe.
(E a mãe sempre a ler as últimas dos jornais "do longe" por onde ela corre. É a vida. ;)
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De Simão a 14.05.2016 às 20:09

Se não fosse o cromo do Newton, não haveria gravidade, logo, não cairíamos. Assim... caímos e não é pouco.
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De Anónimo a 15.05.2016 às 05:03

Admiro as pessoas que acordam de manhã com alegria no coração, que têm coragem de se levantar depois das quedas. Não precisam de elogios nem de aplausos. Pessoas que têm a coragem de persistir depois de receber um "não", que são sensíveis e se emocionam com a dor do próximo. Pessoas que compreendem que um exemplo vale mais que mil palavras.
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De Pois… a 15.05.2016 às 08:42

Mas há quedas e quedas.
Uma das últimas que dei, faz-me estar aqui de braço ao peito.
E isto não é ironia, (antes fosse).
As outras.
Essas fazem-nos crescer.

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